No decurso do último século poderosas
forças sociais e ideológicas incidiram sobre a instituição familiar
que a relegaram a um espaço marginal, ao eleger o indivíduo
como portador de direitos e centro das políticas sociais, segundo
uma mentalidade individualista. Desde então a família, principalmente
das classes populares, passou a ser vista como obstáculo ao
progresso ou o lugar da reprodução de mentalidade conservadora,
cuja função seria meramente reguladora, disciplinadora ou até
mesmo repressora, cujo papel, quando muito, estaria diluído
nos movimentos sociais. Muito embora a Declaração Universal
dos Direitos Humanos da ONU tenha proclamado a importância da
família, os programas de ação propostos em diversas Conferências
Internacionais não mencionam o amor, o matrimônio, a maternidade
ou a vida em família e, quando o fazem, são invariavelmente
enfocados negativamente, como fontes de opressão à mulher.
FAMÍLIA E MUDANÇA:
ENTRE DESAPARECIMENTO E REORGANIZAÇÃO
As mudanças no modo de entender e de viver o amor, a sexualidade,
paternidade e maternidade e o vínculo familiar evidenciam o enfraquecimento
das relações familiares, mas indicam também e surpreendentemente
sua vitalidade, reagindo ou adaptando-se, mediante novas formas
de estruturação na sociedade pós-moderna, na qual "sobrevive"
é reconhecida como estrutura básica permanente de experiência
humana e social. A "família tradicional arcaica" de Gilberto Freyre
há tempo entrou em colapso, mas também a "família nuclear urbana"
de T. Parsons também não parece um modelo adequado. Porém ainda
não emergiram novas formas de agregação familiar capazes de atender
positivamente às exigências da vida afetiva, sexual, da experiência
da gratuidade, geração e transmissão de valores, tão necessários
à estabilidade psicológica da sociedade, no exercício de papéis,
de construção da identidade e a socialização em relações mais
democráticas, de modo a garantir referenciais menos frágeis e
vulneráveis ou excludentes para ambos os sexos e para as diversas
faixas etárias, visto que as relações entre os sexos e as gerações
constituem o fulcro da realidade familiar, ao redor do qual devem
prevalecer a cooperação, a reciprocidade, a solidariedade, a negociação,
de modo a oferecer alternativa à disputa, à competição, ou à indiferença,
estranheza e o conflito.
A RENOVAÇÃO DO INTERESSE
PELA FAMÍLIA
O nexo que existe entre problemas de crianças e adolescentes e
as questões familiares, como evasão escolar, repetência, drogas,
gravidez, prostituição, trabalho infantil e comportamentos agressivos
e anti-sociais, sem subestimar outros fatores, converge para a
renovação do interesse pela família. Se a família contemporânea
passa por uma transição, na qual são abandonados os modelos tradicionais
do primado do marido e o papel da mulher nas tarefas domésticas,
da relação entre pais e filhos baseada na autoridade e na disciplina,
para darem lugar a novos padrões de comportamento, não se trata
de olhar o passado numa postura saudosista, mas de consolidar
passos que possibilitem um crescimento humanizador para todos
os membros e para o grupo familiar em seu conjunto, de maneira
a passar da lógica individualista para uma lógica comunitária.
Várias iniciativas o demonstram: iniciativas da União Européia
(1989), o Ano da Família pela ONU (1994) e o Sínodo Mundial dos
Bispos sobre a Família no mundo Contemporâneo, promovido pelo
Papa João Paulo II (1980), que teve como fruto a criação do Pontifício
Instituto para Estudos sobre Matrimônio e Família, dentre outros.
FAMÍLIA, MATRIZ
DO PROCESSO CIVILIZATÓRIO
Apesar das variadas formas que assume e das transformações que
passa ao longo da história, a família permanece como condição
para a humanização e socialização das pessoas e fundamento da
sociedade, constante e universal em todas as culturas, como forma
de relação social constitutiva da espécie humana, não só como
estratégia de sobrevivência dos grupos, mas como condição para
o desenvolvimento e realização da pessoa. O insuspeito antropólogo
Lévi-Strauss a define como "a união mais ou menos durável, socialmente
aprovada, de um homem, uma mulher e seus filhos; ela é um fenômeno
universal presente em todo e qualquer tipo de sociedade". É o
locus privilegiado e adequado ao desenvolvimento humano e social,
para o qual convergem as mais diferentes linhas de análise porque
envolve diversos aspectos. Numa perspectiva multidisciplinar,
ela pode ser vista sob os aspectos econômico, jurídico, político,
sociológico, psicológico, pedagógico, filosófico, teológico e
social, sem excluir a arquitetura, a urbanística, a medicina,
a antropologia cultural, a psiquiatria, a sexologia, a ética e
a bioética, dada a sua ampla abrangência.
