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No cenário do RAP carioca, correndo por
fora dos holofotes da mídia viciada, estavam uns poucos jovens,
numa trilha independente e mais áspera, trabalhando dentro
dos princípios meritocráticos. Desses poucos que corriam por
fora nasceu o Quinto Andar que, mesmo com idas e vindas manteve-se
teimoso e persistente, somando esforços para sedimentar os
objetivos: um por todos e todos por um.
Muitos se conheceeram por meio da internet
ou na Lapa, no Rio, centro nervoso do HipHop na antiga Zoeira
de Elza Cohen. Do grupo, o primeiro a gravar CD solo foi o
DELEVE projetando-se na mídia. Chamado de o Eminen
brasileiro DELEVE não se incomoda e até
acha que isto é reconhecimento, inclusive, porque é
admirador do MC americano, país onde todos sabem, nasceu
o HipHop.
O Quinto Andar surgiu como conseqüência
das dificuldades individuais dos que o compõe. Dificuldades
variadas como não conseguir, cada um, produzir seu próprio
CD, dificuldades para encontrar espaço na mídia, espaços para
shows e assim, colaborar com a sedimentação do gênero musical
do HipHop.
Na verdade o coletivo Quinto Andar é uma
espécie de escada onde cada membro é um degrau de forma que
um serve de passagem para o outro. Assim se supõe e até aqui,
seus membros vão, supostamente, seguindo unidos.
Bruno acho que cada um é
um degrau que compõe a escada que é o Quinto Andar, ponto.
Acho que ninguém encara a coisa, o grupo, a união, de uma
forma oportunista, pra se dar bem individualmente, e sim pra
que todos se dêem bem juntos. Nos darmos bem individualmente
é uma conseqüência.
Shaw acho que a princípio o que a gente quer
é fazer som, tentamos sim fazer do Quinto Andar um símbolo
de qualidade e inovação no RAP, para que assim, os componentes
do coletivo poderem se beneficiar com a credibilidade que
construímos para nome.
Quanto à união tem que haver nem que seja à força .. rsrsrs
: o Lombriga, o Gato Congelado, o King e o Primo ficaram fora
desse álbum. Existe a intenção forte deles fazerem o CD do
Quinto com os integrantes que ficaram de fora, mas não depende
de nós e sim deles, já estão avisados de que contam com nosso
total apoio e os ajudaremos no que for necessário, mas, a
iniciativa tem que partir deles assim como a iniciativa desse
álbum partiu do Quinto/Rio. Só não fizemos um álbum com o
Quinto todo porque o Quinto Andar é uma zona ...rsrsrsrs...
e seria quase impossível organizar e fazer os preparativos
pra que um saísse um CD, além do mais sem dinheiro nenhum.
Mas isso é mesmo uma coisa com a qual eu sonho muito que é
ver um álbum de todos juntos. E isso é união porque ninguém
fica esquecido. Tanto não fica esquecido que fiz questão de
deixar isso registrado.
Quem afinal carrega o barco? E os atritos?
" um por todos e todos por um " até que ponto
é mesmo confiável?
Bruno Musicalmente todos
têm sua contribuição e seu mérito, juro.
Na parte burocrática uns correm mais atrás que outros, mas
acho isso natural. Rolam estresses e cobranças também, pois
não temos um escritório, um patrão, ninguém pra ficar passando
a mão na cabeça da galera. Corremos atrás de tudo. Somos amigos,
esse é o ponto principal, primeiro veio a amizade, depois
os interesses, o gosto musical em comum. Depois veio o 'trabalho'.
só com amizade existe confiança. Nunca me envolvi musicalmente
com pessoas que eu não tivesse amizade, confiança e empatia
musical. Falando assim parece um conto de fadas, ou um depoimento
de um global no faustão; é claro que rolam desentendimentos
e brigas, mas são contornados.
Shaw não tenho medo algum de levar rasteira
de ninguém, até porque, se eu cair só não levanto se estiver
morto, mas confio muito nos meus amigos e sei que antes de
colegas de trabalho nós somos amigos de verdade, qualquer
discordância é logo resolvida através do diálogo, teve uma
época em que todos estavam levando rasteira, mas, logo descobrimos
quem tava vacilando e resolvemos de maneira muito simples
e pacífica. Quinto Andar tá aqui firme na paz. As opiniões
diferentes, que não chegam a ser atritos, a gente resolve
conversando mesmo que conte alguns decibéis a mais. No final
dá tudo certo.
Nosso patrão é o Quinto Andar. Se por um lado nós temos flexibilidade,
por outro a responsabilidade é muito maior. Assim, se eu não
cumprir minha tarefa muito bem feita, no tempo certo, no prazo
e com qualidade, eu sei que vou acabar prejudicando ou um
ou todos. É aqui que eu me sinto no lugar de “um por todos”.
No final, um trabalho mal feito acaba se voltando contra a
imagem de cada um.
