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O
comprador tende a ser austero e rigoroso ao passo que
o eleitor se deixa seduzir por retóricas vazias.
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Tanto os prestadores
de serviço quanto os produtores de bens têm sido forçados
a se esmerar para conquistar e manter a clientela. Dos produtos
se exige que sejam e tenham o que aparece nos rótulos e manuais
enquanto que na política raramente vale o que se diz e o que
se escreve. O eleitor não dispõe de mecanismos objetivos que
lhe permitam cobrar qualidade dos serviços prestados pelos
governos. Como cada real gasto numa compra tem a força de
um voto, é preciso seduzir o consumidor com preço e qualidade.
Já o mercado político-administrativo não se submete ao imperativo
da eficiência. No horário eleitoral gratuito, rios de dinheiro
são gastos para fazer promessas sem lastro orçamentário. E
não se sabe o que é pior: se a insciência dos sonhadores que
acreditam que, chegando lá, mudarão o curso da história ou
o cinismo dos profissionais da empulhação que fazem carreira
vendendo ilusões.
Se quando adquirimos
alguma coisa ou contratamos um serviço nos mostramos exigentes,
por que dos governantes pouco cobramos? Talvez isso se deva
ao fato de que não nos percebemos pagando a conta. É como
se o bolso individual fosse defendido com unhas e dentes e
os cofres públicos entregues à farra política. Se eleitor
e consumidor se fundissem no cidadão exigente, as práticas
administrativas melhorariam muito e não haveria essa profusão
irresponsável de promessas. Infelizmente, o eleitor e o consumidor
vivem vidas paralelas no Brasil. O comprador tende a ser austero
e rigoroso ao passo que o eleitor se deixa seduzir por retóricas
vazias.
Seria um avanço
poder processar governantes por terem se valido de propaganda
enganosa para galgar o poder. Se o desrespeito ao consumidor
causa revolta, não há por que considerar natural o esbulho
político. O fato de os governantes pouco entregarem do que
prometem como candidatos é mais grave que a compra de um produto
com defeito. Mesmo porque a falha numa mercadoria não é, na
maioria dos casos, proposital. Na política é comum a intenção
deliberada de enganar. Os candidatos que prometem mundos e
fundos, sabendo que pouco cumprirão, devem ser eticamente
condenados. E os que sinceramente acreditam que promoverão
melhorias milagrosas, desconhecendo as restrições da realidade,
devem ser intelectualmente reprovados. As sociedades não percebem
o quanto lhes custa a inépcia de seus governantes. É frágil
a alegação de que o ilusionismo eleitoral é causado pela acirrada
competição. Quem aceitaria, por exemplo, que empresários,
a fim de conquistar o maior número de compradores, atribuíssem
qualidades inexistentes a seus produtos?
Como não há uma
instância à qual possa se queixar, uma vez que hoje está no
poder alguém que ontem prometeu à farta, o eleitor se satisfaz
em falar mal dos políticos. Se os governantes pudessem ser
punidos pela propaganda enganosa que fizeram como candidatos,
ocorreria um processo de moralização nas disputas eleitorais.
E se pudessem ser responsabilizados pelos resultados negativos
gerados pela colocação em prática de suas propostas, teríamos
menos problemas sociais que os tantos que eles se propõem
a resolver. Não por acaso, alguns dos políticos que se indignam
com a asfixiante dívida interna quebraram bancos estaduais
e desorganizaram as finanças quando estavam no poder. Os cartagineses,
lembra o grande Montaigne, não puniam seus oficiais apenas
quando eram derrotados por terem empregado táticas e estratégias
erradas, mas também quando, malgrado os erros de concepção
e aplicação cometidos, tudo por sorte acabava bem. Já pensou
se isso fosse aplicado à política?
Sobe
Este artigo foi
originalmente publicado no Jornal do Brasil, nesta mesma data.
* Alberto Oliva Filósofo,
escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor
em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola
de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior).
Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde
desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade
e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução",
"A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e
o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia". http://www.rplib.com.br.
Sobe
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