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Por trás da treliça
Glória Alvarez
25, março/2007

 

Assim que o vi, sentado de frente para a mulher de joelhos e sem qualquer treliça impedindo que se olhassem, estranhei. E tive vontade de me confessar também. Estava emocionada com a beleza da missa. Com o contato direto com peregrinos apoiados em seus cajados, mochilas nas costas, rostos cansados, concentrados. Pareciam felizes. Ler mais

 
Natação : Prazer, Esporte, Meditação
Flávio Calazans
02, Março/2003

Fim de Ano

Maria Luiza Curti
21, Dezembro/2002

Em memória quântica

Maria da Penha Vieira
03, Outubro/2002

Incompatibilidade

Frô
afrodite_fro@uol.com.br
03, Maio/2002

Nunca tive unhas grandes. Apesar de sempre achar bonitas as moças que conseguiam manter aquelas garras enormes sobre os dedos.

Talvez porque meu perfil moleca, desde cedo, não permitisse tal façanha e na mínima chance já estava subindo em árvores, andando de carrinho de rolemã...

Os buracos do Barbado

Maria Luiza Curti
mlcurti@uol.com.br
12, Março/2002

Todos os anos, na estação chuvosa, as ruas que ladeiam o Córrego do Barbado em Cuiabá ficam coalhadas de buracos que as águas das chuvas abrem no asfalto. São sempre os mesmos. Penso que já os conheço bem pelo velho hábito de trafegar por ali.

O Xá do Irã e os poetas

Danilo Gomes
23/junho/2001

 

Há cinqüenta anos, em 12 de fevereiro de 1951, o jovem imperador da Pérsia ( ou Xá do Irã) Muhammad Reza Pahlevi casava-se com a ainda mais jovem Soraya Isfandiari Bakhriari, educada na Europa. O monarca usava uniforme de general, enquanto a noiva trajava...

O primeiro contato com o novo e quase varonil vizinho
Danilo Gomes
23/junho/2001

 

Não era exatamente a manhã que eu escolheria. Na verdade, eu a preferiria fria, com sol brando, vento soprando de leve nas árvores da rua; meio cinzenta e com jeito de chuva. Mas o que tínhamos era a manhã que Deus mandou: quente , sol bravo, verão, dezembro. Deus mandou, mas o homem contribuiu,...

Danilo Gomes - Escritor, jornalista, pesquisador, vice-presidente da Associação Nacional dos Escritores e assessor de imprensa no Palácio do Planalto.

Macarrão, "cosa nostra"
Danilo Gomes

Enquanto a esquerda e a direita se digladiam, em guerrilhas e patrulhas, buscando salvar o mundo, isto é, este planeta de quinta grandeza, vamos falar - alienadamente - sobre o macarrão. Antes que as hostes litigantes, em disputas milenares, levem tudo pelos ares, como numa alegre noite de São João ou numa trágica Noite de São Bartolomeu, falemos um pouco sobre macarrão, manjar que algutina, como um milagre de San Gennaro, a esquerda, a direita, o...

Aires Gomes, capitão de caravela
Danilo Gomes

A esquadra do Almirante Pedro Álvares Cabral - dez naus e três navios - aportou na baiana Porto Seguro, em abril de 1.500, trazendo em seu bojo um Gomes. Era, certamente, homem do mar com razoável experiência nas artes da marinhagem, pois veio comandando um navio, cujo nome não se sabe exatamente qual era.

De que região de Portugal teria vindo esse Aires Gomes da Silva, que integrava a companhia de 1.200 homens sob as ordens do Senhor de Belmonte?

Parece que essa memória se perdeu no tempo e nas brumas do vasto, misterioso mar-oceano dos reis ibéricos.

Por acaso ou intenção, estava descoberto o Brasil, oficialmente, em nome del Rei D. Manuel o Ventusoso. Nus em pêlo, na inocência ainda da Criação e do Éden, indígenas côr de cobre, antes assustados, vão chegando para perto das naus ancoradas em porto aconchegante. A posse da terra, a Primeira Missa, a carta célebre do nosso primeiro escriba, Pero Vaz de Caminha, futuro escrivão da feitoria de Calicut, na Índia distante, meta da frota cabralina.

