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Aires
Gomes, capitão de caravela
Danilo Gomes
A
esquadra do Almirante Pedro Álvares Cabral - dez
naus e três navios - aportou na baiana Porto Seguro,
em abril de 1.500, trazendo em seu bojo um Gomes. Era, certamente,
homem do mar com razoável experiência nas artes
da marinhagem, pois veio comandando um navio, cujo nome
não se sabe exatamente qual era.
De
que região de Portugal teria vindo esse Aires Gomes
da Silva, que integrava a companhia de 1.200 homens sob
as ordens do Senhor de Belmonte?
Parece
que essa memória se perdeu no tempo e nas brumas
do vasto, misterioso mar-oceano dos reis ibéricos.
Por
acaso ou intenção, estava descoberto o Brasil,
oficialmente, em nome del Rei D. Manuel o Ventusoso. Nus
em pêlo, na inocência ainda da Criação
e do Éden, indígenas côr de cobre, antes
assustados, vão chegando para perto das naus ancoradas
em porto aconchegante. A posse da terra, a Primeira Missa,
a carta célebre do nosso primeiro escriba, Pero Vaz
de Caminha, futuro escrivão da feitoria de Calicut,
na Índia distante, meta da frota cabralina.
Pois
a carta de Caminha a el Rei Nosso Senhor é que iria
perpetuar o nome desse Gomes quinhentista, capitão-de-longo-curso.
Com efeito, Aires Gomes está citado, dentre poucos
outros, no famoso documento do maneiroso escritor da armada
descobridora. Discorrendo sobre os silvícolas ( vá
lá, índios ), Caminha fez a pena correr sobre
o papel para registgrar este trecho:
' Porém não
levamos esta noite às naus senão quatro
ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão
de Miranda, um que já trazia por pajem; e Aires
Gomes a outro, pajem também'.
Aires
Gomes vem citado na carta que trouxe à posteridade
os nomes de apenas mais estes companheiros da aventura brasílica:
Pedro Álvares Cabral ( então Gouveia ), Pero
Escobar, Vasco de Ataíde, Nicolau Coelho, Afonso
Lopes, Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Aires Corrêa,
Bartolomeu Dias, João Telo, Frei Henrique, Diogo
Dias, Afonso Ribeiro e Jorge de Osório.
Descoberta
a Terra de Vera Cruz, regressa a Lisboa a caravela de Gaspar
de Lemos, levando a carta, a dar alvíssaras. E a
02 de maio a armada parte para a Índia, como dois
anos antes a de Vasco da Gama, o herói da epopéia
camoniana. Segue em direção àquele
Eldorado aa brava frota do Senhor de Belmonte, com objetivos
de ocupação, domínio e comércio.
E
o Capitão Gomes comandava a sua nau, sequioso, talvez,
de riqueza, de brasão, de peripécias no Oriente
sedutor. Lá ia ele afrontando o Atlântico tenebroso,
rota de especiarias, mas também cemitério
marinho. Na nau capitânia, o grande Almirante singrava
as águas intermináveis. Semanas e semanas
de céua e mar.
Mas
cuidará o leitor, talvez, que faço gabo de
descender do valoroso Capitão Aires Gomes da Silva?
Pensará, quem sabe, que este pequeno escriba busca
uma nobre ancestralidade, contemporânea da Descoberta,
na pessoa do capitão-de-longo-curso imortalizado
na carta de Pero Vaz?
Ledo
engano! Pobre Aires Gomes!
Pois
lembro a todos que, na demanda da ìndia, perderam-se
pelo caminho alguns navios, como os Bartolomeu Dias, de
Simão de Pina, de Diogo Dias e de...Aires Gomes.
Naufragaram antes de chegar ao assustador Cabo das Tormentas
( agora já Boa Esperança ).
Coitado
de Aires Gomes - não veria a Índia promissora,
nem retornaria à sua jeira de terra portuguesa (
no Douro, no Minho, na Beiraa Alta, em Cezimbra? ).
Meus
Gomes vieram para Minas em meados do século XVIII
, conforme ensina o Cônego Raimundo Traindade num
livro antigo, sobre a genealogia da Zona do Carmo. Vieram,
por certo, catar ouro, arar a terra melhorar de vidaa. Vieram
e ficaram.
Pode
até ser que esse Gomes da frota de Cabral e da carta
de Caminha tenha sido mesmo antepassado deste que agora
vos lembra um episódio feliz que, para alguns, redundou
em naugrágio, quiçá numa noite escura,
feita de medo e de espanto. Pode ser.
Seja
como for , relendo a carta de Caminha, senti vontade de
lembrar esse Aires Gomes da Silva que viveu os lances da
descoberta do Brasil, já lá se vão
500 anos.
Descanse
em paz, velho Gomes, que levou nas retinas e visão
de alguma bonita índia brasileira, alguma Iracema
de Porto Seguro, a quem talvez tenha dado um colar de miçangas,
um espelho ou uma flor silvestre, na esperança de
voltar.
Descanse
em paz, velho Gomes, que viu o Brasil nascendo e foi morrer
no mar, sob gaivotas e estrelas que de repente se apagaram.
Sobre
: O escritor Danilo Gomes,
um mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro, é responsável
por valiosa contribuição à memória
Histórica do Rio. Destacando-se
as seguintes obras de referências: Uma Rua Chamada
Ouvidor — inspirou a carnavalesca Rosa Magalhães
a criar o samba-enredo do Salgueiro, em 1991: "Me maço
se não passo pela Rua do Ouvidor", e Antigos Cafés
do Rio de Janeiro, com base em pesquisa de grande fôlego.
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