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A
Famííilia
Suzana Bertioga
Coordenação: Maria da Penha Vieira
Reportagem fotográfica: Flávia Mendonça
22, Janeiro/2003
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A Sra. Maria José, 40 anos e
o Sr. Tadeu Vieira, 45, Diana, 10 anos, Diego, 19 e Thiago Moreira
de Souza, 18 anos, vivem sua ilha de solidão e esquecimento
dos amigos dos bons tempos da relativa estabilidade que desfrutaram
no passado. Esta solidão só não atinge a
unidade da família bem preservada, mesmo a custa do tanto
que lhes faltam.
O sofrimento e vida desta família
não se resume nesses breves relatos. Cada um dos pedaços
amargos se desdobram e, como diz o ditado, desgraça pouca
é bobagem.
Nossa equipe Domínio Feminino,
percorreu criativa e diligentemente, como se deve fazer uma reportagem
com poucos recursos. Foi atrás da origem da mensagem que
tem corrido o mundo e relata o que encontrou, para aqueles que não
acreditam nem acreditaram na história dos momentos sofridos
de Thiago Moreira de Souza.
Rescaldo
Da casa outrora confortável,
restam espaços ocupados pela poeira das lembranças
dos móveis que se foram juntamente com a máquina de
costura da Sra. Maria José, se foram junto com o forno de
microondas, máquina de lavar, um aquecedor, aparelho de ar
refrigerado e tantas outras coisas, por apenas R$400,00 vendidos
ao "quebra-galho" e cujo "lucro", o Sr. Tadeu
deixou na farmácia da esquina.
Numa longa parede descascada, um crucifixo
minúsculo e um terço ocupa, cada, seu próprio
prego. As outras paredes da sala, o mais completo desnudamento.
O único destaque para a sala é a bancada do computador
e uma cadeira na qual se empilham os cds das Telemensagens. É
exatamente nessa bancada onde todas as esperanças de que
apareça uma ferramenta de trabalho, um som que saia pela
tela do computador e musique a vida, é disciplinadamente
ocupada em alternância pelos três: Sr. Tadeu, Thiago
e a Sra. Maria José Loredo Moreira de Souza, no abrir as
mensagens.
Por não ter a menor condição
de despreender esforço físico, a casa sente falta
do trato da mão de Maria José.
No restante da casa, os espaços
monacais. A cozinha guarda a mesa de jantar, um segundo escritório,
onde as contas se acumulam, onde os documentos comprobatórios
do grande prejuízo provocado pela TELEMAR, aguardam alguma
serventia. A cadeira ao lado, pilhas de fitas cassetes gravadas
com conversas telefônicas da via crucis. É aqui que
o Sr. Tadeu nos expõe os documentos todos, notas fiscais
das vendas dos móveis e eletrodomésticos do "quebra-galho".
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Paredes nuas, aposentos esvaziados
de moveis, a família vive recolhida, sem qualquer condição
para sobreviver. A virada dos dias sem perspectivas de dias
melhores e a falta de lazer. Sem visitas, esquecidos pelos
amigos, assim vai a Nau dos esquecidos e desacreditados.
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A
construção
Thiago Moreira de Souza é filho
do primeiro casamento da mãe, Maria José. Pelo problema
de saúde, sendo diabética, o alto risco que representava
a gravidez fez com a Sra. Maria José não mais pudesse
ter filhos biológicos.
Diego, 19 anos veio depois de Thiago.
Diana, 10 anos a caçula e única filha mulher. Diana
merece elogios da mãe o tempo todo .
Ela quem prepara o almoço,
quando algum tem alguma coisa na geladeira.
De fato, pois foi a pequena Diana quem
preparou o café oferecido à equipe do Domínio
Feminino e permaneceu junto solicitamente. Talvez o sofrimento
tenha amadurecido a pequena Diana que parece ter 14 anos, pelas
atitudes e comportamento compenetrados.
As
lágrimas de Maria, a mãe de Thiago, Diego e Diana,
filhos de Tadeu, família brasileira.
Thiago fala sobre como é triste
ver o sofrimento da mãe e do pai. A mãe preocupa mais,
porque o estado de saúde é mais delicado.
"É
assim, que ela vive, com medo de tudo, e passa o dia em lágrimas,
pelos cantos da casa. Nesse momento ela está melhorzinha
porque vocês estão aqui" Thiago
com as mãos trêmulas e as palavras saindo entrecortadas
pela vontade de chorar, vai falando com dificuldade e muita emoção.
Meu
pai sempre foi uma pessoa alegre e brincalhona. Rolava com a gente
pelo chão, conversava muito conosco e hoje, está aí,
lutando feito um afogado.
Mas Maria José não está
assim, sem fortes e dolorosos motivos. Campainha tocando pode ser
sinal de mais dor e hora para a síndrome de pânico
que na maioria das vezes, aparece do nada, ou depois de algum momento
de tensão maior. Tem receio de que seja Oficial de Justiça.
A tortura pode vir a todo e qualquer momento. Assim são os
dias da família do Sr. Tadeu Vieira e da Sra. Maria José
Loredo Moreira de Souza. Sofre por cada um dos filhos, sofre pelo
marido.
Maria José só se alegra
ao relembrar a infância dos filhos e mesmo sob medicação,
ela mostra-se muito emotiva revendo os álbuns de família
com as fotos das crianças; e fala das lembranças do
tempo em que seu marido e ela podiam oferecer alguma segurança
aos filhos e quando o amanhã não tinha essa carga
de incerteza tão grande.
Apenas por curiosidade de situações,
nossa Equipe constata que fiscalização é só
para quem não pode pagar. Vizinha à casa dos nossos
entrevistados, uma casa em obra grande, sequer exibe a placa de
licença da prefeitura, como necessário. Ironias da
realidade brasileira.
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