O
Censo 91 elegeu o brasileiro como
Padrão nacional, criando
Uma escala cromática inusitada
Maria da Penha
Vieira
15, Setembro/1991
Jornal
do Brasil - Idéias
/Ensaio
Este
artigo foi o primeiro publicado na mídia brasileira
questionando a inovação do IBGE no quesito
cor e raça do povo brasileiro, Censo de 1991,
provocando discussões e polêmicas, na época,
também, contrárias ao referido artigo.
Afinal alquém precisava ter coragem.
O Jornal do Brasil teve
e Maria da Penha
Vieira, também.
Para
saber a cor do brasileiro basta dar uma chegada na esquina e encontra
o branco moreno e o negro-claro. As outras cores resultam, freqüentemente,
de efeitos especiais de cirurgia plástica ( recorte e extração
do bulbo negróide da ponta do nariz para apagar vestígios
de informação genética ) ou do trabalho do
tinturista encarregado de pintar cabeças com louro nórdico.
Então por que o excesso de zelo e de pretensa acuidade
do IBGE no quesito cor e raça dos cidadãos brasileiros?
Revelar hegemonias? O que queremos é uma identidade.
O Brasil
talvez não seja negro como querem os militantes dos movimentos
negros, nem branco como querem os brancos. Nem amarelo,
nem indígena e pardo como quer o Censo 91.
Negro
é cor e raça, assim como branco, mas estado puro
isso só poderá ser encontrado muito longe daqui,
muito longe da nossa realidade. Da soma do negro com o branco
( é bom lembrar que nossos colonizadores eram portugueses-mouros
) e o ameríndio foi que resultamos nós, brasileiros.
Mas os organizadores do Cento, em árduo trabalho de pesquisa
cromática, escolheram o pardo para denominar o amálgama.
Pardo,
com certeza não existe numa escala cromática. Aliás,
pardo é sinônimo de cor-de-burro-quando-foge, designação
que não ficaria bem a muitos brasileiros. Quando ouço
a palavra pardo, minha memória visual remete a um tipo
de papel de baixa qualidade, meio acinzentado em decorrência
do excesso de impureza na matéria-prima e usado quase exclusivamente
para fazer embrulhos ordinários. Quem lida com papéis,
não pensa em pardo, mas em marrom, em ocre, tons que no
caso indicam melhor qualidade.
É
curioso que, reabilitando-se um vocábulo há muito
banido das nossas certidões de nascimento, não tragam
de volta outros como cafuzo, mameluco, caburé, curiboca,
bugre e mais denominações do gênero. Fico
curiosa, igualmente, em saber quem se beneficiará com tantas
informações desse detalhamento censitário.
Não será, certamente, a antropologia.
Não
podendo esperar por uma identidade, fico na expectativa de ver
o Brasil ensaboado, desodorizado e maquiado nas cores do Censo.
E quando chegar a minha vez de responder ao questionário,
direi que a minha cor é morena, fruto da mistura de português,
holandês, negro, ameríndio, cafuzo e tudo o mais
que tenho direito em nome da minha cidadania.
Maria da Penha Vieira
dirige a editora Corpo da Letra, no Rio de Janeiro.