DELEVE Não sei. O que sei
é que cada um acaba, querendo ou não, contribuindo com um
ponto em comum que é o trabalho dos demais. Querendo ou não
o disco do Quinto vai contribuir com o meu disco que já foi
lançado, porque vai nos colocar em evidência e eu vou
estar ali no meio, e eu estando ali no meio também vou acabar,
querendo ou não, divulgando minha "parada". A máxima “um por
todos e todos por um” vale até quando todos agem como ela.
O dia que isso acabar acaba a confiança. Não vou ficar paranóico,
fazendo teoria da conspiração com meus amigos, o dia que acontecer,
se acontecer, beleza, aí eu passo a pensar no assunto.
Para facilitar os custos com produção
de CDs, divulgar o trabalho individual de seus membros, uniram-se
ao último elemento do Grupo: um estúdio de gravação, o Tomba
Records, de Bruno Marcus, ex-roqueiro, que compra a idéia
e entra na parada.
Na divulgação, quase espontânea, admiradores
do “coletivo” contribuem com a feitura do site, divulgação
na imprensa impressa e virtual, rádios comunitárias e outras
formas de comicação. Na internet, a comunidade no Orkut, onde
o Quinto Andar tem mais de 3.000 participantes, fiéis admiradores.
Os membros do Quinto Andar se espalham
por outros estados do Brasil : Shaw, 21 anos, Tapechu, 22
anos (Rio de Janeiro ), Bruno Marcus, 29 anos, De Leve, 23
anos, DJ Castro, 27 anos (Niterói). Kamau, 27 anos, Lumbriga
Tremosa, 26 anos, (São Paulo), Matéria Prima, 25 anos, ( Belo
Horizonte ) e Dj Primo, Paraná.
Encontro com o RAP, escolha e estrada
Bruno comecei gravar e
produzir RAP há uns 4 anos atrás, com 25anos, quando montei
meu estúdio. Foi opção, opção de trabalhar com musica, fazer
algo que me desse tesão, sem patrão, sem gravata, sem hora
pra entrar e sair. O envolvimento veio naturalmente, através
dos amigos e o envolvimento com música 'alternativa', que
rola desde moleque.
DELEVE Comecei no hiphop de brincadeira e quando
vi já estava gravando na casa do castro. Foi meio estranho
ouvir minha voz gravada pela primeira vez mas depois acostumei-me.
De minha parte foi opção primeiro, depois porque vi que tinha
um potencial de entrar um dinheiro. Até porque trabalhar,
fazer o que gosta e ganhar dinheiro com isso é a melhor coisa.
Shaw num sei quanto aos outros, mas, eu estou
há 10 anos já e sei que é mais do que o Lumbriga, o
Congelado. o Primo, Matéria Prima, o De-Leve e o Tape. Acho
que os que estão a mais tempo sou eu, Castro, King e Kamau.
Shaw não tem certeza do momento
exato pois tudo convergia para o mesmo caminho. Rememora seu
primeiro encontro com o HipHop quando ouviu o som do Biohazard
com o Onix chamado Judgement Night (94) — 'nessa época eu
tinha 10 anos de idade'.
Shaw eu conheci o RAP através
do skateboard, ( quando eu ouvi o Biohazard etc ) eu queria
ser skatista PRO rsrsrsrs, mas logo comecei a gostar tanto
do RAP que decidi fazer só isso da vida. Foi uma escolha,
eu sabia que não queria um emprego fixo das 9 às 6 e de segunda
a sábado. O único jeito de eu ser feliz pelo que estava vendo,
seria sendo músico, quando me toquei já estava completamente
comprometido com o hip-hop, já tinha até largado totalmente
o skate (coisa que me arrependo hoje em dia, quero dizer,
o totalmente). Mas com certeza minha decisão de permanecer
no RAP aconteceu, definitivamente quando comecei a freqüentar
a Lapa, no Rio de Janeiro, em 1998 e só respirava HipHop.
Isso mais ou menos aos treze ou quatorze anos.
Fato foi que, aos 15 anos depois de participar
de uma coletânea organizada por Elza Cohen e D2, Shaw contribuiu
com a faixa nº8 do CD que foi lançado em encarte na Revista
Trip nº 80. Da lembrança do som do Judgement Night, 'que foi
quando comecei a compor, de lá para cá são 10 anos de estrada'
conclui.
E os pais?
Bruno meus pais sempre
me deram força, me ajudaram. Mas acho que não levavam muita
fé que me desse bem na parte mais artística, levavam mais
fé no trabalho de gravação, de técnico de estúdio. No fundo
acho que eles estão bem orgulhosos.
DELEVE Claro que quando você começa a fazer
sucesso as pessoas passam a acreditar mais em você, mas nunca
houve um impedimento, havia sim uma dúvida se aquilo ia, ou
não, dar certo, já que os pais querem sempre que os filhos
se dêem bem na vida, se já lá o que isso for.
Shaw – Eles têm respeito pela minha profissão.
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