Danilo
Gomes - Escritor, jornalista, pesquisador,
vice-presidente da Associação Nacional dos Escritores
e assessor de imprensa no Palácio do Planalto.
O
primeiro contato com o novo e quase varonil vizinho
Não
era exatamente a manhã que eu escolheria. Na verdade, eu
a preferiria fria, com sol brando, vento soprando de leve nas
árvores da rua; meio cinzenta e com jeito de chuva. Mas
o que tínhamos era a manhã que Deus mandou: quente
, sol bravo, verão, dezembro. Deus mandou, mas o homem
contribuiu, destruindo florestas, rompendo a protetora camada
de ozônio, desequilibrando a natureza. Entretanto ecologicamente,
era aquela a manhã que tínhamos louvado fosse Deus
que nos consentira vivê-la.
Pois
mergulhado na canícula da manhã, liguei o carro.
Enquanto esperava alguns segundos para que o motor - a gasolina
- se aquecesse, olhei para a esquerda, aleatoriamente. Dei de
cara com ele: um filhote de cão dálmata, a cabeça
enfiada nas grades do portão da garagem do novo vizinho,
em frente, do outro lado da rua. A carinha, buliçosa, se
intrometia pela abertura das grades de madeira, na casa recém-construída.
Olheio-o
por uns instantes, com uma ponta de ternura. Era um tiquinho de
gente, quero dizer, um tiquinho de cachorro: pequeno ainda, um
filhote, branco, com manchas castanhas. Parecia um filhote de
vaca: um bezerro, um novilho. Dei-me conta, então, de que
estava diante do mais novo morador da rua. Seus olhinhos espertos,
inquietos, inspecionavam o terreno, em estratégico. Olhava
para todos os lados, como bom guardião da casa. O rabinho
se agitava como uma bandeirola na popa de um pequeno barco. Pressuroso,
o cãozinho parecia descobrir o mundo.
De repente,
fitou-me curioso. Depois, como que percebendo que se tratava apenas
de um pacato cidadão de meia-idade partindo para o trabalho
no penúltimo dia do ano, desviou o olhar para os lados
e, muito elegantemente, recuou, livrou-se das grade e, como um
bravo guerreiro dálmata, avançou para o fundo da
casa continuando o seu cuidadoso trabalho de inspenção
e reconhecimento do terreno. Na rua, tudo corria normalmente;
cumpria agora vigiar a retaguarda. E lá se foi ele, pequenino,
um ponto de gente, quero dizer, de cachorro, mas garboso e varonil.
Bem, quase varonil: era inda um filhote...
Enquanto
rumava para o trabalho, naquela reta final do ano da graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo, fiquei matutando na sorte e no futuro
do jovem dálmata, que é cão - quando adulto
- de porte elegante, esbelto, resistente, faceiro, caçador,
veloz tenaz, famoso pelo filme de Walt Disney, A Guerra dos Dálmatas.
Ele terá
alguns vizinhos de raças bem diferentes Logo ao lado, perede-meia,
terá de conviver um um fila negro, de maus bofes, talvez
o mais feroz da jurisdição; inspira um medo ancestral,
ciclópico, abissal.
Em frente
terá o "Ríguel", que o husky siberiano,
já bem taludo, de minha filha; brincalhão, manso,
um ano de idade; olhos de um azul claríssimo, quase branco,
conforme a incidência da luz; resistente a uma temperatura
de 60 graus abaixo de zero. Não sei como esse cão,
que se dá bem no gelo no Alaska e nos frios do Canadá,
sobrevive ao nosso calor equatorial.
Pois
bem, também em frente o jovem dálmata terá,
à sua direita, dois velhos vira-latas simpáticos,
de bom comportamento burguês, que só latem para tirar
a poeira da garganta, embora vivam ressonando no asfalto o tempo
quase todo; zanzam pra lá e pra cá. Devem ter lá
suas namoradas, mas do que gostam mesmo, depois das patuscadas,
é cochilar como dois gordos gatos de armazém.
Ainda
em frente, ao lado do nosso "Ríguel" cinzentão,
o infante dálmata terá como vizinho um baita dogue
alemão, negro como azeviche e bravo como guerreiro zulu.
Ah, e
na ponta da rua, a poucos metros moram na mesma casa, em pacífica
convivência e oferecendo modelar exemplo de política
de boa vizinhança, um coker spaniel e um pastor alemão,
o Rin-Tin-Tin do pedaço.
Mas além,
há outros representantes da nobre raça canina, mas
é com os mencionados que o jovem dálmata fará
o seu aprendizado de sobrevivência na selva. Se for um perfeito
aristocrata, como herança genética que recebeu no
berço, sobreviverá desde que não dispense
uma boa dose de astúcia. Que ele saiba, com harmonia, mas
com altivez, conviver com esses companheiros, com todos os companheiros
que vivem nesta rua do Lago Norte, em Brasília. Nesta rua
e nesta área.
Que ele
cresça em graça e sabedoria - a sabedoria misteriosa
dos cães - e que tenha no futuro uma bonita fêmea
carinhosa e uma penca de lindos filhos buliçosos, e viva
o máximo que sua raça costuma viver e deixe uma
boa, amável lembrança neste nosso confuso e turbulento
mundo.
Bem-vindo,
pequeno vizinho! O velho vizinho que zarpa para o trabalho te
saúda e faz votos de que sejas feliz.
Sobre
: O escritor Danilo Gomes, um mineiro apaixonado pelo
Rio de Janeiro, é responsável por valiosa contribuição
à memória Histórica do Rio. Destacando-se
as seguintes obras de referências: Uma Rua Chamada Ouvidor
— inspirou a carnavalesca Rosa Magalhães a criar o samba-enredo
do Salgueiro, em 1991: "Me maço se não passo pela
Rua do Ouvidor", e Antigos Cafés do Rio de Janeiro,
com base em pesquisa de grande fôlego.