RELAÇÕES FAMILIARES:
IDENTIDADE E DIFERENÇA
A família caracteriza-se por um modo específico de viver a diferença
de gênero e de relações entre as gerações. É expressão de uma
originária unidade dual, homem e mulher, constitutiva do ser humano
e essencial à sobrevivência da espécie, ainda que suas diferenças
sejam elaboradas culturalmente, mediante papéis e relações historicamente
determinadas, num interessante entrelaçamento entre natureza e
cultura. Entre dados permanentes e dados que se refletem valores,
crenças e modelos de comportamento segundo o contexto socioeconômico,
cultural e histórico, sua configuração sempre se situa na bipolaridade
dum contínuo movimento pendular entre identidade e diferença.
Nenhum homem ou mulher, isoladamente, pode esgotar todas as possibilidades
humanas e a multiplicidade de experiências é reveladora de uma
inquietação própria da cultura pós-moderna, que encontra na sociedade
pluralista o espaço para ensaiar novos modelos de convivência,
exatamente porque a unidade dual é dinâmica, dotada de plasticidade,
que deve ser aceita e ao mesmo tempo construída. Assim a família,
fundada no matrimônio, permanece como o espaço onde todas as demandas
autenticamente humanas podem ser atendidas.
GÊNEROS E GERAÇÕES
As relações entre pessoas de ambos os sexos podem se ocasionais,
livres de qualquer compromisso, ou estáveis, que nascem de um
projeto partilhado de vida, mediante a doação recíproca de modo
a constituir uma aliança, legitimada com uma celebração civil
e/ou religiosa, com vistas à formação de uma família, aberta à
geração e educação de filhos, de modo a estabelecer uma rede de
relações de parentesco de caráter permanente, ainda quando eventualmente
interrompida. As relações entre as gerações, marcadas pela cooperação,
acolhimento e responsabilidade, oferecem uma alternativa à mentalidade
do mercado ao transcender o cálculo das conveniências, do "investimento"
e do esperado retorno capazes de conviver e superar os inevitáveis
conflitos, que poderão ser motivos de ruptura, mas também de crescimento,
conforme os valores orientadores da conduta, da importância atribuída
ao vínculo e do significado da família.
FAMÍLIA: UM RECÍPROCO
PERTENCER
Essa rede de relacionamento familiar é um espaço de convivência
no qual cada membro faz a experiência de pertencer em diversos
modos dentro do arco da existência: na qualidade de recém-nascido,
irmão, pai, mãe ou avô, nem sempre isento de desvios, autoritarismo
e opressões de uns sobre outros, que podem ir desde a legítima
autonomia à auto-suficiência. Mas, enquanto noutros ambientes
dão-se relações parciais, os vínculos familiares envolvem a pessoa
na totalidade de suas existências num recíproco pertencer, de
tal modo que algum membro passe a viver num ambiente distante
a família continua a estar presente como realidade simbólica que
determina o vivido psíquico e o sentido existencial das pessoas.
ENTRELAÇAMENTO DE
AMOR, SEXUALIDADE E FECUNDIDADE
O fato de a família estar mais na esfera do lazer do que na produtividade,
a dimensão lúdica parece, muitas vezes, esgotar o significado
da sexualidade humana, com a tendência de eliminar outras dimensões,
responsabilidades ou vínculos, até mesmo no que diz respeito à
geração da prole. A cultura hodierna parece privilegiar mais a
realização pessoal, a carreira profissional, a inserção no mercado
de trabalho e o acesso ao consumo, onde prevalecem as relações
funcionais, que se caracterizam pela competição individualista
e tendem a favorecer a fragmentação da pessoa. E até mesmo difunde-se
o ponto de vista que considera qualquer vínculo como pernicioso,
motivo por que seria mais desejável ficar livres de qualquer relacionamento
mais profundo. O entrelaçamento entre amor, sexualidade e fecundidade
que, tradicionalmente, constituiu o núcleo do matrimônio e da
família, passou a desvincular-se, de tal modo que cada elemento
passa a percorrer um itinerário próprio, e a sexualidade afasta-se
cada vez mais da esfera da cultura, isto é, da vivência de valores,
de maneira a aproxima-se cada vez mais da esfera da natureza,
isto é, da instintividade. A fecundidade, segundo a lógica do
mercado e da produtividade, passa a obedecer aos padrões de avaliação,
segundo os critérios do custo e benefício, e o amor facilmente
fica reduzido a mero sentimento efêmero de paixão.
