Rimas unidas
Carlos Albuquerque

 

O Quinto Andar vê o rap de cima. No seu primeiro disco, “Piratão”, o coletivo formado pelos MCs De Leve e Shaw, o produtor Bruno e o DJ Castro sobra na turma e faz os clones de Racionais e Ja Rule parecerem formiguinhas. Longe dos estereótipos, irônico e sagaz, o grupo — nascido em 1999 e que inclui também os MCs Kamau, Tapechu e Matéria Prima — diverte, embala, critica e conscientiza, apoiado em rimas e batidas genuinamente made in Rio. Ou seja, nada de manos desta vez.

— São Paulo tem mesmo um clima rap, tem festa rap, tem movimento rap, tem até roupa de rap — diz De Leve, que debutou solo em 2003, com o cultuado “Estilo foda-se”. — Aqui no Rio não tem isso. Aqui todo mundo se mistura, é como na praia. O Quinto Andar é assim, misturado.

É mesmo. “Piratão” (lançado pelo selo Tomba e encartado na revista “Outra coisa”) tem rap, claro, mas também tem funk (“Montagem da bandeira”, “Melô do piratão”) e dub reggae (“Ritmo do nosso país”, “Muita falta de antiprofissionalismo dub”). Na moral: é funk e dub reggae com cara de Quinto Andar. Tudo com assinatura própria. Cópias, só no andar de baixo.

— O disco tem essa diversidade porque reflete o gosto de cada um — explica Bruno, ex-integrante da banda de ska rock Enzzo e dono do estúdio onde foi gravado o disco.

— O Bruno tem coisas mais rock. O Castro toca muito reggae e ragga — disseca De Leve. — O Shaw é mais do hip hop mesmo. E eu puxo as coisas mais pra eletrônica e pro funk.

Se o som é legal, com um delicioso sabor caseiro, mas com preciosos detalhes (repare no pitch desacelerado de “Montagem da bandeira” ou na voz de Miguel Arraes sampleada em “Madruga”), nas letras o Quinto Andar — que toca na próxima quinta-feira, no Circo Voador, dentro do festival “Rock me” — é contundente, tirando onda com a indústria do disco, Ronaldo Fenômeno, Casas Bahia, Coca-Cola, Leandro, Detonautas e LS Jack, entre muitos outros. Mas com humor e sem cintura dura.

— Isso tem muito a ver com o De Leve, que tem um jeito debochado — conta Bruno.— O senso de humor sempre esteve presente no Quinto Andar. É um jeito legal de criticar e fazer pensar divertindo, sem ficar sendo repetitivo ou soando como uma cópia dos Racionais.

Um dos momentos mais divertidos do disco é a vinheta “Cara de cavalo encontra De Leve”, na qual o hilário personagem da Pepa Filmes tenta convencer o rapper a gravar um disco com ele.

— Isso foi gravado de sacanagem na casa do Castro e nem era pra ter entrado no disco — conta De Leve. — Mas acabou ficando engraçado.

Para um grupo que se manteve na ativa via internet, com suas primeiras demos circulando livremente pela rede, nada mais natural que “Piratão” vá ganhar desdobramentos on-line .

— A gente vai botar umas batidas e a capelas do disco no nosso site pra neguinho poder fazer remixes — anuncia De Leve.

— O grupo só existe por causa da internet. Nossa primeira divulgação foi via Napster — completa Bruno.

— Não tem essa que atrapalha. A internet é a maior ajuda pra galera independente. Ouça trechos em www.oglobo.com.br/cultura O sagaz coletivo Quinto Andar debuta com o disco ‘Piratão’ .

 

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