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Nunca
tive unhas grandes.
Apesar de sempre achar bonitas as moças que conseguiam
manter aquelas garras enormes sobre os dedos.
Talvez
porque meu perfil moleca, desde cedo, não permitisse
tal façanha e na mínima chance já estava
subindo em árvores, andando de carrinho de rolemã,
arranhando joelhos e braços, disputando campeonato de
bolinha de gude, treinando para jogar o pião e fazer
as manobras mais bonitas da turma de meninos bem machistas (como
todos da década de 1970) e quando me dei conta que fazia
parte de um grupo, quando o primeiro dente debaixo começa
a ficar mole e a gente invariavelmente, no ano seguinte, entra
na primeira série com aquela janelinha tão essencial
pra demarcar: "Eu já tenho 7 anos! Não se atreva
a me confundir com os iletrados pirralhos do pré com
todos aqueles dentes de leite!"
Adolesci
e nada mudou: continuei com aquelas unhas minúsculas,
incompatíveis com os seios fartos, as nádegas
que se alargavam, moldando um violão aos 14 anos. Era
ridículo olhar dos meus 1,68m aqueles tocos de dedos
que, diante das inúmeras crises de adolescente não-
fumante, foram alvo das tensões.
Mas
como sobreviveriam dez unhas bem feitas, duras e brilhantes
companheiras de mãos que adoravam jogar handbol? Como
sobreviveriam ao punho cerrado que adorava fazer kata, sombra
e ficar longas horas exercitando na makiuara para ganhar alguns
calinhos e sentir menos dor, quando desse um soco bem dado em
algum atrevido que achasse um abuso o sansei colocá-lo
pra fazer sombra com uma garota?
As
unhas não cresceram, mas a karateca ganhou respeito nos
campeonatos e quando chutou acidentalmente um faixa-marrom que
a menosprezava, não a respeitando como adversária:
um mês no hospital, namorada de cara amarrada, um horror...
Aos
38 anos, depois de tantos traumas e frustrações,
finalmente ela conseguiu, talvez porque passasse a fumar e encontrasse
um alvo para direcionar as crises de meia idade que não
as pobres unhazinhas, não sei... Não foi fácil
é preciso dizer. Sempre se sentia como um peixe fora
d'água no salão de ladies de unhas tão
bem cuidadas.
Primeiro
ela teve de ser incisiva com a maninure-insistente que, por
força do hábito, queria pintar os cotós
de vermelho e que invariavelmente ouvia: "Não gosto de
unhas pequenas pintadas de vermelho, vou ficar parecendo macaquinha
de circo".
Demorou
alguns meses para que a dona das unhas, agora já poderosas,
condizentes com sua imagem de tigreza balsaquiana, permitisse
que o pincel da manicure-insistente tingisse-nas de vermelho
beterraba. Pôde comemorar o feito esperado por longos
38 anos, assistindo semanalmente as inúmeras expressões
da manicure-realizada, certa de que era uma profissional competente
e de que tinha transformado uma reles plebéia em uma
lady! Dava gosto ver aquela cara feliz, expressando a missão
cumprida, o trabalho bem feito, a tarefa realizada com total
êxito!
Foi
então que uma tragédia ocorreu, ontem, na sala
de O Invasor. As garras e a dona viam o pai da aluna
Manuela (uma graça de menina) e o também titã,
Paulo Miklos, criando uma nova linguagem, nascida diretamente
de seu convívio com o Sabotage >>
(uma figura, sem dúvida, feita para as telas de cinema,
embora seja completamente real e que merece um aparte em toda
essa tragédia ) <<
percebi que as minhas belas e bem tratadas garras de tigresa,
tão recentemente e às duras penas conquistadas,
foram para o espaço. De repente sinto um rasgo sob o
esmalte do dedo médio direito e estremeço: Deuses,
não pode ser... será verdade?
Vi
todos os meus esforços irem por terra, vi a cara da manicure
decepcionada, pensando com aquele arzinho de "não adianta,
viu! quem não nasce para ser lady, não nasce e
pronto!" Fico pensando se manicures não deveriam ter
bips, celulares, nexteis, e-mails etc. para essas emergências...
O que essa profissional da saúde das garras me aconselharia?
O que será que uma lady faria?
Como
não obtive socorro algum, cortei-as todas, no toco. Retrocedi
anos em minha civilidade e feminilidade de lady; fui derrotada
em final de campeonato pelo Palmeiras e vi ,com nitidez, o riso
dos porcos tripudiando sobre a fiel... Enfim não há
como descrever tal fracasso: de volta ao começo, sem
ânimo nenhum para esperar alguns longos meses e correr
novamente o risco da derrota. Melhor voltar ao tatame e abandonar
os salões...
Quando
os deuses pintores humanos organizaram a fila para tingir a
pele da criação, o Sabotage (como seu próprio
nome dá pistas) entrou na fila três vezes, sem
que os deuses se dessem conta, ou porque queriam criar ali uma
verdadeira obra-prima, quem sabe? e ignoraram a sabotagem...
O fato é que, sem cometer nenhum exagero, afirmo: não
há negro em todo continente africano tão retinto
como o nosso Sabotage brasileiro! Dá gosto ver como esse
cantor de hip-hop da periferia (que gostou tanto de chegar aos
7 anos que resolveu ter algumas janelinhas na boca, para sempre,
até segunda ordem) foi tão bem pintado, não
há um espacinho nele que não seja negro, preto,
daquele preto de fato e de direito, legítimo, sem nenhuma
branca que lhe tire a pureza negra. (fecho o aparte), retomo
a tragédia:
Diante
de um filme surpreendente, nada piegas, sem bom-mocismo, eu
diria mesmo um retrato fiel (se não fosse cruel), das
relações entre os diferentes níveis da
bandidagem que tomou institucionalmente o poder nas prisões,
nas delegacias, nas periferias, nos bairros burgueses, nas empresas
públicas e privadas.
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