‘Marca’
e ‘origem’
Roberto
DaMatta*
Em
12, Fevereiro de 2002
Uma
impressão perturbadora que todo brasileiro tem dos Estados
Unidos diz respeito ao modo pelo qual os americanos ordenam a
diversidade de línguas e culturas que fazem parte do seu
sistema social. Se no Brasil pedestres, bicicletas, carroças,
caminhões, automóveis e cavalos se confundem nas
vias públicas, nos Estados Unidos tudo é separado
e discriminado, de acordo com o preceito que determina um lugar
para cada coisa e cada coisa em seu lugar.
Esse princípio da compartimentalização
governa o espaço e também o relacionamento entre
as etnias e culturas, engendrando um mapa citadino multirracial,
segregado em áreas exclusivas, em bairros cujas denominações
exprimem a nacionalidade de seus habitantes – Chinatown, Little
Italy, Harlem, Little Brazil, etc. Criando países dentro
de um país, a sociedade americana divide sem nenhuma ambigüidade
negros e brancos, italianos e judeus, poloneses e hispânicos.
Como as sociabilidades se ancoram no espaço, atravessar
uma rua equivale a cruzar uma fronteira.
A reação de quase todo
brasileiro a esse modo de classificação é
sempre negativa. Habituados a ler a si mesmos como misturados,
a maioria recusa classificar-se irrefutavelmente numa só
categoria, considerada estreita ou imprecisa para aquilo que cada
qual se considera etnicamente. No pólo oposto muitos americanos,
sobretudo negros, se sentem traídos quando descobrem que
brasileiros com pele mais escura do que a deles classificam-se
como "brancos".
Se os brasileiros tendem a ler o
sistema étnico americano como rígido e potencialmente
racista – entre outras coisas porque nele não há
espaço para intermediários –, os americanos enxergam
o modo brasileiro de classificar etnias como hipócrita
e mistificador: a cegueira da cor disfarçaria uma malandra
supremacia racial branca.
Tais reações podem
ser compreendidas se tivermos em mente o ponto crítico
desses sistemas – embora existam "mulatos" ou "mestiços"
tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, na sociedade brasileira
esses mestiços, como destacou o historiador Carl Degler,
têm um reconhecimento cultural explícito, servindo
de "válvula de escape do sistema", enquanto,
no caso americano, eles submergem como "brancos" ou
"negros", incrementando a dualidade.
Essa eliminação dos
intermediários revela que o sistema americano persegue
a compartimentalização dos tipos étnicos,
organizando-os em grupos auto-contidos, contrastantes, autônomos
e socialmente coerentes ou "puros", tendo um verdadeiro
horror pela ambigüidade e pelo meio termo; no Brasil, o sistema
de classificação privilegia o intermediário,
funcionando com base na hierarquia e na gradação.
A obsessão com a fronteira
que inventa tipos puros e com o "mulatismo" como valor
engendram formas de preconceito contrastantes naquilo que um dos
mais argutos estudiosos desse assunto, o sociólogo Oracy
Nogueira, chamou de preconceito de "marca" e de "origem".
O primeiro, vigente no Brasil, opera de modo contextualizado e
dá ênfase à aparência ou fenotipia.
O segundo, típico dos Estados Unidos, funda-se na descendência,
tem um caráter essencialista e desemboca na segregação
e no ódio racial.
O ponto crítico não
é ingenuamente insistir que o estilo brasileiro é
melhor, ou que o americano é mais justo, mas compreender
que cada uma dessas sociedades engendrou modalidades diversas
de classificação étnica e adotou estilos
diferenciados, embora convergentes, de lidar com o problema. O
preconceito americano desemboca num racismo vociferante e explícito
que segue o credo do "iguais, mas separados". Nele,
os obstáculos são claros mas as legislações
dificilmente resolvem o problema, que se situa na esfera social.
Já o preconceito brasileiro fica escondido numa fluidez
– somos "desiguais, mas juntos". O que dificulta até
mesmo a percepção do racismo como problema político-sociológico
dentro daquilo que Florestan Fernandes chamou de "o preconceito
de ter preconceito".
Ao fim
e ao cabo, vale notar que ambas as sociedades têm consciência
de que há muito que reparar em relação às
etnias que tiveram suas cidadanias feridas pelo preconceito e
pela discriminação.
‘Marca’
e ‘origem’ Dr.
Roberto DaMatta
A
cor não pode passar em branco
Maria da Penha Vieira
Alto
*
Roberto DaMatta, um dos mais ilustres antropólogos, ocupa
a Cátedra Reverend Edmund P. Joyce, CSC da Universidade
Notre Dame, em Indiana, Estados Unidos. É autor de vários
estudos importantes, entre os quais se destacam Carnavais, Malandros
e Heróis, A Casa & a Rua e O que faz o brasil, Brasil?
Texto publicado originalmente
http://www.amcham.com.br/revista/374/breua_html
e aqui reproduzido com a autorização
do autor, a quem agradecemos pela imensa atenção
que nos dedicou. Roberto DaMatta, grande exemplo de simplicidade
que deveria ser seguido.