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            Os buracos do Barbado

            Maria Luiza Curti
            mlcurti@uol.com.br
            12, Março/2002

 

 

Todos os anos, na estação chuvosa, as ruas que ladeiam o Córrego do Barbado em Cuiabá ficam coalhadas de buracos que as águas das chuvas abrem no asfalto. São sempre os mesmos. Penso que já os conheço bem pelo velho hábito de trafegar por ali.

Em ano de eleições a Prefeitura vai lá e remenda; a chuva desce e reabre os buracos. Ficam nessa dança de tampa-destampa e devemos dar graças, porque no ano que vem, a exemplo dos anos passados sem eleições, depois de muitos carros quebrados, muita gritaria, apenas quando chegar a estiagem é que serão tampados.

Bem, íamos, eu no banco do passageiro e minha filha dirigindo, quando, com a autoridade de quem tem conhecimento e intimidade com os buracos daquela rua comecei a querer guiá-la: vai mais para a esquerda que aqui tem um fundo... passa pelo meio que está melhor... dê a volta pela direita e contorna aquele...

De repente, ela irritada, disse: "Pare, mãe! Deixe que eu encontro o caminho..." Recolhi-me à insignificância de mãe de recém-adulta, joguei pela janela do carro todos meus ricos experimentos de tráfego por entre os buracos daquela via.

Os pais, geralmente, ficam desolados quando percebem que os filhos não querem aproveitar suas experiências, preferindo quebrar a cabeça batalhando em busca das próprias.

Inconformados, questionam-se por que não são ouvidos pelos filhos, pois já sabem que por aquele caminho eles irão quebrar a cara e também imaginam que sabem que se seguirem suas orientações tudo dará certo.

Lamentam, pois acham que tudo seria tão mais fácil se aproveitassem as vivências dos pais.

Definitivamente, os resultados das nossas buscas nos pertencem e são intransferíveis. Cada filho terá que construir seu próprio cabedal de experiências.

É natural uma certa ansiedade dos pais diante da atitude de independência de quem ainda ontem era criança e dependente, mas por um outro lado, o que seria desse mundo se todos ficassem repetindo a experiência do outro?

Quando tentamos caminhar com nossos próprios pés, entre erros e acertos, há mais chances de encontrarmos saídas inovadoras. Se der certo, são os pais que aprendem com os filhos e ficam babando de orgulho deles.

A irritação que sentimos quando nossos filhos se recusam a seguirem nossas orientações para andarem entre buracos, dá lugar aos sentimentos de alívio e alegria ao constatarmos que identificaram buracos no Barbado que não tínhamos percebido e encontraram caminhos novos e bons por onde nunca havíamos passado.

 

 

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