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      A rua que virou filósofo

        Adriana Vandoni
        30/11/2007


Quando criança, esta época do ano já tinha cheiro de São Paulo, mais precisamente o cheiro da rua Matias Aires. Casa da minha avó, onde tudo era diferente da minha vida daqui. Se em Cuiabá só existia um edifício, em São Paulo eram poucas casas e a da minha avó tinha um cheiro que jamais esquecerei. Matias Aires. Esse era o nome de um mundo novo, a casa da minha avó, as férias esperadas e o Natal sonhado durante o ano todo.



Se essa rua fosse nossa

Maria da Penha Vieira

O Sul do Brasil também premia seus habitantes com a beleza de suas praças e ruas floridas. Não se sabe por qual motivo o resto do Brasil dá tão pouca importância às flores e não se pode ser tão simplista de culpar o clima local, pois, para cada clima existem espécies adequadas. Mais.

Pois hoje, passado alguns anos, que por vaidade não conto quantos, esse nome me surpreendeu. De rua se transformou em um filósofo. Conhecido por poucos, paulista nascido em 1705, mas que viveu e produziu toda sua obra em Portugal, Matias Aires se destacou pela originalidade de suas "Reflexões sobre a vaidade dos homens", livro escrito em 1752 e dedicado a D. José I, Rei de Portugal após a morte de D. João V.


No livro ele ajusta os nossos pensamentos e a nossa vaidade às nossas ações e aos nossos sentimentos. Dizia ele que: "todas as paixões dão conosco passos iguais no caminho da vida: logo que vimos ao mundo, começamos a ter ódio ou amor, tristeza ou alegria: só a vaidade vem depois, mas dura sempre".


Matias concentrou toda sua meditação na analogia da vaidade do homem em suas relações sociais. Maquiavel, em "O príncipe", relaciona a vaidade com a luta pelo poder político e o seu exercício. A diferença entre eles era que Matias via a virtude e ao mesmo tempo a desgraça do ser vaidoso.

A virtude da vaidade é que os que se envaidecem por serem leais acabam se tornam obedientes, a vaidade de serem amados os transforma em benignos, a vaidade da reputação os faz virtuosos. Mas, esse sentimento que massageia o ego, também conduz à ilusão, ao desejo de posse, à falsa esperança de que tudo pode concretizar. O vaidoso, que invariavelmente não se vê assim, quando imagina que a ação do outro pode o ferir, é tomado por sentimentos de revolta que despertam nele conflitos, provoca cegueira e, fatalmente, o leva à estupidez.

Para Matias Aires a vaidade é a mais escondida das paixões. O vaidoso mensura os valores proporcionalmente de acordo com o grau de sua vaidade, como disse Matias: "a nossa vaidade é a que julga tudo: dá estimação ao favor e regula os quilates à ofensa; faz muito do que é nada; dos acidentes faz substância e sempre faz maior tudo que diz respeito a si".

Breve: Bolsa-Arrecadação

O descaso tem nome e as raízes desta árvore no passeio público, na foto, que destrói a entrada de uma das casas da rua sem que seus moradores consigam que a árvore seja podada pelo Órgão responsável do Poder Público local é o Nome.

Matias classifica a vaidade segundo o tipo e diz que a mais vã e tola das vaidades, vem daqueles que se julgam donos da verdade "... porque no homem não há pensamento que mais o agrade, do que aquele que o representa superior aos demais..."..

Neste ano não tenho mais o cheiro do Natal na casa da minha avó, mas Matias Aires representa muito mais pra mim do que o endereço do novo. Por coincidência ou predestinação foi ele que, enquanto rua, representou a alegria, o sonho, as aventuras, a infância. Como filósofo me deu condições de compreender um pouco mais das atitudes humanas, tantas vezes incompreendidas. O que, de certa forma, continua a me dar alegria, pois a compreensão minimiza a tristeza que a vaidade de outros provoca em nossos corações.

 

Sobe

 

Adriana Vandoni Curvo é professora de economia, consultora, especialista em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas - Rio de Janeiro. E-mail: avandoni@uol.com.br

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