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O
ex-covarde
Nelson Rodrigues
Berta
Ataide
Suzana Bertioga
18, Janeiro/2005
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Entro na redação
e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: "Escuta
aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério,
sentei-me. Ele começa: "Você, que não escrevia
sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?"
Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste:
"Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos
seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não
há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa
suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto
é só política. Explica : Por quê?"
Antes de falar,
procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas
mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo
do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante
é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro,
Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora,
o Marcelo me fustigava: "Por quê?" Quero saber:
"Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto
suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.
Começo assim a "longa
história": "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia
só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje,
é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só
vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos,
obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores,
sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos,
mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas,
o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcelo interrompe:
"Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro:
"Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que
sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como.
"Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento
pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade
a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.
O que existe, por
trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores,
os professores, os intelectuais são montados, fisicamente
montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo
uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas
o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja,
e da igreja passa para as universidades, e destas para
as redações, e daí para o romance, para o teatro, para
o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade".
Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos
a impostura como a verdade total.
Sim, os pais têm
medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso
que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma
colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão.
No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro
estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada.
Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes,
ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem
estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.
Mas preciso pluralizar.
Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas.
O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por
medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses
socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a
mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o
Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas
nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá.
Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros.
E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos,
chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga,
por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira".
Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se
que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do
Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria,
não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também
os que o negam até como valor plástico.
Eu falava e o Marcelo
não dizia nada. Súbito, ele interrompe: "E você?
Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já
fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais
um: "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como
os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos
etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da
invasão da Rússia: "Hitler é muito mais revolucionário
do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada.
Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que
o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século
XX", sempre achei que essa história era um gigantesco
mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais
ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto
germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa,
o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus
crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho:
do que a experiência concreta do Socialismo.
Tive medo, ou vários
medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma.
Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas
horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto
ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud
plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu
errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário
Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar
meu pai, meu pai soluçava: "Essa bala era para
mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais
alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como
dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias,
ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia
foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu
irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: "Ninguém no
Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte
fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido
no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por
fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão
Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois
filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina.
Todos morreram, todos, até o último vestígio.
Falei do meu pai,
dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos,
tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela.
Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição.
Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos
os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada
do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato.
Mas disse tudo. Minha filha era cega.
Eis o que eu queria
explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu
medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar
de fronte alta: "Sou um ex-covarde." É maravilhoso
dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo
das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou
de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo,
nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito.
Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam
cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria
língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se
outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol
- posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".
RODRIGUES, Nélson.
In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado
Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.