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Leia Recall Político

 

     Se o voto valesse um real

 

     Alberto Oliva*
     Publicado no Dominio Feminino em
     05, outubro/2004

 

O comprador tende a ser austero e rigoroso ao passo que o eleitor se deixa seduzir por retóricas vazias.

 

Tanto os prestadores de serviço quanto os produtores de bens têm sido forçados a se esmerar para conquistar e manter a clientela. Dos produtos se exige que sejam e tenham o que aparece nos rótulos e manuais enquanto que na política raramente vale o que se diz e o que se escreve. O eleitor não dispõe de mecanismos objetivos que lhe permitam cobrar qualidade dos serviços prestados pelos governos. Como cada real gasto numa compra tem a força de um voto, é preciso seduzir o consumidor com preço e qualidade. Já o mercado político-administrativo não se submete ao imperativo da eficiência. No horário eleitoral gratuito, rios de dinheiro são gastos para fazer promessas sem lastro orçamentário. E não se sabe o que é pior: se a insciência dos sonhadores que acreditam que, chegando lá, mudarão o curso da história ou o cinismo dos profissionais da empulhação que fazem carreira vendendo ilusões.

Se quando adquirimos alguma coisa ou contratamos um serviço nos mostramos exigentes, por que dos governantes pouco cobramos? Talvez isso se deva ao fato de que não nos percebemos pagando a conta. É como se o bolso individual fosse defendido com unhas e dentes e os cofres públicos entregues à farra política. Se eleitor e consumidor se fundissem no cidadão exigente, as práticas administrativas melhorariam muito e não haveria essa profusão irresponsável de promessas. Infelizmente, o eleitor e o consumidor vivem vidas paralelas no Brasil. O comprador tende a ser austero e rigoroso ao passo que o eleitor se deixa seduzir por retóricas vazias.

Seria um avanço poder processar governantes por terem se valido de propaganda enganosa para galgar o poder. Se o desrespeito ao consumidor causa revolta, não há por que considerar natural o esbulho político. O fato de os governantes pouco entregarem do que prometem como candidatos é mais grave que a compra de um produto com defeito. Mesmo porque a falha numa mercadoria não é, na maioria dos casos, proposital. Na política é comum a intenção deliberada de enganar. Os candidatos que prometem mundos e fundos, sabendo que pouco cumprirão, devem ser eticamente condenados. E os que sinceramente acreditam que promoverão melhorias milagrosas, desconhecendo as restrições da realidade, devem ser intelectualmente reprovados. As sociedades não percebem o quanto lhes custa a inépcia de seus governantes. É frágil a alegação de que o ilusionismo eleitoral é causado pela acirrada competição. Quem aceitaria, por exemplo, que empresários, a fim de conquistar o maior número de compradores, atribuíssem qualidades inexistentes a seus produtos?

Como não há uma instância à qual possa se queixar, uma vez que hoje está no poder alguém que ontem prometeu à farta, o eleitor se satisfaz em falar mal dos políticos. Se os governantes pudessem ser punidos pela propaganda enganosa que fizeram como candidatos, ocorreria um processo de moralização nas disputas eleitorais. E se pudessem ser responsabilizados pelos resultados negativos gerados pela colocação em prática de suas propostas, teríamos menos problemas sociais que os tantos que eles se propõem a resolver. Não por acaso, alguns dos políticos que se indignam com a asfixiante dívida interna quebraram bancos estaduais e desorganizaram as finanças quando estavam no poder. Os cartagineses, lembra o grande Montaigne, não puniam seus oficiais apenas quando eram derrotados por terem empregado táticas e estratégias erradas, mas também quando, malgrado os erros de concepção e aplicação cometidos, tudo por sorte acabava bem. Já pensou se isso fosse aplicado à política?

 

Sobe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado no Jornal do Brasil, nesta mesma data.
* Alberto Oliva Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia". http://www.rplib.com.br
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