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A Máscara de Capelle

 

 

Em memória quântica


Maria da Penha Vieira
03, Outubro/2002
22 de Setembro/2002

 

No rastro do esmiuçar político-religioso, vi-me curiosa a respeito dos meus sentimentos cristãos, da minha fé entre aspas, e das minhas (in)certezas.

Pe. Edgard Saraiva Leão, falecido já há anos, um padre secular, nascido cearense, com vocação para ouvir almas e cuidar delas, com zelo e muito amor. Não apenas um sacerdote católico, mas um ser humano avançado em suas qualidades e que foi meu guia espiritual durante toda minha adolescência. Meu grande e insubstituível amigo, não tinha aspirações políticas e por isso, sem prestígio clerical. Sem aspiração política nem prestígio clerical, não tinha paróquia. No máximo, Capelão ocasional.

Faltava ao Padre Edgard aquela oratória político-religiosa, inflamada e polarizada entre o Inferno e o Céu. Nada de maniqueísmo, de O Bem e O Mal. Faltava-lhe coragem para julgar e condenar. Sobrava generosidade e amor pelo próximo a qualquer distância. Sequer existia alguém para lhe lavar a batina surrada e única para o dia-a-dia. Vivia rolando como Capelão de instituições de Caridade, alimentando-se com o que lhe era oferecido, quase sobras.

Aqui e ali, em colégios Classe A, quando faltava confessor, lá ia ele. Foi assim que nos encontramos. Protegeu-me de muitas iminências de expulsões sumárias, provocadas pelas minhas leituras consideradas inadequadas pela direção do colégio religioso. Minhas idéias tortas. Ainda me lembro do sorriso largo, das boas gargalhadas que ele dava enquanto ouvia minha besteirada de jovem adolescente. Causou escândalo quando ele disse, certa vez, que não deveríamos namorar apenas um rapaz. Isso foi em plena Semana de Retiro Espiritual. Nós alunas, adoramos mas não nos escapou o quanto ele era sagaz. As Irmãs não entenderam.

Na falta do Edgard Saraiva Leão, neste Sábado de reflexão, fui buscar outro sacerdote, também cearense, mas um novo jeito de ser Igreja.

Este outro, Teólogo, Cônego e Pároco em um bairro, de elite. Professor de faculdade, de elite. O outro não tinha paróquia, a paróquia e o rebanho dele eram flutuantes e constituídos por pessoas espiritualmente necessitadas de respostas e conforto emocional, psicológico e espiritual (?). Daquele tipo de padre antigo, embora raro, que ouvia com doçura e complacência, respeito pela fragilidade humana, que ele conhecia tão bem, por fazer parte dela e não renegar sua condição humana. Diferente de mim, porque ele tinha fé num Deus magnânimo, num velhinho de barbas, que de tão sábio sabia que não poderia haver certezas para nós humanos.

Penso que o meu padre Edgard jamais soube que quando ouvia em confissão meus "pecados adolescentes" nunca imaginou o quanto era politicamente importante deter o poder que se fundamentava na confissão auricular. Nunca pensou em usá-lo como instrumento manipulador da juventude, ou do coletivo social. Nem ele, muito menos eu. Imagine se o Padre, o original, e eu poderíamos atentar para tal possibilidade: fabricação de uso da confissão auricular como documento informativo a compor o que poderia ser chamado de "estatísticas" ou "documentos comprobatórios" que vigoravam nos tempos da Idade Média ? A fórmula infalível para estimular a delação remunerada na sociedade. Um modelo moderno é nosso Disque Denúncia.

Depois de ler com atenção a matéria assinada por Berta Ataíde, pensei que seria um momento extremamente oportuno para ver, observar e sentir "o sentir", como atitude, minha atitude, e das pessoas dentro de um templo católico hoje, e compará-lo com um tempo já esgazeado. Estivesse o meu guia espiritual vivo, com certeza, teria eu um ombro onde me apoiar, ouvidos atentos para ouvir-me, mesmo que não tivesse respostas. Mas, com certeza teria a verdade na forma sincera de dizer.

Por desejar conversar com o Teólogo, decidi ir ao encontro. Cheguei em cima da hora da celebração da missa das 18:00h. Pela Epístola de São Paulo Apóstolo aos Coríntios, já me dei mal. São Paulo convertido ao catolicismo foi o mais veemente e radical de todos os apóstolos. Radicalíssimo, o apóstolo fanático. O Evangelho lido até parece que tinha sido encomendado para o Domínio Feminino ( suporte para a Berta Ataíde, claro ! ) mas também, serviria a partidos políticos.

Fiquei atenta a tudo, desde às pessoas em sua heterogeneidade social, mínima, diga-se de passagem. Na paróquia da qual faço parte não inclui o bairro como um todo, onde existe uma imensa ex-favela, hoje um bairro dentro de outro, além de uma que é conhecida por "Favelinha", pequena porque não há mais terreno para expansão horizontal.

