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A Máscara de Capelle

 

Surpresa!!!

Incompatibilidade


Frô
afrodite_fro@uol.com.br
03, Maio/2002

Nunca tive unhas grandes. Apesar de sempre achar bonitas as moças que conseguiam manter aquelas garras enormes sobre os dedos.

Talvez porque meu perfil moleca, desde cedo, não permitisse tal façanha e na mínima chance já estava subindo em árvores, andando de carrinho de rolemã, arranhando joelhos e braços, disputando campeonato de bolinha de gude, treinando para jogar o pião e fazer as manobras mais bonitas da turma de meninos bem machistas (como todos da década de 1970) e quando me dei conta que fazia parte de um grupo, quando o primeiro dente debaixo começa a ficar mole e a gente invariavelmente, no ano seguinte, entra na primeira série com aquela janelinha tão essencial pra demarcar: "Eu já tenho 7 anos! Não se atreva a me confundir com os iletrados pirralhos do pré com todos aqueles dentes de leite!"

Adolesci e nada mudou: continuei com aquelas unhas minúsculas, incompatíveis com os seios fartos, as nádegas que se alargavam, moldando um violão aos 14 anos. Era ridículo olhar dos meus 1,68m aqueles tocos de dedos que, diante das inúmeras crises de adolescente não- fumante, foram alvo das tensões.

Mas como sobreviveriam dez unhas bem feitas, duras e brilhantes companheiras de mãos que adoravam jogar handbol? Como sobreviveriam ao punho cerrado que adorava fazer kata, sombra e ficar longas horas exercitando na makiuara para ganhar alguns calinhos e sentir menos dor, quando desse um soco bem dado em algum atrevido que achasse um abuso o sansei colocá-lo pra fazer sombra com uma garota?

As unhas não cresceram, mas a karateca ganhou respeito nos campeonatos e quando chutou acidentalmente um faixa-marrom que a menosprezava, não a respeitando como adversária: um mês no hospital, namorada de cara amarrada, um horror...

Aos 38 anos, depois de tantos traumas e frustrações, finalmente ela conseguiu, talvez porque passasse a fumar e encontrasse um alvo para direcionar as crises de meia idade que não as pobres unhazinhas, não sei... Não foi fácil é preciso dizer. Sempre se sentia como um peixe fora d'água no salão de ladies de unhas tão bem cuidadas.

Primeiro ela teve de ser incisiva com a maninure-insistente que, por força do hábito, queria pintar os cotós de vermelho e que invariavelmente ouvia: "Não gosto de unhas pequenas pintadas de vermelho, vou ficar parecendo macaquinha de circo".

Demorou alguns meses para que a dona das unhas, agora já poderosas, condizentes com sua imagem de tigreza balsaquiana, permitisse que o pincel da manicure-insistente tingisse-nas de vermelho beterraba. Pôde comemorar o feito esperado por longos 38 anos, assistindo semanalmente as inúmeras expressões da manicure-realizada, certa de que era uma profissional competente e de que tinha transformado uma reles plebéia em uma lady! Dava gosto ver aquela cara feliz, expressando a missão cumprida, o trabalho bem feito, a tarefa realizada com total êxito!

Foi então que uma tragédia ocorreu, ontem, na sala de O Invasor. As garras e a dona viam o pai da aluna Manuela (uma graça de menina) e o também titã, Paulo Miklos, criando uma nova linguagem, nascida diretamente de seu convívio com o Sabotage >> (uma figura, sem dúvida, feita para as telas de cinema, embora seja completamente real e que merece um aparte em toda essa tragédia ) << percebi que as minhas belas e bem tratadas garras de tigresa, tão recentemente e às duras penas conquistadas, foram para o espaço. De repente sinto um rasgo sob o esmalte do dedo médio direito e estremeço: Deuses, não pode ser... será verdade?

Vi todos os meus esforços irem por terra, vi a cara da manicure decepcionada, pensando com aquele arzinho de "não adianta, viu! quem não nasce para ser lady, não nasce e pronto!" Fico pensando se manicures não deveriam ter bips, celulares, nexteis, e-mails etc. para essas emergências... O que essa profissional da saúde das garras me aconselharia? O que será que uma lady faria?

Como não obtive socorro algum, cortei-as todas, no toco. Retrocedi anos em minha civilidade e feminilidade de lady; fui derrotada em final de campeonato pelo Palmeiras e vi ,com nitidez, o riso dos porcos tripudiando sobre a fiel... Enfim não há como descrever tal fracasso: de volta ao começo, sem ânimo nenhum para esperar alguns longos meses e correr novamente o risco da derrota. Melhor voltar ao tatame e abandonar os salões...

 

 

 

Quando os deuses pintores humanos organizaram a fila para tingir a pele da criação, o Sabotage (como seu próprio nome dá pistas) entrou na fila três vezes, sem que os deuses se dessem conta, ou porque queriam criar ali uma verdadeira obra-prima, quem sabe? e ignoraram a sabotagem... O fato é que, sem cometer nenhum exagero, afirmo: não há negro em todo continente africano tão retinto como o nosso Sabotage brasileiro! Dá gosto ver como esse cantor de hip-hop da periferia (que gostou tanto de chegar aos 7 anos que resolveu ter algumas janelinhas na boca, para sempre, até segunda ordem) foi tão bem pintado, não há um espacinho nele que não seja negro, preto, daquele preto de fato e de direito, legítimo, sem nenhuma branca que lhe tire a pureza negra. (fecho o aparte), retomo a tragédia:

Diante de um filme surpreendente, nada piegas, sem bom-mocismo, eu diria mesmo um retrato fiel (se não fosse cruel), das relações entre os diferentes níveis da bandidagem que tomou institucionalmente o poder nas prisões, nas delegacias, nas periferias, nos bairros burgueses, nas empresas públicas e privadas.

Volta à leitura

 

 

 

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