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*A cor não pode
passar em branco

Dominio Feminino em
20, Fevereiro/2002

Lourinha Bombril — Herbert Vianna
(...)
Essa crioula tem o olho azul.
Essa lourinha tem cabelo bombril.
Aquela índia tem sotaque do sul.
Essa mulata é da cor do Brasil.
A cozinheira tá falando alemão.
A princesinha tá falando no pé.
A italiana cozinhando o feijão.
A americana se encantou com Pelé.
(...)
Lourinha Bombril. (Parate Y Mira).
Diego Blanco y Bahiano.
Versão: Herbert Vianna.

 

 

 

O Censo 91 elegeu o brasileiro como
Padrão nacional, criando
Uma escala cromática inusitada

Maria da Penha Vieira
15, Setembro/1991
Jornal do Brasil - Idéias /Ensaio

Este artigo foi o primeiro publicado na mídia brasileira questionando a inovação do IBGE no quesito cor e raça do povo brasileiro, Censo de 1991, provocando discussões e polêmicas, na época, também, contrárias ao referido artigo. Afinal alquém precisava ter coragem. O Jornal do Brasil teve e Maria da Penha Vieira, também.

Para saber a cor do brasileiro basta dar uma chegada na esquina e encontra o branco moreno e o negro-claro. As outras cores resultam, freqüentemente, de efeitos especiais de cirurgia plástica ( recorte e extração do bulbo negróide da ponta do nariz para apagar vestígios de informação genética ) ou do trabalho do tinturista encarregado de pintar cabeças com louro nórdico. Então por que o excesso de zelo e de pretensa acuidade do IBGE no quesito cor e raça dos cidadãos brasileiros? Revelar hegemonias? O que queremos é uma identidade.

O Brasil talvez não seja negro como querem os militantes dos movimentos negros, nem branco como querem os brancos. Nem amarelo, nem indígena e pardo como quer o Censo 91.

Negro é cor e raça, assim como branco, mas estado puro isso só poderá ser encontrado muito longe daqui, muito longe da nossa realidade. Da soma do negro com o branco ( é bom lembrar que nossos colonizadores eram portugueses-mouros ) e o ameríndio foi que resultamos nós, brasileiros. Mas os organizadores do Cento, em árduo trabalho de pesquisa cromática, escolheram o pardo para denominar o amálgama.

Pardo, com certeza não existe numa escala cromática. Aliás, pardo é sinônimo de cor-de-burro-quando-foge, designação que não ficaria bem a muitos brasileiros. Quando ouço a palavra pardo, minha memória visual remete a um tipo de papel de baixa qualidade, meio acinzentado em decorrência do excesso de impureza na matéria-prima e usado quase exclusivamente para fazer embrulhos ordinários. Quem lida com papéis, não pensa em pardo, mas em marrom, em ocre, tons que no caso indicam melhor qualidade.

É curioso que, reabilitando-se um vocábulo há muito banido das nossas certidões de nascimento, não tragam de volta outros como cafuzo, mameluco, caburé, curiboca, bugre e mais denominações do gênero. Fico curiosa, igualmente, em saber quem se beneficiará com tantas informações desse detalhamento censitário. Não será, certamente, a antropologia.

Não podendo esperar por uma identidade, fico na expectativa de ver o Brasil ensaboado, desodorizado e maquiado nas cores do Censo. E quando chegar a minha vez de responder ao questionário, direi que a minha cor é morena, fruto da mistura de português, holandês, negro, ameríndio, cafuzo e tudo o mais que tenho direito em nome da minha cidadania.

Maria da Penha Vieira
dirige a editora Corpo da Letra, no Rio de Janeiro.

‘Marca’ e ‘origem’ Dr. Roberto DaMatta
A cor não pode passar em brancoMaria da Penha Vieira

 

 

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