Aqui, sim, um grande
problema que só poderá ser resolvido com a filiação não-biológica.
Primeira infância, do período de lactação até a fase de
alfabetização, não dá para improvisar soluções e é vital
o aconchego, o toque de pele e à proteção afetiva total.
Diante disso, a saída é desvencilhar-se dos procedimentos
paranóicos e agilizar o processo de filiação para o qual
poucos deverão ser os impedimentos daqueles que desejam
ter filhos.
Por procedimentos
paranóicos penso que a idéia de que uma mulher sem filhos
que apresente um quadro que seria considerado como doença
mental, como depressão leve, não deveria ser alijada da
possibilidade de alcançar a maternidade e muito menos
considerada ameaça a uma criança, levando-se em conta
o nível do quadro. Não estaria essa mulher em sofrimento,
exatamente, pelo sentimento de incompletude afetiva?
É muito simples.
Se perguntarmos o que faz o Estado, os guardiões das crianças
e adolescentes, terem conhecimento que mulheres com esse
quadro engravidam e educam seus filhos sem sequer ter
tido a mais remota possibilidade de acesso à tratamento?
Conheço algumas mulheres que apresentavam quadros piores
e conseguiram educar filhos maravilhosamente bem, sem
seqüelas emocionais.
Também conheço mulheres
que tiveram filho não-biológico e de tantos e sucessivos
descasamentos acabaram por criarem problemas para ele. As
possibilidades de divórcios repetidos podem ser muito mais
danosos do que permanecerem na orfandade das instituições.
Filhos biológicos sofrem com separações e casamentos sucessivos.
No caso do não-biológico que passa por esta experiência
de ter diversos pais, diversas vezes sofrem perdas constantes
além de que o fato gera insegurança para toda a vida. Por
conta de ser nossa sociedade de cultura sangüinea, " sangue
do meu sangue" , do herdeiro do trono na linha de sucessão
mesmo que na realidade esse sangue seja "ruim"
em matéria de DNA , essa criança vai viver sempre
de oscilações, de falta de continuidade, a orfandade que
se repete a cada lembrança da experiência anterior. Ela
poderá até sentir que tem uma mãe, mas o pai, na realidade
dessa criança, será sempre temporário. O que é de fato,
mais lesivo.
As leis não têm
como lidar com uma infinidade de situações emocionais/afetivas,
culturais e, portanto, não legisláveis, quando se trata
de filiação desde a primeira infância quando casais sem
filhos, se resolvem pela maternidade e paternidade não-biológica.
Há casos de casais que se separaram e cujo filho não-biológico
passou por diversos "pais". De um pai para o outro, até
três pais diferentes, o filho reagia e acabava por "criar
situações" onde o novo pai atribuía ao fato de que aquela
criança reagia pelo "problema" de saber que ele não era
"filho verdadeiro dela".
Nesses casos o que
pode fazer todo esse calhamaço de leis? Obrigar que cada
vez que uma mulher sair de um casamento o novo marido
deva ser preparado para a paternidade não-biológica ou
a doida impedida de casar-se por três ou mais vezes?
A ver, em seguida
o Brasil irá produzir o primeiro manual legal para que casais
possam ter filhos. Cuidando para que mãe solteiras sejam
punidas pelo Estado. Modelos não vão faltar.