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Nossos
filhos
Vagabundos
Berta
Ataíde
e
Ana Louvado
Coordenação:
Maria da Penha Vieira
28, Julho/2004
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'Meu pai queria que eu fosse advogado.
E eu tinha outro problema porque minha mãe gostava de música,
mas queria que eu fosse médico pediatra. E eu queria ser
jogador de futebol. E a gravadora queria que eu fosse músico...
pô, que lance louco. Nunca tinha visto contrato, cheio de
cláusulas, que eu não podia sair da cidade. Pra viajar tinha
de pedir para os caras... aquelas coisas todas, né. Cheio
de compromisso. Pensei: " o que é que isso? Não quero isso".
Foi aí que eu parei. Realmente parei. Até que foi rolando..."
Se dependesse da mãe, ele seria pediatra. Do pai, seria
advogado. Por ele mesmo, teria se tornado jogador de futebol.
Mas ele acredita que um dia Deus disse: "Meu filho, pára
com isso, vai cantar, vai. Futebol você joga na praia, com
os amigos'.
Conversar com mães de artistas já consagrados
e famosos é ouvir a fala futura das mães dos artistas que
ainda não encontraram seu espaço. Esses jovens recheados de
sonhos ainda estão preparando o script para seus pais. A história
das artes e das profissões no Brasil continua mascarada. Desde
os tempos em que tocar violão e andar com um instrumento pelas
ruas eram considerados crime por vadiagem, até hoje, uma afronta
aos parâmetros do que seja "um bom futuro" para os filhos
da sociedade classe média brasileira.
Para quem duvida se as coisas continuam
ou não como antes, basta perguntar a um casal classe
média, que tenha filhos, sobre a profissão que eles, os pais,
imaginam para seus filhos que ainda são crianças.
Ou, ainda, perguntar qual o talento vocacional que seus filhos
demonstram apresentar, na observação deles. Baseados na observação
dos interesses intelectuais do seu filho, que vocação você
imagina que ele seguirá profissionalmente?
A resposta, se for para o lado artístico
e esportivo, vem acompanhada de uma frase inconfundível que
declara abertamente a recusa de aceitação da possibilidade
de que seja verdadeira, no futuro.
Ela ( ou ele ) gosta muito de música,
mas isso é coisa de criança e ainda tem muito caminho pela
frente.
Essa criança adora água, parece
peixe. Não sai do mar. Ama esporte. Ou,
Ele ( ela ) desenha muito bem,
é incrível mas parece um artista de verdade. Mas a gente sabe
que são facilidades de criança. A criança cresce, faz cursos
de desenhos, mas, ai, ele busca a informática que dá dinheiro
rápido.
Tudo permitido, incentivado e aceito
só enquanto forem crianças ou pré-adolescentes e no caso da
música ou esporte, por hobby.
Enquanto o tempo passa, o filho demonstra
total desprazer com o estudo formal, mesmo que os pais saibam
do quanto o Ensino no Brasil é desestimulante e nada criativo.
Metodologias que não contemplam os diferentes talentos potenciais
e interesses da população estudantil. Mesmo assim, e ainda
assim, os pais insistem em fingir que os filhos continuam
sem descobrir sua vocação profissional. Que o Sistema Educacional
brasileiro ignore o fato não há nada de imediato a ser feito,
mas quando os pais nada fazem para estimularem seus filhos
a seguir o caminho profissional que o próprio filho traçou,
aqui a situação é dramática, para infelicidade de toda família.
As profissões aceitas como "legítimas"
são aquelas que oferecem menos riscos de fracasso, maior possibilidade
de lucros a curto prazo, não levando em conta a vocação e
a felicidade do indivíduo. Profissões que não "denunciem"
o fracasso dos pais como educadores/investidores são as preferidas.
Assim, ter um filho médico que não possa trabalhar durante
o período de formação, não somente é aceito como admirado.
O ideal mesmo é fazer concurso público.
Um estudante de medicina, por exemplo,
pode ficar sem trabalhar por anos, enquanto não chega a hora
do treino prático, vai sendo paitrocinado. Nenhum amigo ou
parente o chama de vagabundo e assim os pais vivem o orgulho
do filho futuro médico. Mas, quando o caminhar profissional
do filho vai para a área das artes todos os olhares se mostram
incrédulos, envergonhados até, inclusive os adjetivos qualificativos
são outros.
