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Roberto de Castro Neves

 

 

 

 

Acupuntura,
um caso a pensar

 

Roberto de Castro Neves
www.imagemempresarial.com
Janeiro, 08/2003

Empresários, estudantes de comunicação, executivos, não podem deixar de ler. De agradável leitura, com humor, o autor encaminha você ao aprendizado em como antecipar-se às crises empresariais.

"A acupuntura pode melhorar a fertilidade de homens com poucos espermatozóides normais".

A novidade circulou pelos jornais do país no início deste ano.

Quem te viu, quem te vê, acupuntura! Tempos atrás, uma notícia dessas só iria provocar gozação, revolta, acusações de charlatanismo, picaretagem, 171, etc.

Há trinta anos, estive no Japão a trabalho. No hotel, em Tóquio, assisti pela televisão – num canal com legendas em inglês – médicos chineses operando uma mulher. Barriga aberta, vísceras à mostra, a mulher conversava com os médicos como se estivesse fazendo as unhas num salão de cabeleireiro. Na testa da paciente, uma quantidade enorme de agulhas garantia o sucesso do espetáculo. Assistia não a uma demonstração de uma cirurgia mas do uso da acupuntura como anestesia.

Fiquei tão impressionado com o que vi que, na continuação da viagem, em Hong Kong, comprei vários livros sobre acupuntura. O assunto não tinha nada a ver com a minha profissão, mas, caipira e curioso, queria conhecer um pouquinho daquela maravilha oriental sobre a qual já ouvira falar por aqui sem grandes entusiasmos. Até então, tratamento de alguma coisa pela acupuntura, para mim, era tão fantasioso e exótico quanto comer miolos de um macaco sacrificado à sua frente num restaurante, em algum lugar da Ásia. Queria, também, oferecer os livros aos meus amigos médicos e já antevia a estupefação deles quando ouvissem de mim o relato sobre as coisas que tinha visto com esses olhos que a terra um dia há de comer.

Quê decepção! Foram gentis – reconheço – agradeceram a lembrança mas não esconderam a impressão de que eu não passava de um babaca deslumbrado, além de enxerido. Voltasse eu para as coisas do meu ofício e deixasse em paz a ciência. Com os amigos não-médicos, também, a minha história não fez sucesso. Os mais educados associavam o meu relato a experiências de Zé Arigó - curandeiro para uns, paranormal para outros, charlatão para muitos - que fazia coisas semelhantes lá nas Minas Gerais. E, aliás, com um plus: a operação era comandada à distância pelo Doutor Fritz, médico alemão morto no século 19. Desmoralizado, recolhi-me à minha insignificância e tirei a história do meu repertório.

Mas foi justamente nessa época - anos 70 - que a acupuntura chegou ao Brasil. Desembarcou aqui no bojo da contracultura. Veio trazida pelos hippies no embalo do "paz & amor" na mesma mochila em que traziam mensagens de gurus indianos, o culto a Jimi Hendrix, o apostolado do amor livre, , da ioga, da macrobiótica, da marijuana e do LSD. A acupuntura fazia parte do pacote. Era protesto e alternativa. O establishment olhou de esguelha mas não deu muita pelota. Brasileiro tinha medo de injeção, logo este negócio de agulha pra curar dor de cabeça não iria longe. A indústria de comprimidos poderia dormir sossegada.

Os hippies jamais pretenderam pensar na acupuntura como negócio. Sua praia era outra. Quem veio esquentar a prática – e de uma forma curiosa – foram os descendentes dos pais da criança (chineses, japoneses, coreanos e similares) que, nas horas vagas do business de pastéis, ofereciam serviços de massagens tipo "para todos os fins", "específico universal". Propunham mundos e fundos, cuidando de tudo, doesse o que doesse, corpo e alma: coluna, cabeça, tronco e membros. E, opcionalmente, as agulhinhas eram aplicadas no fim da sessão como brinde, tipo saideira.

O negócio pegou. O marketing era bagunçado mas o mercado da dor, imenso. De uma hora para a outra, quase todo mundo tinha, além do contrabandista, o seu japonês-massagista de confiança. Aos poucos, a acupuntura foi se desgarrando e se firmando como terapia independente. Mas ainda com o ranço da picaretagem, do curandeirismo, com a imagem posicionada entre a macumba e a astrologia. A clientela crescente – agora, sim! - despertou o interesse do establishment.

Hoje, a prática tem outra imagem. A acupuntura é tão respeitada que uma notícia como essa – a de que pode ajudar na normalização dos espermatozóides - é levada a sério de imediato. Atualmente, muitos médicos de outras especialidades recomendam a terapia para os seus pacientes. Sem preconceitos. Muitos deles até são usuários assumidos. Em todos os eventos sociais, nas conversas, reuniões, há sempre quem tenha uma história de sucesso para reportar. Com todo o respeito. O boca-a-boca positivo beira o cem por cento, fenômeno pra lá de raro.

Enfim, a imagem da acupuntura no Brasil é um caso de comunicação empresarial bem sucedida. Não tenho informações do que foi feito na construção dessa imagem mas pelos resultados posso presumir o caminho percorrido.

Não podendo contar com a alavancagem do marketing de grandes multinacionais – a exemplo do que a Nike e a Adidas fizeram pelos exercícios aeróbicos, também nos anos 70 - nem com o dinheiro do contribuinte para animar a festa, o caminho não poderia ser o do receituário tradicional. Nada de custosas campanhas institucionais com celebridades se espetando para divulgar a acupuntura e seus benefícios. A alternativa era o trabalho de formiguinha. De infantaria. Da longa marcha. O produto era bom – sabiam há mais de mil anos. Precisava apenas ser posicionado como terapia complementar para não incomodar a vizinhança. O foco tinha que estar na imagem e na qualidade do mensageiro da terapia, a sua mídia principal, o portador do produto: o praticante. Como isto foi feito? Profissionalizando o mensageiro. Estabelecendo pré-requisitos para o exercício da profissão. Educando-o. Construindo padrões éticos. Criando fóruns de debates. Estimulando a divulgação de trabalhos. Encantando a clientela. Aproximando-se das populações carentes. Mostrando serviço. Competindo com discrição, sem querer abafar ninguém.

Os preconceitos, um a um, foram sendo desmontados e o reconhecimento veio a galope. Em suma, uma experiência para ser estudada por empresários e pelos marqueteiros.

E-mensagem para : dominiofeminino@dominiofeminino.com.br

 

 

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