"A acupuntura pode melhorar a fertilidade
de homens com poucos espermatozóides normais".
A novidade circulou pelos jornais do
país no início deste ano.
Quem te viu, quem te vê, acupuntura!
Tempos atrás, uma notícia dessas só iria
provocar gozação, revolta, acusações
de charlatanismo, picaretagem, 171, etc.
Há trinta anos, estive no Japão
a trabalho. No hotel, em Tóquio, assisti pela televisão
– num canal com legendas em inglês – médicos chineses
operando uma mulher. Barriga aberta, vísceras à
mostra, a mulher conversava com os médicos como se estivesse
fazendo as unhas num salão de cabeleireiro. Na testa da
paciente, uma quantidade enorme de agulhas garantia o sucesso
do espetáculo. Assistia não a uma demonstração
de uma cirurgia mas do uso da acupuntura como anestesia.
Fiquei tão impressionado com
o que vi que, na continuação da viagem, em Hong
Kong, comprei vários livros sobre acupuntura. O assunto
não tinha nada a ver com a minha profissão, mas,
caipira e curioso, queria conhecer um pouquinho daquela maravilha
oriental sobre a qual já ouvira falar por aqui sem grandes
entusiasmos. Até então, tratamento de alguma coisa
pela acupuntura, para mim, era tão fantasioso e exótico
quanto comer miolos de um macaco sacrificado à sua frente
num restaurante, em algum lugar da Ásia. Queria, também,
oferecer os livros aos meus amigos médicos e já
antevia a estupefação deles quando ouvissem de mim
o relato sobre as coisas que tinha visto com esses olhos que a
terra um dia há de comer.
Quê decepção! Foram
gentis – reconheço – agradeceram a lembrança mas
não esconderam a impressão de que eu não
passava de um babaca deslumbrado, além de enxerido. Voltasse
eu para as coisas do meu ofício e deixasse em paz a ciência.
Com os amigos não-médicos, também, a minha
história não fez sucesso. Os mais educados associavam
o meu relato a experiências de Zé Arigó -
curandeiro para uns, paranormal para outros, charlatão
para muitos - que fazia coisas semelhantes lá nas Minas
Gerais. E, aliás, com um plus: a operação
era comandada à distância pelo Doutor Fritz, médico
alemão morto no século 19. Desmoralizado, recolhi-me
à minha insignificância e tirei a história
do meu repertório.
Mas foi justamente nessa época
- anos 70 - que a acupuntura chegou ao Brasil. Desembarcou aqui
no bojo da contracultura. Veio trazida pelos hippies no embalo
do "paz & amor" na mesma mochila em que traziam mensagens
de gurus indianos, o culto a Jimi Hendrix, o apostolado do amor
livre, , da ioga, da macrobiótica, da marijuana e do LSD.
A acupuntura fazia parte do pacote. Era protesto e alternativa.
O establishment olhou de esguelha mas não deu muita pelota.
Brasileiro tinha medo de injeção, logo este negócio
de agulha pra curar dor de cabeça não iria longe.
A indústria de comprimidos poderia dormir sossegada.
Os hippies jamais pretenderam pensar
na acupuntura como negócio. Sua praia era outra. Quem veio
esquentar a prática – e de uma forma curiosa – foram os
descendentes dos pais da criança (chineses, japoneses,
coreanos e similares) que, nas horas vagas do business de pastéis,
ofereciam serviços de massagens tipo "para todos os fins",
"específico universal". Propunham mundos e fundos, cuidando
de tudo, doesse o que doesse, corpo e alma: coluna, cabeça,
tronco e membros. E, opcionalmente, as agulhinhas eram aplicadas
no fim da sessão como brinde, tipo saideira.
O negócio pegou. O marketing
era bagunçado mas o mercado da dor, imenso. De uma hora
para a outra, quase todo mundo tinha, além do contrabandista,
o seu japonês-massagista de confiança. Aos poucos,
a acupuntura foi se desgarrando e se firmando como terapia independente.
Mas ainda com o ranço da picaretagem, do curandeirismo,
com a imagem posicionada entre a macumba e a astrologia. A clientela
crescente – agora, sim! - despertou o interesse do establishment.
Hoje, a prática tem outra imagem.
A acupuntura é tão respeitada que uma notícia
como essa – a de que pode ajudar na normalização
dos espermatozóides - é levada a sério de
imediato. Atualmente, muitos médicos de outras especialidades
recomendam a terapia para os seus pacientes. Sem preconceitos.
Muitos deles até são usuários assumidos.
Em todos os eventos sociais, nas conversas, reuniões, há
sempre quem tenha uma história de sucesso para reportar.
Com todo o respeito. O boca-a-boca positivo beira o cem por cento,
fenômeno pra lá de raro.
Enfim, a imagem da acupuntura no Brasil
é um caso de comunicação empresarial bem
sucedida. Não tenho informações do que foi
feito na construção dessa imagem mas pelos resultados
posso presumir o caminho percorrido.
Não podendo contar com a alavancagem
do marketing de grandes multinacionais – a exemplo do que a Nike
e a Adidas fizeram pelos exercícios aeróbicos, também
nos anos 70 - nem com o dinheiro do contribuinte para animar a
festa, o caminho não poderia ser o do receituário
tradicional. Nada de custosas campanhas institucionais com celebridades
se espetando para divulgar a acupuntura e seus benefícios.
A alternativa era o trabalho de formiguinha. De infantaria. Da
longa marcha. O produto era bom – sabiam há mais de mil
anos. Precisava apenas ser posicionado como terapia complementar
para não incomodar a vizinhança. O foco tinha que
estar na imagem e na qualidade do mensageiro da terapia, a sua
mídia principal, o portador do produto: o praticante. Como
isto foi feito? Profissionalizando o mensageiro. Estabelecendo
pré-requisitos para o exercício da profissão.
Educando-o. Construindo padrões éticos. Criando
fóruns de debates. Estimulando a divulgação
de trabalhos. Encantando a clientela. Aproximando-se das populações
carentes. Mostrando serviço. Competindo com discrição,
sem querer abafar ninguém.
Os preconceitos, um a um, foram sendo
desmontados e o reconhecimento veio a galope. Em suma, uma experiência
para ser estudada por empresários e pelos marqueteiros.
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