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Que mentalidade! 2
Nossos
filhos vagabundos
Maria
da Penha Vieira
22,
Agosto/2004
Berta
Ataíde
e
Ana Louvado
Coordenação:
Maria da Penha Vieira
28, Julho/2004
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No início da coqueluche das happy
hours cariocas, em dia determinado da semana, havia na
Bookmakers, livraria do Rio de Janeiro, que não existe mais,
uma noite de dedicada à música instrumental.
Edna Palatnik, a proprietária, costumava usar um chapéu super
charmoso na hora das apresentações. Esse chapéu tinha como
intuito, ser usado no intervalo dos sets para recolher o couvert
revertido para os músicos. Um idéia elegante e sobriamente
executada pela anfitriã e animadora cultural. Para os músicos
profissionais como José Carlos, ( Bigorna, saxofonista maravilhoso),
e seu grupo de Jazz, tudo era absolutamente normal.
Ocorreu que certo dia Edna Palatnik convidou
a uma banda de jovens músicos e veja o que aconteceu : o pai
de um desses músicos levantou-se e disse para a proprietária
do espaço que o filho dele " não era mendigo e
por isso não precisava de esmolas dos outros ". Esse
tipo de público pobre, de pais pobres de mentalidade é que
é a base do nosso atraso cultural que nos distancia
do mundo evoluído, como o mundo dos capitalistas imperialistas.
É esse tipo de visão do que é indigno, do que é pobreza, do
que seja desrespeito que nos mantém com fome. Uma mentalidade
na contra-mão dos evoluídos, ou o boicote dos próprios pais
contra a profissão escolhida pelo filho. Uma profissão humilhante
e insegura com o claro propósito de mostrar ao filho o erro
da escolha. Pais como estes, prefeririam ter educado um pitboy.
O fato acima ocorreu na classe média-alta.
Nas classes mais baixas, na base da pirâmide, essa mentalidade
é ainda mais dolorosa. Isso seria passar recibo de paupérrimo,
o que é inaceitável. Esse é o Brasil que quer desemergir.
Não é problema com a fome, com ensino, mas, com educação de
mentalidade, o nosso problema. É o que dá confundir Educação
com Ensino e Cultura.
As bandas de rock, por exemplo, têm como
parâmetro de prestígio, serem convidadas a tocar. E têm razão.
Se eles forem para uma calçada, serão caçados pela
Ordem do Músicos, presos por falta de permissão
oficial, terão sua imagem desvalorizada pelas casas noturnas,
pela mídia e pelo público. Aliás, no Brasil, os roqueiros
nunca foram tão irreverentes e audaciosos como os pais do
gênero em suas culturas de origem. Mesmo tendo uma infinidade
de bares de quinta categoria, repletos de bebuns e desocupados,
não temos o principal, que são aqueles empresários
europeus ou americanos, que permitem que chegue uma banda
de roqueiros doidos que seguem a filosofia do rock atitude,
e toquem em troca de ouvidos, mesmo sem receber cachê ( mas
também não pagam nada ), assim como não temos os roqueiros
doidos dos tempos verdadeiramente punk de Kill me, please.
Tampouco as casa noturnas costumam ter equipamentos.
Por esta ( falta de ) visão, os filhos
vagabundos no rock, não encontram saída a não ser sonhar com
o selo da gravadora e as pernadas dos "organizadores de eventos"
ou "produtores". Tocar de graça, quando dão sorte. Pois o
comum é pagar bem alto para trabalhar. Pagam ao dono do estabelecimento,
pagam aos produtores, pagam tudo a todos e por tudo. Submetem-se
a gravações espúrias chamadas de "coletâneas" cedendo todos
os direitos em troca da crença de que estarão sendo
"divulgados". Caso alguma banda ou cantor pressinta o engodo
e recusar, receberá a maldição, será expurgado de alguma forma.
Os estabelecimentos noturnos têm seus
produtores que buscam intencionalmente bandas jovens para
tocar porque sabem que estes aceitam todas as condições impostas.
Condições que vão desde consumir e pagar, correr atrás de
patrocínio para os flyers e divulgar a casa, vender
ingressos e lotar a casa em dias que, notadamente, não existiria
uma alma viva no local. Estes dias são às Segundas-Feiras
e Domingos.
O mais recente despropósito em moda é
convidar artistas jovens e iniciantes para shows de "causa
social". Quase uma intimação e a recusa um pecado mortal.
Em contrapartida, o Banco do Brasil, com o dinheiro desses
mesmos músicos sem-palco, é que fato como o da dupla
sertaneja fulano e beltrano, famosos, que ( não me
recordo do nome da dupla e nem acho importante para a compreensão
) "por doação" trabalhou para a construção
da sede do PT. Deve ser a contrapartida socialmente justa.
Tão justa que aos músicos iniciantes e não-famosos
deve-se exigir "participação pelo social",
sem direito a BB.
Acompanhe essa matéria!
Sobe
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