FAMÍLIA, RECURSO
PARA A PESSOA E PARA A SOCIEDADE
A família permanece, sob as mais diversas formas de culturas,
no tempo e no espaço, uma forma de relação social constitutiva
da espécie humana, visto que responde às necessidades humanas
e sociais relevantes, nos mais diversos aspectos, quer para a
identidade simbólica do indivíduo, que lhe proporciona experiências
no nível psicológico e o diferencia do animal, quer ao oferecer
experiências humanas básicas que perduram no tempo: paternidade,
maternidade, filiação, fraternidade, relacionamento entre as gerações
e a realidade da morte. Em suma, a família é um requisito e fator
de humanização e oferece à pessoa possibilidades de reflexão e
significado dos processos que a envolvem: gestação, nascimento,
amor, trabalho, doença, envelhecimento, festa; um sentido mais
profundo para além das circunstâncias dadas. A família também
favorece o desenvolvimento da sociedade, uma vez que responde
a demandas cotidianas de seus membros, sem o que a sociedade provavelmente
entraria em colapso: acolhimento, experiência de gratuidade, proteção,
integração, transmissão da cultura e valores.
FAMÍLIA; LUGAR DE
SOCIALIZAÇÃO E EDUCAÇÃO
É lugar privilegiado de socialização e educação das novas gerações,
pois além da transmissão da vida, possibilita a emergência de
significado, de valores e critérios de conduta, sentimento de
pertença, respeito e diálogo em contexto afetivo. A experiência
de conviver com a diferença de sexo, idade, temperamento, em relações
interpessoais, marcadas pela colaboração, tolerância, serviço,
aceitação, solidariedade, limites e potencialidades. Oferece oportunidades
para o enfrentamento, encaminhamento e superação de conflitos,
disputas, ausências, escassez, agressividade, desvios comportamentais
e eventuais desajustes, incapacidade temporária ou permanente,
deficiências, particularmente quando as instituições públicas
e privadas são parcial ou totalmente inacessíveis. Pelo fato de
ser sujeito social, a família deverá ser alvo de políticas que
a possam promover e fortalecer, enquanto rede eficaz para o desenvolvimento
de toda a sociedade.
VÍNCULOS FAMILIARES
DÉBEIS DESAFIAM A SOCIEDADE
É cada vez mais preocupante a situação de crianças carentes, menores
abandonados, em verdadeiros depósitos de menores infratores e
de afundamento na marginalidade - ou mesmo dos chamados "órfãos
de pais vivos", pois é expressivo o número de jovens e adolescentes
"que não se integram um ambiente social capaz de orientá-los e
encaminhá-los para um projeto de vida que inclua crescimento humano,
capacitação profissional, trabalho, em vista de uma autonomia
da existência, socialmente integrada". Tais sintomas denunciam
as dificuldades da família "para cumprir suas tarefas básicas
de socialização primária e de amparo/serviço aos seus membros",
daí se criarem "situações de vulnerabilidade que, dependendo da
convergência de outros fatores de risco, poderão desembocar" em
situações de marginalização social. Cabe ao poder público e a
outras instâncias contribuir e proporcionar instrumentos para
que as famílias possam "desempenhar as funções básicas de socialização
e de acompanhamento" de seus membros com vistas à cidadania a
fim de serem "integrados na sociedade moderna de maneira positiva
e construtiva".
