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        Saber dizer não

 

        Patrícia Carlos de Andrade ( * )
        15, janeiro/2007

 

 

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Vivemos uma dramática crise de autoridade – no mundo ocidental em geral, mas particularmente no Brasil, onde as instituições evidentemente não cumprem sua função de estabelecer e fazer cumprir as leis que dirigem o comportamento individual. Estado, Igreja, família há tempos vêm se enfraquecendo como detentores desse poder ordenador, resultando num ambiente geral de confusão e atraso.

Há um tempo, matéria da Veja mostrou que vários distúrbios psicológicos provocados pela indisciplina dos alunos na sala de aula passaram a atacar professores. Além da crise de autoridade, há nisso elementos complexos de nossa realidade e de nosso tempo, em que religião virou sinônimo de atraso intelectual e não se aceitam códigos morais acima do indivíduo, que, como aponta Richard Weaver no livro Ideas Have Consequences, passou a ser seu próprio padre, professor de ética ou mesmo Deus. O extremo consumismo é um deles: desde cedo a criança aprende a dar caráter comercial a suas relações - quem paga tem todas as prerrogativas. Outro fator é o sentimento de culpa imposto pela psicanálise que nos faz querer criar os filhos em redomas: nenhum castigo deve ser imposto, por pior que seja o desvio de comportamento, pois seus erros são culpa nossa. Certamente encontraremos muitas outras razões, mas nenhuma para deixar de tentar mudar o estado de coisas e de perceber os males de um modelo de democratismo, relativismo e falta de limites que perverte o próprio sentido da educação.

Tenho três filhos. As duas mais velhas, já adultas, eu teria prazer em conhecer e as admiraria se, não sendo minhas filhas, esbarrasse com elas pela vida. Desde o primeiro contato, elas passam retidão, força e generosidade; ninguém é indiferente para elas, voltadas que são para o outro, com interesse e respeito. Modéstia à parte, isso pode ser considerado um feito nos tempos arriscados de hoje, por isso tento consolidar num discurso formal aquilo que, como educadora, fiz por instinto — o instinto de alguém que cresceu na geração do laissez-fare, da negação de qualquer autoridade moral reconhecida como tal, da “tirania do relativismo”, e que teve que reinventar a roda para entender a força da autoridade e dos limites. Além da segurança de meu papel, que me fez tomar decisões sempre a favor, em primeiro lugar, de meus filhos, os criei e crio acreditando em alguns princípios básicos:

Sou a responsável por quase todos os aspectos de suas vidas e por isso tenho autoridade para dizer “sim” ou “não”, sem necessariamente ter que explicar porque. Diante de meu compromisso, eles saberão que minhas razões são para o seu bem. A criança aprende mais pelo exemplo do que pela conversa, que muitas vezes contradiz os atos. Nem tudo é relativo: há certo e errado, bem e mal, limites além dos quais não devemos ir. E não se nasce sabendo disso: tem que ser transmitido com firmeza. Depois de adultos, cada um de nós é o exclusivo responsável por seus erros e acertos, mesmo que a psicanálise queira nos passar a mão na cabeça e dizer que foi culpa do pai ou da mãe. Não me interessa se todo mundo faz algo - se dá mal na prova, desrespeita o professor, namora professor ou dá ordens para o empregado em casa. O que me interessa é o que o meu filho faz, se é certo ou errado, e que arque com as conseqüências de seus atos.

Sempre acreditei que tais atitudes funcionam como âncora na realidade para meus filhos, tornando mais claras as escolhas a serem feitas e, portanto, dando mais direção na vida.

O drama dos professores assusta, mas não me espanta porque testemunhei seu crescimento: alunos com dedos em riste, quebra de regras generalizada, reação dos pais a qualquer medida disciplinadora por parte da escola, falta de códigos mínimos de comportamento, o que permite, na escola, roupas, cabelos, bijuterias completamente inapropriados para a vida escolar.

O respeito aos professores não deveria ser assunto entre pais e filhos, porque no momento em que temos que dizer “respeite” é porque o respeito foi quebrado. Mas se passou a ser, cada um tem sua responsabilidade e a condição de mudar sua atitude individual e dentro da instituição familiar que com isso sai fortalecida. .

 

 

 

Patrícia Carlos de Andrade é economista e Diretora Executiva do Instituto Millenium.

http://institutomillenium.org

 

                    

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