Chuvas ameaçam provocar
epidemia do tipo 3 da doença Os moradores do Grande Rio podem
auxiliar as secretarias de Saúde dos municípios e do Estado
do Rio no combate ao mosquito da dengue. O receita é prosaica,
pois não envolve venenos perigosos à saúde humana e dos animais
que dividem o ecossistema urbano com os humanos, pequenos pássaros
principalmente.
O mosquito Aedes
aegypti pode ser combatido colocando-se borra de café
nos pratinhos de coleta de água dos vasos, no prato dos chachins,
dentro das folhas das bromélias, etc. A borra de café, que é produzida
todos os dias em praticamente todas as casas, tem custo zero.
O único trabalho é o de colocá-lo, inclusive sendo jogado sobre
o solo do jardim e quintal.
Quem descobriu
este efeito anti-Aedes da borra foi uma cientista paulista, a
bióloga Alessandra Laranja, do Instituto de Biociências, Letras
e Ciências Exatas da Unesp, Universidade Estadual de São Paulo,
campus de São José do Rio Preto, durante a pesquisa da sua tese
de mestrado - orientada pelo professor Hermione Bicudo. Os testes
realizados em laboratório comprovaram que a borra de café — que
fica depositada no coador — é uma arma muito eficiente contra
o mosquito transmissor da dengue. Uma vez que impede a postura,
e quando esta ocorre, impede o desenvolvimento dos ovos daquele
mosquito.
REVOLUÇÃO. O
estudo demonstrou, cientificamente, que, em quantidades adequadas,
a borra do café bloqueia o desenvolvimento da larva do Aedes aegypti.
Parece uma panacéia mas não é, destaca a bióloga: a borra de café
pode revolucionar o combate ao inseto, tornando-se uma poderosa
arma contra a doença. A novidade adquire maior importância no
momento em que o Brasil, já assolado pelas dengues dos tipos 1
e 2, prepara-se para o crescimento do número da casos da dengue
tipo 3, a hemorrágica, que provoca hemorragias internas no infectado,
que quase sempre morre.
Os especialistas
em saúde pública, entre eles os médicos sanitaristas, estão saudando
a descoberta de Alessandra Laranja, uma vez que além da ameaça
da dengue 3, possível de acontecer devido as fortes enchurradas
de final de ano, surge outra ameaça, proveniente do exterior,
da dengue tipo 4. O problema provocado pelo Aedes aegypti já era
grave com as dengues tipos 1 e 2. Conforme as estatísticas do
Ministério da Saúde (Fundação Nacional de Saúde, Funasa), no ano
passado a dengue vitimou mais de 200 mil pessoas no País.
Conforme explica
a bióloga Alessandra Laranja, do Instituto de Biociências, Letras
e Ciências Exatas da Unesp/São José do Rio Preto, 500 microgramas
de cafeína da borra de café por mililitro de água bloqueia o desenvolvimento
da larva no segundo de seus quatro estágios e reduz o tempo de
vida dos mosquitos adultos. Em seu estudo ela demonstrou que a
cafeína da borra de café altera as enzimas esterases, responsáveis
por processos fisiológicos fundamentais como o metabolismo hormonal
e da reprodução, podendo ser essa a causa dos efeitos verificados
sobre a larva e o inseto adulto.
A pesquisadora
continua estudando os efeitos que a cafeína da borra sobre o Aedes
aegypti, ciente da importância disso, tendo em vista o perigo
da chegada ao País da dengue tipo 4, proveniente do exterior dentro
de navios oceânicos e de aviões de linhas transcontinentais. A
solução com cafeína pode ser substituída por duas colheres de
sopa de borra de café para cada meio copo de água, o que facilita
o uso pela população de baixa renda. A solução pode ser aplicada
em pratos que ficam sob vasos com plantas, dentro de bromélias
e sobre a terra dos vasos, jardins e hortas. Inseticida natural
serve também como adubo.
Como Alessandra
Laranja explica, o mosquito Aedes se desenvolve mesmo na película
fina de água que às vezes se forma sobre a terra endurecida dos
jardins e hortas. Desenvolve-se também na água dos ralos e de
outros recipientes com água parada (pneus, garrafas, latas, caixa
dágua etc.) "A borra não precisa ser diluída em água para ser
usada", destaca a bióloga. Pode ser colocada diretamente nos recipientes,
já que a água que escorre depois de regar as plantas vai diluí-la.
Ou seja: ela recomenda que a borra de café passe a ser usada,
também, como um adubo ecologicamente correto.
O ciclo do Aedes
aegypti é composto por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto
- explica Alessandra Laranja. As larvas se desenvolvem em água
parada, limpa ou suja. Na fase do acasalamento, em que as fêmeas
precisam de sangue para garantir o desenvolvimento dos ovos, ocorre
a transmissão da doença. Organofosforados. A fêmea pica a pessoa
infectada, mantém o vírus na saliva e o retransmite. Atualmente,
o método mais usado no combate ao Aedes aegypti é o da aspersão
dos inseticidas organofosforados, altamente tóxicos para homens,
animais e plantas. Estes inseticidas são os do fumacê e do líquido
usados pelos técnicos em saúde pública. A bióloga discorda da
utilização destes inseticidas: "A borra de café, além de ter custo
zero, não é tóxica nem prejudica as plantas, podendo servir até
como adubo".
A pesquisa já
foi apresentada à Superintendência de Controle de Endemias (Sucen)
do Estado de São Paulo e à Vigilância Sanitária federal. A Prefeitura
de São José do Rio Preto foi a pioneira na campanha de difusão
da informação sobre a borra de café como veneno anti-Aedes. Naquele
município estão sendo distribuídos folhetos explicativos sobre
o uso da borra. Hemorragia. A dengue é a doença infecciosa causada
por vírus, aguda e de gravidade variável. Apresenta-se sob as
formas de dengue clássica (tipos 1 e 2) e dengue hemorrágica (tipo
3), sendo essa última a forma mais grave da doença no Brasil.
A dengue hemorrágica (tipo 3) ocorre quando um indivíduo contrai
novamente a dengue causada por um vírus de sorotipo incompatível
com aquele que o infectou na primeira vez.
Conforme a Funasa,
as regiões Sudeste e Nordeste são as que apresentaram os maiores
índices de notificação nos últimos anos. A transmissão ocorre
pelo ciclo homem-Aedes aegypti-homem. Após a ingestão de sangue
infectado pelo inseto fêmea, transcorre na fêmea um período de
incubação que pode variar de oito a 12 dias.
Após esse período,
o mosquito torna-se apto a transmitir o vírus e assim permanece
durante toda a vida. Os sintomas da doença são febre intensa,
dor de cabeça, dores fortes nos olhos, em toda a musculatura,
nos ossos e nas juntas. A dengue hemorrágica apresenta sangramento
pelas gengivas, pela pele e pelo intestino, podendo levar à morte.
No Brasil, o Aedes aegypti ainda transmite a febre amarela, o
que a Funasa já constatou em Goiás e Minas Gerais, Estados sob
intensas chuvas.