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Macarrão, "cosa nostra"

 

Danilo Gomes - Escritor, jornalista, pesquisador, vice-presidente da Associação Nacional dos Escritores e assessor de imprensa no Palácio do Planalto.

 

Enquanto a esquerda e a direita se digladiam, em guerrilhas e patrulhas, buscando salvar o mundo, isto é, este planeta de quinta grandeza, vamos falar - alienadamente - sobre o macarrão. Antes que as hostes litigantes, em disputas milenares, levem tudo pelos ares, como numa alegre noite de São João ou numa trágica Noite de São Bartolomeu, falemos um pouco sobre macarrão, manjar que algutina, como um milagre de San Gennaro, a esquerda, a direita, o centro, as ONGs, os credos, as seitas, os times de futebol, as escolas de samba, os folclóricos candidatos a Presidente da república e tuti quanti.

A alienada parolagem vem à baila com um gancho de natureza culinária: em 25 de outubro, segunda-feira, comemora-se o "Dia Mundial do Macarrão".

Andam dizendo, a Roma e ao mundo ( "Urbi et Orbi" ) que o macarrão é uma invenção chinesa, levado por Marco Polo à Itália, no século XIII. Os italianos não gostam dessa versão e botam boca no trombone, depois é claro, de levarem a gostosa massa à boca, com molho à bolonhesa.

Sílvio Lancelotti, grande mestre da Gastronomia, autor de vários livros, saiu a campo e deu batalha à incorreta ( segundo ele ) versão. Bateu o martelo: não, o macarrão não foi criado na China de Kublai-Kan, mas na Itália mesmo. Ele afirma que o macarrão já era conhecido na Itália antes do famoso mercador e viajante. Cem anos antes!

Afirma ainda mestre Lancelotti que foi descoberto em Palermo, Capital da Sicília, vinte anos atrás, um manuscrito datado de 1.154 ( mil, cento e cinquenta e quatro), escrito em árabe e traduzido por " O prazer de quem se apaixona por conhecer o Mundo" de autoria de Abu (...) Idris, geógrafo, historiador e filósofo da corte de Roger II, o Normando. Nesse manuscrito, o autor declara que, entre a Sicília e a Calábria, no Sul da Itália, ele conheceu a aletria, " um impasto de farinha, água e vinho, no formato de fios longos, que se deixavam ao vento para secarem e assim ganharem uma melhor conservação."

Ora, a aletria é o " macarrão mais fininho da grande família do spaghetti" - lembra Lancelotti. A explicaçãoa desse competente chef contém fécula amilácea, ragù, " mangliari di pasta assai e buoni ", uma obsevação sobre a interpretação errônea de Ramusio, etc numa boa salada que não cabe nestas linhas. Mas a argumentação convence.

O bravo Lancelotti, lança em punho, além de proclamar ser o macarrão uma setença final, senhor do castelo: o tal macarrão à bolonhesa, que a gente come por aqui, é, no geral, falso O legítimo - diz ele - é o que a Academia Italiana de Cozinha oficializou, no começo da década de 80, mediante uma patente depositada na Câmara de Comércio de Bologna - é o " Ragù alla Bolognese". Falou quem é do ramo.

Acredita-se que existam mais de seiscentos tipos de macarrão. Aqui vai a relação dos mais conhecidos, segundo o volumoso Almanaque de Cozinha, de Laura Conti:

espaguetinho, anelzinho, gravatinha, vermicelli, espaguete, argolinha, espiral, estrelinha, parafuso, chumbinho, tortinho, rigatone, padre-nosso, talharim, fusili, lasanha, tipo chinês, furadinho, ninho, canelone, gravata, pela lisa, ave-maria, richitella, tagliatelle, concha, pena estriada, surpresa, conchinha, boca-de-leão, caracol, capelete, nhoque ( gnocchi), nhoque pequeno, engrenagem, fettucini, arrozinho, tubete e letrinha. ( No livro, tudo isso é ilustrado.)

Para encerrar o capítulo, uma dica de Laura Conti: " a macarronada ficará mais saborosa se você misturar um pouco de pimenta-do-reino ao queijo ralado.". Eu não sabial.

No mais, viva o "Dia Mundial do Macarrão!". Viva a Itália.

 

Sobre : O escritor Danilo Gomes, um mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro, é responsável por valiosa contribuição à memória Histórica do Rio. Destacando-se as seguintes obras de referências: Uma Rua Chamada Ouvidor — inspirou a carnavalesca Rosa Magalhães a criar o samba-enredo do Salgueiro, em 1991: "Me maço se não passo pela Rua do Ouvidor", e Antigos Cafés do Rio de Janeiro, com base em pesquisa de grande fôlego.

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