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     Primeira Infância

 

      Maria da Penha Vieira
      28, Setembro/2004

 

 

 

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Aqui, sim, um grande problema que só poderá ser resolvido com a filiação não-biológica. Primeira infância, do período de lactação até a fase de alfabetização, não dá para improvisar soluções e é vital o aconchego, o toque de pele e à proteção afetiva total. Diante disso, a saída é desvencilhar-se dos procedimentos paranóicos e agilizar o processo de filiação para o qual poucos deverão ser os impedimentos daqueles que desejam ter filhos.

Por procedimentos paranóicos penso que a idéia de que uma mulher sem filhos que apresente um quadro que seria considerado como doença mental, como depressão leve, não deveria ser alijada da possibilidade de alcançar a maternidade e muito menos considerada ameaça a uma criança, levando-se em conta o nível do quadro. Não estaria essa mulher em sofrimento, exatamente, pelo sentimento de incompletude afetiva?

É muito simples. Se perguntarmos o que faz o Estado, os guardiões das crianças e adolescentes, terem conhecimento que mulheres com esse quadro engravidam e educam seus filhos sem sequer ter tido a mais remota possibilidade de acesso à tratamento? Conheço algumas mulheres que apresentavam quadros piores e conseguiram educar filhos maravilhosamente bem, sem seqüelas emocionais.

Também conheço mulheres que tiveram filho não-biológico e de tantos e sucessivos descasamentos acabaram por criarem problemas para ele. As possibilidades de divórcios repetidos podem ser muito mais danosos do que permanecerem na orfandade das instituições. Filhos biológicos sofrem com separações e casamentos sucessivos. No caso do não-biológico que passa por esta experiência de ter diversos pais, diversas vezes sofrem perdas constantes além de que o fato gera insegurança para toda a vida. Por conta de ser nossa sociedade de cultura sangüinea, " sangue do meu sangue" , do herdeiro do trono na linha de sucessão — mesmo que na realidade esse sangue seja "ruim" em matéria de DNA —, essa criança vai viver sempre de oscilações, de falta de continuidade, a orfandade que se repete a cada lembrança da experiência anterior. Ela poderá até sentir que tem uma mãe, mas o pai, na realidade dessa criança, será sempre temporário. O que é de fato, mais lesivo.

As leis não têm como lidar com uma infinidade de situações emocionais/afetivas, culturais e, portanto, não legisláveis, quando se trata de filiação desde a primeira infância quando casais sem filhos, se resolvem pela maternidade e paternidade não-biológica. Há casos de casais que se separaram e cujo filho não-biológico passou por diversos "pais". De um pai para o outro, até três pais diferentes, o filho reagia e acabava por "criar situações" onde o novo pai atribuía ao fato de que aquela criança reagia pelo "problema" de saber que ele não era "filho verdadeiro dela".

Nesses casos o que pode fazer todo esse calhamaço de leis? Obrigar que cada vez que uma mulher sair de um casamento o novo marido deva ser preparado para a paternidade não-biológica ou a doida impedida de casar-se por três ou mais vezes?

A ver, em seguida o Brasil irá produzir o primeiro manual legal para que casais possam ter filhos. Cuidando para que mãe solteiras sejam punidas pelo Estado. Modelos não vão faltar.

 

 

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