Essa pequena favela que dista apenas uns 400 metros do templo católico, mas, mesmo assim, tão próxima, tem a celebração da missa, estimulada para que aconteça lá, dentro da comunidade. Pensei, dessa forma eles acreditam que o "asfalto" não os quer, acreditarão mesmo que são os sem-templo. Estranhei a presença de um dos participantes que diferia no "jeito de ser" na maneira de vestir-se, destacando-se dos demais. Um indivíduo, um homem, barba por fazer, em seus trinta e poucos anos. Com certeza ele não era do "asfalto".

Com exceção dessa ovelha, as demais apresentavam aparente homogeneidade sócio-econômica. Bem vestidos e perfumados ( inconvenientemente para espaço de uma igreja com dimensões de Capela ) aparências assépticas. Faixa etária após trinta anos. Os que se pareciam mais "fervorosos" estavam acima dos 30. A cada palavra orada em comum ou pelo celebrante, eu arriscava um olhar aos participantes e tentava ver quais daquelas pessoas tinham o physique de rôle que comportassem o significado. Qual daquelas pessoas entendiam e/ou praticavam o sentido contido no signo que ouviam e liam?

Constatei que a dialética católica para lidar com a religiosidade das populações das cidades é diferente da dialética rural. Para nós, os citadinos, ainda prevalece a insistência sobre o "conforto Divino" a "esperança no Divino". Viver os desígnios de Deus com resignação. Totalmente contrária ao que se impõe no Campo. A luta pelo material com autorização divina. Nossa, Berta Ataíde teria razão, mesmo?

Eu estava ali para fingir julgar aquelas pessoas. O que me impulsionava era apenas ver se era possível fazer alguma ponte dali para o cotidiano de cada uma, passando pelo "parecer ou não ser". Um achar pelo que parecia-me "ser". Um exercício que não parece, mas nos dá uma idéia de como pensam aqueles que se sentem arremedo de Deus. É com esse sentimento de arrogância que nós nos sentimos deusas e deuses.

Ver pessoas que aparentam bem pode causar malestar que, em outras palavras, pode-se dizer inveja. Mesmo que elas estejam se sentindo tão desasistidas como outro que assim o esteja. A própria religião católica pareceu-me ter-se esquecido de cultivar, pelo menos em suas ovelhas, a singeleza e o desapego dos lírios silvestres para todos seus fiéis, sejam da cidade ou do campo.

O que penso ter visto naquela igreja, eram resquícios de uma classe média abastada que trabalhou arduamente, num tempo em que trabalhar honestamente conferia respeitabilidade e resultados materiais — bandidagem também é trabalho e ser bandido é uma profissão rendosa e rentável, hoje, e não deve levar muito tempo para ter um lobby pleiteando reconhecimento da profissão —. Não havia nenhuma diferença entre aquele senhor de barba por fazer ou aquele outro de camisa social de boa qualidade, ao lado de sua esposa perfumada ( sim, esposa, porque dizer sua mulher é um modo rude, mulher é qualquer uma, a que vive com ele não é qualquer e não vou falar companheira porque não gosto e do mesmo modo, acho deselegante ) .

Como certeza, só a de que conheci essa pessoa maravilhosa e a quem hoje, dedico minha memória, olhando a fotografia esmaecida. Padre Edgar me teria exortado — Ah, minha filha, são todos, pessoas como nós, necessitadas de algum alento para o espírito. E, o Cônego, é um um sábio nas coisas Divinas, é um Teólogo. Não tente ver a alma que é coisa de Deus e Ele a vê, em Sua misericórdia Divina. Depois, daria um sorriso largo e faria um movimento com a cabeça e diria, "Essa menina, tem umas coisas.."

Meus pensamentos tortos ou inconjuntos.

Evangelho segundo Matheus:

A parábola dos trabalhadores na vinha

Porque o Reino dos Céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para sua vinha. E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha.

Saindo pela Terceira hora viu, na praça, outros que estavam desocupados, E disse-lhes: Ide vós também para a vinha e vos darei o que for justo.

Eles foram. Tendo saído outra vez, perto da hora Sexta e da Nona, procedeu da mesma forma.

E, saindo por volta da hora Undécima, encontrou outros que estavam desocupados, e perguntou-lhes: Por que estivestes aqui desocupados o dia todo? Responderam-lhe: Porque ninguém nos contratou. Então, disse-lhe ele: Ide também vós para minha vinha.

Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos, indo até os primeiros. Vindo os da hora Undécima, recebeu cada um deles um denário.

Aos chegarem os primeiros, pensaram que receberiam mais; porém, também estes receberam um denário cada um. Mas, tendo recebido, murmuravam contra o dono da casa. Dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora; contudo os igualaste a nós que suportamos a fadiga e o calor do dia.

Mas o proprietário respondendo, disse a um deles : Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último, tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?

Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos [ porque muitos são os chamados, mas pouco os escolhidos ]

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