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           Que mentalidade!
           
Nossos filhos vagabundos

            Maria da Penha Vieira
            22, Agosto/2004

            Berta Ataíde
            e Ana Louvado
            Coordenação: Maria da Penha Vieira

 

 

Início do Tema

 

Mentalidade!

Mentalidade! 2

Criando Mentalidade

O chamado Interior

 

Em qualquer cidade cosmopolita internacional, em quaisquer parques no meio do caos dos grandes centros urbanos, pode-se ver, ouvir e apreciar um bom grupo musical, um quarteto de cordas, uma banda de rock, um instrumental solitário. Passa-se por uma avenida turbulenta, e, de repente, temos os ouvidos invadidos por sons de cordas. Entra-se e depara-se com música de câmara.

Nas casas noturnas, se não se for de todo estrangeiro, sabe-se diferenciar quem é público e quem é olheiro de gravadora ou produtor em busca de gente nova. Estes nunca estão em mesas especiais bebendo e comendo de boca-livre, pois têm verba de representação. Estão sempre na entrada, mas ao mesmo tempo, considera-se aquele espaço como o "fundo" da casa de espetáculo. Essa casa de espetáculo quase sempre é pequena, palco pequeno, mas, bem equipado e o espaço com boa acústica.

Assim, as bandas e grupos de músicos circulam tocando em mais de uma casa por noite, recebendo pagamento e expondo-se as oportunidades de um mercado profissional. Nos países onde o mercado fonográfico tem saúde e certeza de profissionalismo, os músicos não vivem o desespero do "sonho" de gravar. Primeiro eles têm um mercado que permite o desenvolvimento profissional como meio de vida, em segundo, porque em qualquer esquina encontram um estúdio de altíssima qualidade onde poderão, eles próprios gravarem seus CDs independentes. Em terceiro, estão certos de que, em cada lugar, em todo lugar em que estiverem se apresentando lá estarão pessoas em busca de novidades. Sabem que estão atrás deles, de alguma forma.

Vitrines para músicos não faltam e essas vitrines são as mesmas que proporcionam remuneração decente. Há respeito porque a profissão é reconhecidamente parte do PIB, porque há um mercado profissional de verdade. E ai do produtor que contratar um show e não pagar dentro do contratado. Há uma fiscalização séria das instituições que os protegem da exploração. Esses sindicados não estão preocupados apenas com os bolsos deles, pois eles são músicos e exercem suas profissões e, o mais importante, uma Constituição a ser respeitada. O sério desses países, é que existe uma classe profissional que não deixa que os sindicatos brinquem com suas vidas e com sua dignidade profissional.

Ai das casas de shows que não se enquadrarem ao nível do respeito e do profissionalismo. Mas, há uma coisa melhor: os músicos se impõem, como numa oportunidade que tive de ver um grupo de jazz que se apresentava no Jimmi Ryn's, no Mannhatan. Nessa ocasião, um grupo falante ocupando uma mesa próxima ao palco raso. O grupo parou e ficou apenas o som das vassousinhas, quase inaudível. O baterista olhava para a mesa sacrílega. Após alguns minutos de silêncio desconsolador para a platéia, o baterista falou: — Estamos esperando que os senhores nos deixem trabalhar. Nesse momento, a impressão que se tinha era de que o público presente, indignado, queria cuspir na mesa usurpadora dos sublimes minutos perdidos.

O leitor tem noção do que aconteceria no Brasil, caso um músico ousasse? Primeiro os machos da mesa partiriam para cima dos músicos, na porrada. Ao mesmo tempo, não em segundo lugar, o dono do estabelecimento mandaria que os seguranças colaborassem "na ordem" e porrassem mais. Os músicos, naturalmente.

Certa ocasião, houve no Rio de Janeiro, uma grita da imprensa contra a cantora Nana Caymmi porque a cantora, do palco, pediu que parassem com a circulação dos garçons e dos clientes indo e vindo ao banheiro. Por que essas pessoas não cuidaram de ir ao banheiro antes da entrada da cantora no palco? Um ou outro, a cantora não teria se manifestado. Acontece que essas idas ao banheiro são estratégias de azaração ou exibição pura e simples. Passsar perto do palco na hora do show, chama mais atenção dos azaradores e das azaradoras. Os holofotes do palco funcionam bem para as mariposas. Nessa noite não deu porrada física, por muito pouco.

Um outro exemplo de liberdade e mentalidade desenvolvida. Vá ao Central Park num dia lindo de sol e preste bem atenção. Irá ver coisas que nunca sonhou, como um percussionista e uma cantora em cima de uma pedra, se apresentando para o público passante, que os escolher. Mesmo se apenas um passante parar para ouvi-los, para eles, já recompensou a tentativa de concerto.

Em cima de um piano, em algum lugar do palco ou da casa, em cima da pedra, no chão da calçada, há sempre um depositório para as doações aos músicos, não importando se a doação é em fração ou em número inteiro da moeda local.

Acompanhe essa matéria!

 

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