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Natação
Prazer,
Esporte,
Meditação
Flávio
Calazans *
02, Março/2003
22
de Setembro/2002
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Para mim, nadar sempre foi um prazer;
o contato com a água, a flutuabilidade e ausência
de peso dando uma sensação de levitação,
de vôo, de liberdade.
Não recordo-me de ter aprendido a nadar,
minha mãe e minha avó sempre contavam-me que a primeira vez que
fui colocado na areia da praia, bem na rebentação (um bebê de
fraldas ainda começando a engatinhar, antes de ficar em pé e dar
os primeiros passos) eu saí engatinhando e rindo até as ondas
e fui erguido por uma delas, já nadando e divertindo-me muito
ao brincar com as ondas e espumas.
Desde sempre nadei, desde antes de
aprender a andar ou falar, e até hoje, sempre que nado, volto
para a época antes das palavras, da verbalização, da mente e do
ego.
Gosto de nadar, e no começo, quando
entro na água, por um tempinho ainda penso e verbalizo mentalmente
meus atos, aquela vozinha narradora vai falando, mas a cada minuto
vou ficando mais solto, mais flutuante, fico boiando sem esforço,
e aquela voz da mente, do ego, da civilização vai ficando espaçada
por silêncios de emoção, de um êxtase ou bem-aventurança, um prazer
além da mente e das palavras, um tipo de meditação ou oração,
um encontro com o oceano, a natureza, Deus.
O silêncio vazio entre as palavras
vai aumentando, silêncios cada vez maiores, até que ficam enormes
espaços entre frases ou palavras desconexas e ocasionais; neste
momento já não tenho noção do tempo, nem de quem sou, de meus
problemas, planos ou projetos, sem memórias de um passado que
já passou, nem projeções e devaneios de um futuro irreal, adiado..
só existe o aqui-agora, o presente permanente de que falam os
alquimistas.
Costumo nadar sozinho, de máscara de
mergulho, snorke repirador e nadadeiras, e ao respirar fundo e
descer em mergulho livre-apinéia entre as rochas, encontrando
o desconhecido a cada mergulho, sem respirar, prendendo o fôlego,
amplia-se este espaço de não-mente, o Mu do Zen, o vazio de pensamentos,
um paraíso Nirvana...entre a inspiração do nascimento e a expiração
do último suspiro, uma yoga da respiração suspensa ao prender
o fôlego no mergulhar.
A Apinéia de contemplação é sempre
uma entrega ao desconhecido, um encontro com peixes sem nome,
algas sem nome, crustáceos sem nome, um mundo não verbal onde
cada nanosegundo é tudo, uma eternidade...em um mar que muda,
rochas por vezes cobertas de algas, em outro dia cheias de ostras
e mariscos afiados como navalhas que deixam cortes fundos e cicatrizes
em todo meu corpo, misturando o mar ao meu sangue, e vice-versa,
como em um pacto de amor ou de irmãos de sangue.
Vejo o mar como os franceses chamam,
no feminino (La Mer), uma amante que abraça e envolve, em quem
penetro, "La mer"cuja face muda com a maré a cada seis horas,
onde ressacas quebram ondas violentas num dia e no outro tudo
é plácido e calmo, uma água traslúcida com visibilidade de cinco
metros ou turva e cega a menos de dez centímetros, a onda, a água,
"La mer" que a cada dia muda, a cada lua, a cada maré, sempre
novo e imprevisível...mutante e mutável, sempre uma descoberta,
um desafio à espontaneidade, uma metáfora da própria vida, e um
encontro constante com o imediatismo imprevisível da morte.
Esta paixão pelo mar, pela água, pelas
ondas sempre acompanhou-me, e é parte de mim, como as cicatrizes
dos cortes nos mariscos por toda a pele, como o bronzeado dos
meses com a letra R, quando as águas de Santos estão mornas e
é gostoso nadar (nos meses sem R, surge a Tainha migrando cheia
de ovas amarelas e a água é gelada das correntes do ártico, surgem
focas, pinguins e leões marinhos que vão para o Aquário Municipal
ou empalhados no Museu de Pesca, os quatro meses frios do inverno:
Maio, Junho, Julho e Agosto, nos outros oito meses estou sempre
nadando nas ondas de Santos) .
Desde 1974, quando meu pai entrou de
sócio no Clube de Pesca de Santos, que eu nado na Ilha das Palmas,
sede do clube em Guarujá, bem na saída da baia de Santos, à esquerda.
