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Caracas, a nova Havana...


Ubiratan Iorio ( * )
20 janeiro/2007

É impressionante a capacidade da esquerda jurássica latino-americana de dissimular fatos, esconder a verdade e erigir falsos mitos. O filme "A Cidade Perdida", de Andy Garcia, exilado cubano (só ditaduras geram "exilados"), esteve apenas uma semana em exibição em nossos cinemas, vítima do boicote do silêncio da mídia. Não mereceu as páginas de louvação que os cadernos ditos "culturais" dedicaram a lixos socialistas, como aquele que apresenta o assassino Che Guevara como um herói sobre uma moto, ou aquele outro sobre a comunista Olga Benário, ou esse, mais recente, sobre a vida do dinossauro Evo Morales. Mas pode ainda ser encontrado em locadoras não "engajadas" ou baixado da internet.

Decididamente, a mídia militante detesta que se mostrem os horrores e a falência do socialismo. O ódio ideológico ao filme de Garcia — que, sem ser uma obra prima, é, certamente, uma produção bem cuidada e que reconstitui com realismo os primórdios da tomada do poder em Cuba por Fidel e seus comparsas —, deve-se à dessacralização de Che Guevara e dos barbudos de Sierra Maestra e à revelação do colaboracionismo de boa parte da população cubana.

Estrelando: Andy Garcia, Dustin Hoffman, Tomas Milian, Bill Murray, Jsu Garcia, Inés Sastre, Enrique Murciano, Nestor Carbonell, Victor Rivers, Steven Bauer, Dominik García-Lorido, Juan Fernández. Dirigido por: Andy Garcia Produzido por: Andy Garcia, Frank Mancuso Jr

Garcia, diga-se a bem da verdade, retrata fielmente tanto as barbaridades da polícia secreta de Fulgencio Batista como as do novo regime de Castro, naquele período de transição para o socialismo. Mostra confiscos de propriedades privadas, como o de uma fazenda que plantava fumo e produzia charutos, por um jovem revolucionário, de família influente e sobrinho do proprietário, o qual morre de um fulminante ataque cardíaco. Há uma cena em que o cabaré mais conhecido de Cuba é proibido, por uma militante tão raivosa e gorda quando carente de neurônios, de manter saxofonistas na orquestra, pois o instrumento de Charlie Parker seria uma "invenção capitalista"... Revela "São" Guevara matando friamente resistentes, sob as barbas — literalmente — de Fidel. Enfeixa, também, uma bonita história de amor, devidamente destruída pelo marxismo.

Andy Garcia interpretou o boicote ao seu filme na América Latina como uma tentativa de manter o culto a Che como um idealista bonzinho. De fato, o socialismo vive de mitos, como de resto todo e qualquer regime totalitário: Hitler e Goebbels também os souberam cultivar e, hoje, os "esquerdopatas" já tentam beatificar Saddam. Mas as maritacas marxistas omitem que Cuba, por 50 anos, tem sido campeã em desrespeitar direitos individuais e em cometer atrocidades. Deixo aqui um duplo convite ao leitor inteligente, a quem dedico sincero apreço. O primeiro é procurar, em uma boa locadora, o DVD sobre Cuba e Havana — a "Cidade Perdida" — , "Disneylandia" de nossa esquerda "ballantines".

O segundo é uma exortação à reflexão. Chávez, o desmiolado presidente da Venezuela, declarou que pretende, neste seu novo mandato, transformar de vez o país em uma república socialista "bolivariana" ou, nas palavras do próprio mastodonte, que pretende lá implantar o "socialismo do século XXI". Para tal, não ousará rasgar quantas páginas forem necessárias da constituição que ele mesmo escreveu, inserindo em seu lugar quaisquer garatujas, a título de pretensos respaldos legais, para o seu intento totalitário. Vai nacionalizar empresas "estratégicas", retirar a autonomia do Banco Central e — isto é de pasmar! — retirar do ar o canal privado de TV.

O ministro de Relações Institucionais do governo do PT, formado em boa parte por gente que rasteja diante do carniceiro do Caribe e o trata carinhosamente de "El Comandante" e que se tem acovardado diante das bravatas de Chávez e de Morales - desonrando a tradição do Itamaraty, de que tanto nos orgulhávamos - declarou que a grande questão é se as novas agressões à liberdade que o "Chapolim de Miraflores" pretende perpetrar são "constitucionais" ou não... Sem comentários. Ontem, Havana; hoje, Caracas; mas — "pó parar" — Brasília, não!

 

( * )Ubiratan Iorio — Ubiratan Iório Doutor em Economia pela FGV, escritor, articulista (RJ). Conselheiro do Instituto Federalista

http://www.ubirataniorio.org/

 

 

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