Vivemos uma dramática crise de autoridade – no mundo ocidental
em geral, mas particularmente no Brasil, onde as instituições
evidentemente não cumprem sua função de estabelecer e fazer cumprir
as leis que dirigem o comportamento individual. Estado, Igreja,
família há tempos vêm se enfraquecendo como detentores desse poder
ordenador, resultando num ambiente geral de confusão e atraso.
Há um tempo, matéria
da Veja mostrou que vários distúrbios psicológicos provocados
pela indisciplina dos alunos na sala de aula passaram a atacar
professores. Além da crise de autoridade, há nisso elementos complexos
de nossa realidade e de nosso tempo, em que religião virou sinônimo
de atraso intelectual e não se aceitam códigos morais acima do
indivíduo, que, como aponta Richard Weaver no livro Ideas Have
Consequences, passou a ser seu próprio padre, professor de ética
ou mesmo Deus. O extremo consumismo é um deles: desde cedo a criança
aprende a dar caráter comercial a suas relações - quem paga tem
todas as prerrogativas. Outro fator é o sentimento de culpa imposto
pela psicanálise que nos faz querer criar os filhos em redomas:
nenhum castigo deve ser imposto, por pior que seja o desvio de
comportamento, pois seus erros são culpa nossa. Certamente encontraremos
muitas outras razões, mas nenhuma para deixar de tentar mudar
o estado de coisas e de perceber os males de um modelo de democratismo,
relativismo e falta de limites que perverte o próprio sentido
da educação.
Tenho três filhos.
As duas mais velhas, já adultas, eu teria prazer em conhecer e
as admiraria se, não sendo minhas filhas, esbarrasse com elas
pela vida. Desde o primeiro contato, elas passam retidão, força
e generosidade; ninguém é indiferente para elas, voltadas que
são para o outro, com interesse e respeito. Modéstia à parte,
isso pode ser considerado um feito nos tempos arriscados de hoje,
por isso tento consolidar num discurso formal aquilo que, como
educadora, fiz por instinto — o instinto de alguém que cresceu
na geração do laissez-fare, da negação de qualquer autoridade
moral reconhecida como tal, da “tirania do relativismo”, e que
teve que reinventar a roda para entender a força da autoridade
e dos limites. Além da segurança de meu papel, que me fez tomar
decisões sempre a favor, em primeiro lugar, de meus filhos, os
criei e crio acreditando em alguns princípios básicos:
Sou a responsável
por quase todos os aspectos de suas vidas e por isso tenho autoridade
para dizer “sim” ou “não”, sem necessariamente ter que explicar
porque. Diante de meu compromisso, eles saberão que minhas razões
são para o seu bem. A criança aprende mais pelo exemplo do que
pela conversa, que muitas vezes contradiz os atos. Nem tudo é
relativo: há certo e errado, bem e mal, limites além dos quais
não devemos ir. E não se nasce sabendo disso: tem que ser transmitido
com firmeza. Depois de adultos,
cada um de nós é o exclusivo responsável por seus erros e acertos,
mesmo que a psicanálise queira nos passar a mão na cabeça e dizer
que foi culpa do pai ou da mãe. Não me interessa se todo mundo
faz algo - se dá mal na prova, desrespeita o professor, namora
professor ou dá ordens para o empregado em casa. O que me interessa
é o que o meu filho faz, se é certo ou errado, e que arque com
as conseqüências de seus atos.
Sempre acreditei
que tais atitudes funcionam como âncora na realidade para meus
filhos, tornando mais claras as escolhas a serem feitas e, portanto,
dando mais direção na vida.
O drama dos professores
assusta, mas não me espanta porque testemunhei seu crescimento:
alunos com dedos em riste, quebra de regras generalizada, reação
dos pais a qualquer medida disciplinadora por parte da escola,
falta de códigos mínimos de comportamento, o que permite, na escola,
roupas, cabelos, bijuterias completamente inapropriados para a
vida escolar.
O respeito aos professores
não deveria ser assunto entre pais e filhos, porque no momento
em que temos que dizer “respeite” é porque o respeito foi quebrado.
Mas se passou a ser, cada um tem sua responsabilidade e a condição
de mudar sua atitude individual e dentro da instituição familiar
que com isso sai fortalecida. .
Patrícia Carlos de Andrade é economista
e Diretora Executiva do Instituto Millenium.
http://institutomillenium.org