Pois a carta de Caminha a el Rei Nosso Senhor é que iria perpetuar o nome desse Gomes quinhentista, capitão-de-longo-curso. Com efeito, Aires Gomes está citado, dentre poucos outros, no famoso documento do maneiroso escritor da armada descobridora. Discorrendo sobre os silvícolas ( vá lá, índios ), Caminha fez a pena correr sobre o papel para registgrar este trecho:

' Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pajem; e Aires Gomes a outro, pajem também'.

Aires Gomes vem citado na carta que trouxe à posteridade os nomes de apenas mais estes companheiros da aventura brasílica: Pedro Álvares Cabral ( então Gouveia ), Pero Escobar, Vasco de Ataíde, Nicolau Coelho, Afonso Lopes, Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Aires Corrêa, Bartolomeu Dias, João Telo, Frei Henrique, Diogo Dias, Afonso Ribeiro e Jorge de Osório.

Descoberta a Terra de Vera Cruz, regressa a Lisboa a caravela de Gaspar de Lemos, levando a carta, a dar alvíssaras. E a 02 de maio a armada parte para a Índia, como dois anos antes a de Vasco da Gama, o herói da epopéia camoniana. Segue em direção àquele Eldorado aa brava frota do Senhor de Belmonte, com objetivos de ocupação, domínio e comércio.

E o Capitão Gomes comandava a sua nau, sequioso, talvez, de riqueza, de brasão, de peripécias no Oriente sedutor. Lá ia ele afrontando o Atlântico tenebroso, rota de especiarias, mas também cemitério marinho. Na nau capitânia, o grande Almirante singrava as águas intermináveis. Semanas e semanas de céua e mar.

Mas cuidará o leitor, talvez, que faço gabo de descender do valoroso Capitão Aires Gomes da Silva? Pensará, quem sabe, que este pequeno escriba busca uma nobre ancestralidade, contemporânea da Descoberta, na pessoa do capitão-de-longo-curso imortalizado na carta de Pero Vaz?

Ledo engano! Pobre Aires Gomes!

Pois lembro a todos que, na demanda da ìndia, perderam-se pelo caminho alguns navios, como os Bartolomeu Dias, de Simão de Pina, de Diogo Dias e de...Aires Gomes. Naufragaram antes de chegar ao assustador Cabo das Tormentas ( agora já Boa Esperança ).

Coitado de Aires Gomes - não veria a Índia promissora, nem retornaria à sua jeira de terra portuguesa ( no Douro, no Minho, na Beiraa Alta, em Cezimbra? ).

Meus Gomes vieram para Minas em meados do século XVIII , conforme ensina o Cônego Raimundo Traindade num livro antigo, sobre a genealogia da Zona do Carmo. Vieram, por certo, catar ouro, arar a terra melhorar de vidaa. Vieram e ficaram.

Pode até ser que esse Gomes da frota de Cabral e da carta de Caminha tenha sido mesmo antepassado deste que agora vos lembra um episódio feliz que, para alguns, redundou em naugrágio, quiçá numa noite escura, feita de medo e de espanto. Pode ser.

Seja como for , relendo a carta de Caminha, senti vontade de lembrar esse Aires Gomes da Silva que viveu os lances da descoberta do Brasil, já lá se vão 500 anos.

Descanse em paz, velho Gomes, que levou nas retinas e visão de alguma bonita índia brasileira, alguma Iracema de Porto Seguro, a quem talvez tenha dado um colar de miçangas, um espelho ou uma flor silvestre, na esperança de voltar.

Descanse em paz, velho Gomes, que viu o Brasil nascendo e foi morrer no mar, sob gaivotas e estrelas que de repente se apagaram.

Sobre : O escritor Danilo Gomes, um mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro, é responsável por valiosa contribuição à memória Histórica do Rio. Destacando-se as seguintes obras de referências: Uma Rua Chamada Ouvidor — inspirou a carnavalesca Rosa Magalhães a criar o samba-enredo do Salgueiro, em 1991: "Me maço se não passo pela Rua do Ouvidor", e Antigos Cafés do Rio de Janeiro, com base em pesquisa de grande fôlego.

 

 

 

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