Contudo, cada vez que mergulho a areia
está diferente, cobrindo pedras, criando dunas submarinas, desvendando
desfiladeiros novos entre rochas, e é rara a vez em que não encontre
um carangueijo diferente, santola, siri, guaiá, e muitos sem nome
e com as mais improváveis formas, formatos, cores e desenhos,
sem contar a emoção de nadar sobre arraias jamantas gigantescas,
ou entre cardumes curiosos de paratis, tainhas, e tantos sem nomes,
ou, na Piracema-desova de abril, nadar banhado pelas carícias
macias de milhões de ovas fecundadas, fileiras delas, redondas,
cilindricas, ovais, todas transparentes e gelatinosas, correndo
pela pele, e ao mergulhar até o fundo, virando para cima ver o
espetáculo de centenas, milhões de arco-íris nascidos da luz atravessando
camadas e camadas de ovas, é como nadar dentro da vida, um mar
de vida.
Sentar nas rochas e sentir o impacto
da rebentação das ondas é relaxante como uma hidromassagem, com
a pele aquecida pelo sol e refrescada pelas ondas, lembrando aquele
poema de Rimbaud: "Encontrei a felicidade na alquimia de sol e
mar".
Bhagwan Shree Rajneesh foi um indiano
iluminado aos 21 anos que depois foi professor de filosofia na Universidade
de Jabalpur, e nos anos sessenta desenvolveu técnicas de meditação
específicas para os ocidentais.
Logo após o incidente no ashram de
Oregon-USA (quando seus discípulos (Sannyases) empregaram o histórico
primeiro atentado bem-sucedido de Guerra Biológica nos USA, infectando
saladas de restaurantes borrifadas com perdigotos da bactéria Salmonela
Typhimurium em setembro de 1984 para influir em uma eleição municipal),
Rajneesh muda de nome e passa a assinar-se Osho, com o significado
de Oceânico, aquele que dissolveu-se no oceano da consciência,
em Deus.
Em um de seus livros Osho explica:
"Kabir, um dos maiores místicos que
já existiu, disse duas coisas - No início, quando eu estava em busca
de Deus, pensava que a minha gota de água cairia no oceano do Divino.
Mas quando realmente aconteceu, foi bem ao contrário, o oceano caiu
em minha pequena gota."
Exxplica, também, sobre práticas
milenares indianas, algumas, tal qual a "Tantra Yôga" (sexual-sensorial)
ou a "Sahaj Yôga" (Da espontaneidade) sendo até os dias de hoje
esotéricas e secretas para os ocidentais, mesclando metodologias
místicas sufis, zen-budistas e outras, e apresenta uma explicação
sobre natação no mesmo livro:
"Como você pode explicar a alguém que
não sabe nadar, que nadar é maravilhoso, que é a mais bela experiência
que o corpo pode lhe oferecer? É uma experiência tão harmoniosa,
há tal unidade com a água, (...)Todo o corpo, cada fibra, cada célula,
tudo fica vivo. A Água é vida, pois toda vida surge da água. A água
é vital. Em seu corpo, você é oitenta e cinco por cento água, de
líquido, estão se encontrando com um rio enorme, ou com o oceano.
Você volta à fonte original da vitalidade...o rio gosta que nade
nele, ele se sente feliz, porquê uma de suas partes voltou (...)
Quando um nadador se torna perfeito, ele simplesmente flutua no
rio. Nenhuma atividade é necessária, o rio faz tudo e o nadador
simplesmente flutua. Em antigas tradições da yoga, existe uma meditação
especial-apenas flutue no rio e sinta-se um com ele. Não faça nenhum
movimento, não mexa o corpo, deixe o rio fazer o trabalho. E se
o rio estiver fazendo todo o trabalho, e você estiver simplesmente
flutuando, não fazendo, você terá a sensação de toda a existência.
(...) Na meditação, você entra num rio de consciência (...)".
Só quando lí estas palavras compreendí
o que eu pratico desde antes de aprender a falar, compreendí meu
prazer em nadar e flutuar, como uma meditação indiana ancestral
e esotérica, secreta.
Meu prazer de nadar é como uma oração,
uma meditação sem palavras, onde sou preenchido por uma amor pela
natureza de uma magnitude religiosa, como nas canções-poemas de
São Francisco de Assis, uma espécie de panteísmo como descreve
Espinoza, uma religiosidade pessoal, minha, que parece com a religiosidade
de povos antigos, como a religiosidade dos yogues indianos, dos
sufis árabes, dos taoístas chineses e zen-budistas japoneses,
dos indígenas tupi-guaranís-tuninambás e tupiniquins que mergulhavam
nos rios e no mar cinco a dez vezes por dia.
Assim é a natação, um esporte que exercita
todos os músculos do corpo, uma meditação que dissolve o ego-mente
no oceano-osho divino, e um prazer sem igual e sem limites de
tempo ou espaço.
Dois poemas que surgiram entre as respirações
de meus mergulhos:
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"Tu és pó e ao pó retornarás...
Eu sou é água!
e vou evaporar, chover sobre vocês,
e escorrer nos rios
de volta ao meu mar!"
"Garapa-Sushi:
Nadando em Santos
Que delícia!
O mar tem cor de
Caldo de Cana
E sabor de
Caldo de Cona"
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Texto editado pelo
Domínio Feminino
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