FAMÍLIA E SOCIEDADE:
ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO
O intenso processo de desinstitucionalização da família, cuja
tendência é considerá-la como "realidade privada", da qual "atribui-se
maior importância aos aspectos subjetivos da afetividade" em detrimento
dos "aspectos objetivos do amor conjugal" e o seu reconhecimento
jurídico. Importa, no entanto, ter presente que "a família não
é apenas um bem particular, mas configura um espaço público, no
qual são vividos valores e práticas comuns de inegável significado
social". Não é por acaso que a administração pública e as leis
de mercado "influenciam cada vez mais decisivamente o ambiente
familiar, não somente com normas que protegem a criança e a mulher,
mas com uma presença que determina" o cotidiano e suas concretas
configurações. Percebe-se "como o mercado coloniza o mundo da
vida, estendendo progressivamente sua lógica, seus critérios e
valores a todos os aspectos da existência, inclusive os mais íntimos.
Trata-se de um fenômeno cultural, que vai substituindo valores
tradicionais por outros mais afinados com a mentalidade do individualismo
e funcionais ao consumo. O mercado globalizado tende a homologar
valores e comportamentos, segundo os próprios interesses. Nesse
horizonte compreende-se como separações e divórcios mantêm elevada
demanda por bens duráveis de consumo". Nesse caso, a solidariedade
entre as pessoas, o cuidado com as crianças e idosos, acaba comprometida
por "comportamentos egoístas e individualistas apresentados como
sendo mais modernos e convenientes". Será do interesse de todos
preservar a identidade da família mediante políticas familiares
que fortaleçam suas relações entre os sexos e entre as gerações,
oferecendo-lhe devida autonomia e os meios que a tornem capaz
de resolver os problemas de seus membros e gerir suas necessidades.
Cabe, sobretudo, ao Estado regulamentar, estimular e sustentar
intervenções em favor da família, de modo a fortalecer-lhe a subsidiariedade.
Embora sendo laico e por isso não use critérios religiosos para
avaliá-la em uma sociedade pluralista, deverá privilegiar as formas
de convivência familiar que resultam mais úteis à sociedade, nas
quais a estabilidade, a coesão e a duração do vínculo, possam
favorecer a integração afetiva e emocional dos cônjuges e da prole,
possibilitando-lhe assistir os seus membros mais fracos, mormente
idosos e deficientes.
CIDADANIA E CULTURA
DA FAMÍLIA
Por ser sujeito social e preceder ao Estado, a família medeia
as relações entre os indivíduos e a coletividade, é promotora
de solidariedade e de formas comunitárias de vida. A despeito
de concepções ideológicas e preconceituosas, indubitavelmente
"a família constitui o maior recurso social e humano disponível".
É fator de formação para a cidadania, solidariedade, democracia,
autonomia e reciprocidade, na qual seus membros serão vistos como
pessoas, membros de uma comunidade familiar, na qual criança,
idoso, adolescente, homem, mulher, deixam de ser meras categorias
sociais abstratas ou indivíduos isolados, mas seres-em-relação-com-os-outros.
Urge incentivar uma "cultura da família", ou mentalidade que favoreça
e "promova os valores da família como sendo positivos e desejáveis
para o bem-estar das pessoas e da sociedade", verdadeiro potencial
de realização e de felicidade, "fonte de humanização, socialização,
educação, espaço de comunhão e participação e como lugar de resistência
à lógica do mercado, de modo a proporcionar experiências de gratuidade
e de solidariedade, de cooperação entre os sexos e entre as gerações",
alternativa ao "niilismo dominante" no empenho de criar uma "cultura
da paz" fundada na certeza "do significado e do valor" da vida.
Origem do presente
documento: http://www.fasm.edu.br
Este foi o tema
desenvolvido no II Simpósio FASM, apresentado pelo conferencista
Prof. Dr. João Carlos Petrini. Bacharel em
Ciências Políticas pela Universidade de Perúgia (Itália), doutor
em Ciências Sociais pela PUC - São Paulo, onde lecionou vários
anos. Desde 1989 é Diretor do Instituto João Paulo II para Estudos
sobre Matrimônio e Família e coordenador do Mestrado em Ciências
da Família na Universidade Católica da Salvador (BA). Tem inúmeros
artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras e, nos
últimos anos, pesquisa "Família e Pobreza na Região Suburbana
de Salvador: entre estratégias de sobrevivência e projetos de
vida"
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