Os talentos da infância que enchiam os
pais de prazer, se persistem na adolescência tornam-se cravos
da Cruz ainda mais quando o jovem toma sua decisão pela "vadiagem",
pela vida sem futuro ou de futuro incerto, pelo caminho das
artes ou do esporte. Perguntam-se mesmo
Terei eu jogado pedra na Cruz,
para pagar tão alto? E lá vem o crucial, que é imaginar do
que o filho vai viver, como vai viver, como vai poder formar
família, com essa vida tão incerta e irresponsável.
Como vou explicar para as pessoas,
para meus parentes e amigos que meu filho quer viver de praticar
surf ? Me digam, como vou explicar uma coisa dessas? Aliás,
já não agüento mais paitrocinar o vagabundo, Cristo! Ele não
vê que essa coisa não dá camisa a ninguém e ele vive as minhas
custas, feito parasita? Só pode ser desculpa pra não trabalhar
mesmo, pra valer. Não quer pegar no pesado, só quer viver
de sol e mar de almirante. Dar duro, que é bom, nada!
E o veneno dos parentes e amigos da família
come solto:
coitada, o filho nessa idade e
ela ainda sustentando!
Ela é cega, não vê que o maladro
não quer nada com o "basquete". O filho deles, não deu pra
nada na vida, coitados. Muita falta de sorte com aquele filho!
A mãe e/ou o pai da namorada? - Você não está vendo que o
sujeito é vagabundo e fica dizendo que é artista? Nunca vi
o talzinho na televisão, no Jô Soares ou no Faustão nem no
jornal. Que tipo de artista é esse que não aparece? Vagabundo,
isso sim.
Minha filha ( conta a mãe da namorada
para uma amiga ) está namorando um joão-ninguém-pé-de-chinelo-sem-futuro.
Quer saber? Um vagabundo que passa o dia quase todo dormindo
e quando chega denoite (junto, assim mesmo ) ele se apruma
todo e se manda. Vive dormindo, não tem emprego. E pensar
que criei minha filha com todo luxo, formada, pra no fim ver
ela namorando um músico um vagabundo que se diz artista.
Ele é um sujeito que se recusa
a encarar a realidade, trabalhar e estudar. Vive com os pés
nas nuvens, sonhando com glória fácil, sem ter trabalho. Megalomaníaco,
é isso. Preguiçoso, também. É meu filho mas não dessas mães
cegas.
Para os filhos, as queixas de muitos desses
chamados vagabundos vão até, na maioria das vezes, á depressão,
baixa estima no dedão do pé. São continuamente humilhados
pela família e vivem a chamada violência psicológica que ninguém
de fora pode ver. As chantagens vão desde ameaça de não o
deixar usar o carro do pai ou da mãe até as cobranças mais
banais sem contar com a desmoralização junto aos irmãos "trabalhadores"
que têm emprego fixo com salário no final do mês. Esses, sim
são produtivos e responsáveis, mesmo que se encontrem desempregados,
para estes a explicação é imediata.
Filho artista pobre, vive suplicando por
alguns centavos para transporte, vive pela noite bebendo.
Se é do esporte, é "surfista" o que dá no mesmo como sinônimo
de vagabundo de praia. Com certeza, poucos desses que empunham
um prancha, um skate, são de verdade pessoas que sonham e
lutam pela profissionalização, buscando patrocinadores que
proporcionem oportunidades de participação em campeonatos
nacionais e internacionais, por exemplo. Sobrevivem de bicos
em forma de aulas para alunos que buscam um hobby.
Aqueles que praticam esportes apenas
como lazer, são admirados e ditos "saudáveis" enquanto que
os que vêem a prática do esporte como sua futura profissão
são vistos como os vagabundos, "fora da realidade". Os que
se dedicam à música popular ou às artes plásticas vivem o
mesmo drama. Já as artes cênicas são mais toleradas.
O vagabundo sequer vendeu um daqueles
quadros que ele acha que é arte. Só ele acha que é pintura,
porque se fosse mesmo não ia faltar comprador. Não estou certa?
Os livros, se vendeu uns cinqüenta,
foi muito e ele pensa que tem profissão. Ah, isso,
nenhuma mãe merece. Meu filho não podia ter se interessado
pela advocacia, engenharia, enfermagem? Não podia? Heim, digam-me?
É preciso muito talento artístico para
suportar tanta pressão e humilhação. Quando dão certo na vida
de "profissão vagabundo", aí, toda honra e toda glória dos
pais. Os que pendem para a música clássica, os concertistas,
músicos de orquestras, não podem ser incluídos nessa relação
de vagabundos. Não, eles são concertistas! A casta é outra
mesmo que as dificuldades sejam até maiores. Mas os
pais estufam o peito e enchem a boca para pronunciar: con-cer-tis-ta
formado e vive na europa tocando em hotéis.
Acompanhe essa matéria!
Sobe
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