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No processo de uma edição,
as "notícias" competem entre si por espaço
e posição no jornal; no rádio e na televisão,
por tempo e horário da divulgação. A rigor,
pode ser uma excelente notícia na abertura dos trabalhos
do jornal e não significar mais nada no fechamento. A "notícia"
não só é uma mercadoria altamente perecível
como também sua importância está subordinada
a uma hierarquia temporal. O que é uma grande notícia
, e certamente de primeira página às duas horas
da tarde — pode virar bagaço às oito da noite.
O processo de gestação
da notícia começa com o jornalista extraindo
da realidade o que lhe interessa, ou, o que, na sua opinião,
interessa ao público. Nem toda a realidade é interessante
para todo mundo. Normalmente até a realidade in natura
é profundamente sem graça. Portanto, a primeira estação
de tratamento da "notícia" é o aproveitamento
da parte útil da realidade, isto segundo critérios
absolutamente subjetivos.
Em seguida, vêm as estações
de apuração, pesquisa, correção e concisão.
Nestas etapas, a "notícia" pode crescer
ou, simplesmente, morrer. Se sobreviver, sai das mãos do
repórter e passa para os domínios do editor. São
as estações de comparação e de seleção.
É o editor quem decide se a "notícia"
vai ser publicada, a abordagem, o tamanho, onde deve ser publicada.
Ele tem sua agenda própria, ideologia, preconceitos, visão
do mundo, top of mind, interesses, responsabilidades, etc.,
todas elas, na maioria das vezes, diferentes da do repórter.
Pode ampliar um evento pequeno, transformar um rato num tigre, como
pode fazer o inverso (downplay).
O leigo não conhece esse processo
darwiniano. Muitas vezes, ao conceder uma entrevista, o executivo
avisa a secretária que não está para ninguém,
se tranca em seu gabinete com o repórter, fala horas sobre
tudo, tira fotografias, enche o visitante de biscoito e cafezinho,
dá na sua opinião "a melhor entrevista
de sua vida". O repórter, por sua vez, se mostra entusiasmado
com o que está ouvindo, faz quilômetros de anotações,
tem todas as suas perguntas respondidas, dá boas gargalhadas
e vai embora feliz da vida, não sem antes dizer como está
agradecido pela atenção, pelo tempo despendido, pelo
cafezinho, por tudo. O executivo também vai para casa feliz,
orgulhoso de sua competência, do seu senso de humor , da sua
presença de espírito - que nem imaginava que tinha
de seu desembaraço espetacular, do "nó
que deu na cabeça do jornalista quando ele perguntou algo
sobre um segredo de estado que não podia falar".
Entusiasma-se ao antecipar a reação
do mercado, pensa nos telefonemas de elogio que receberá
dos clientes, avisa a família, o cunhado invejoso, os amigos,
os vizinhos, que amanhã estará nas páginas.
Conta para a mulher, em detalhes, como foi a entrevista. Suas tiradas
magníficas. Repete os melhores momentos. A bem da verdade,
não foi exatamente assim como ele está contando agora,
mas é um exagerozinho de nada que ele se permite, afinal
a mulher não está entendendo nada mesmo e a entrevista
não teve testemunhas. Nem o whisky, costumeiramente
relaxante, funciona. Está excitadíssimo, quase não
dorme.
No dia seguinte, acorda antes de todo
mundo, antes até do entregador, tem taquicardia ao pegar
o jornal e, de um só golpe, vê toda a primeira página
e ... nada! Outro golpe de vista, agora com mais atenção
e... nada! E a segunda página, talvez agora; e a terceira,
e a quarta, e a quinta, e ver todas aquelas horas de conversa regada
a números e frases de efeito - que infelizmente nem se lembra
mais delas -, reduzidas a uma mísera notícia, do tamanho
de um cartão de visitas num canto da penúltima página,
junto com o obituário. E ainda saiu com o seu nome errado.
Nenhuma foto foi publicada! E, preparando-se
para a entrevista, tinha até cortado o cabelo, um corte moderninho...E
foram tantas as poses... Agora chega a duvidar se tinha filmes na
máquina.
Vigarista! Aquele reporterzinho
de merda me paga!
Ele não sabe que o repórter
não tem nada com isto. Na realidade, o coitado fez o seu
trabalho direito e suas intenções eram as melhores
possíveis. Se dependesse dele, você hoje seria primeira
página, com foto e tudo, apesar - ou por causa do - corte
de cabelo horroroso. Ele também ganharia prestígio
com a primeira página. Mas as coisas não são
bem assim. Apareceu uma crise no governo, caiu um avião no
oceano, um médico inglês descobriu mais uma cura do
câncer, um maluco engoliu uma granada, e pior
o seu concorrente - que estava na moita até agora - deu uma
coletiva de apenas dez minutos anunciando uma nova fábrica
e afogou os repórteres em números, breaking news,
tudo como o diabo deles, jornalistas, gosta.
Não vá concluir que o
jornal recebeu grana do concorrente. Foi não. O que aconteceu
é que você perdeu este páreo. Você só
falou em rebimboca da parafuzeta, cara, dançou. Hoje,
a rebimboca dele, concorrente, era mais "notícia".
Não deu. Fica para próxima.
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