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Thiago
Maria da Penha Vieira
Reportagem fotográfica:
Flávia Mendonça
22, Janeiro/2003
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A certeza da impotência diante
do risco de vida dos pais do sofrimento dos irmãos. A falta
total de perspectiva lançou o jovem Thiago, de apenas 18,
anos no mais completo desespero. Desespero que deu início,
possivelmente, a uma atitude diferente de viver a Rede, a internet
brasileira, principalmente. Thiago dá um exemplo de amadurecimento,
raro em nossos jovens. Ofereceu a maior oportunidade de refletirmos
a Rede e as relações interativas que pretendemos
viver.
Thiago não é tão
diferente de tantos jovens de classe média brasileira. Classe
média intelectual, mais. Ainda quase menino em seu jeito
meigo e tímido surpreende pela aparente contradição
da sua iniciativa.
Quando pergunto em como ele teve a
idéia de jogar a garrafa no mar da Rede, ele responde que
ao certo, ele não sabe, só sabe que a cada vez que
olhava para a mãe e a via chorando em silêncio, pensava
"deve
haver alguma saída" e comecei a escrever um texto
de mensagem sem saber bem porque eu estava escrevendo, era como
se fosse um desabafo e no incio foi assim mesmo. Depois, de madrugada,
fiquei pensando o quê fazer. Pensei, se escrevi uma mensagem
é para mandar para alguém. Quem?
Foi aí que abri a caixa de postal
e comecei a receber aquele monte de SPAM comercial. Pensei porque
se alguém envia mensagem para vender e eu não posso
pedir socorro". Mas não foi assim, uma coisa que demorasse
horas. Foi tudo muito rápido entre o tempo que eu escrevi
e o que eu decidi. Só precisava consultar a meus pais.
O único senão era com
respeito à mentalidade brasileira. Também não
se preocupou com nenhum sentimento de humilhação porque
o desespero era muito maior. "Pior do que estava não
podia ficar".
Depois que começaram a chegar
as primeiras mensagens, chamando-o de estelionatário, mensagens
obscenas, ameaças e tudo mais, como mostram algumas poucas
mensagens aqui reproduzidas, a tortura psicológica da família
tem-se tornado grande fonte de mais tensões. Muitas mensagens
de calor humano começaram oferecendo um pouco mais de equíbrio
da situação emocional; mas Thiago e sua família
nos contam, também que, a quantidade de mensagens que chega
é imensa e dentre tantas, muitas são mensagens penosamente
constrangedoras; algumas outras provocam situações
de delicadeza moral, como propostas chocantes feitas por mulheres
e homens.
Muitas pausas foram feitas durante
nossa conversa. Pausa para criar coragem para revelar determinadas
situações e mais pausas para conter as lágrimas.
Thiago repetia, desculpando-se, com muita freqüência
que estava nervoso e suas mãos tremiam, de fato. Por fim,
ele consegue tranquilizar-se, diante da delicadeza da movimentação
da nossa repórter fotográfica e da quietude da câmera
operada por Flávia Mendonça.
Thiago espera verdadeiramente que algum
milagre aconteça às pessoas e que as faça acreditar
que elas podem ajudar a sua família a recompor-se. Espera,
também, que um advogado consiga ser mais resistente do que
o poder da TELEMAR e que através da persistência, conseguir
que se faça justiça. Refere-se aos danos causados
pela Telemar, ao retirar o instrumento único de trabalho
que estava permitindo com que seus pais, trabalhando, comprassem
os medicamentos eles precisam para manter a vida e um pouco de alimentação
para todos.
O que desespera Thiago é a saúde
da mãe, Sra. Maria José, muito fragilizada. Percebe-se,
pela voz entrecortada, que o medo é uma constante, já
por algum tempo, companheiro muito próximo.
Estamos falando de um jovem de 18 anos
que não vai ao cinema, não sai de casa por falta de
uns trocados para locomoção. As saídas dele
são para ir à escola e para distribuir os cds de pedidos
de telemensagem, que precariamente, quase sem clientes, vez por
outra, aparece pelas redondezas do bairro de Santa Rosa, Niterói,
Rio de Janeiro.
Após o envio das mensagens de
pedido de socorro, a maior preocupação de Thiago é
que sua mãe abra as mensagens de retorno por temer as agressões
e pelas quais ela tem imediato reflexo na pressão arterial
e na taxa de glicose. Os telefonemas agressivos representam mais
um risco para ela, tanto quanto para o pai. Também teme pela
ansiedade dela na espera da ajuda.
Mas o sorriso de Thiago aparece quando
se fala em emprego para ele, lidando com computadores, coisa que
aprendeu sozinho, partindo da necessidade de, ele próprio,
ter que fazer os consertos da máquina da família.
A vida dele, percebe-se, tem sido forjada
de carências, preocupações incessantes. Perda:
muito cedo, bem menino um acidente provocou surdez em um dos ouvidos.
Para o Sr. Tadeu, que brinca com o filho, diz sorrindo que com outro
ouvido "ele ouve até demais".
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