Opinião
O chamado interior

 

Maria Luiza Curti
Psicóloga —
crp. 14/01733-1
03, Julho/2004

Profissional recomendada pela Domínio Feminino

 

 

          O que é vocação?
          Originário do latim, "vocare", vocação quer dizer: chamado. Há quem confunda vocação com profissão.

          A profissão é um ofício que se aprende com a finalidade de ganhar dinheiro. A vocação é exercer um ofício para atender a um chamamento interior, seja ele lucrativo ou não.
          Pode-se trabalhar numa profissão única e exclusivamente por ela ser altamente lucrativa e daí não se extrair prazer nenhum. É evidente que dessa maneira se trabalha mecanicamente.
           Confúcio, professor, filósofo e teórico político chinês da família K'ung, que influenciou a Ásia Oriental com seus pensamentos, disse: "Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida".
           Ele quis dizer que, se a pessoa escutar seu chamamento interior e atendê-lo, seu labor lhe será leve, pois o executará com alegria e felicidade.
           Cada vez mais, nesse mundo capitalista, somos amestrados e amestramos nossos filhos a investir em profissões que dêem grandes retornos financeiros e, as de pouco rendimento são marginalizadas; isto é, a sociedade "torce o nariz" para quem, por vocação, insiste em exercê-las.
           Uma profissão, desvalorizada aos olhos da sociedade, só será valorizada se dela obtém-se bons resultados financeiros, como por exemplo, os atores e atrizes, cuja profissão já foi maldita, só passaram a ser bem-vistos depois de provado que muitos são bem pagos. Os atletas também, depois dos anos 70, quando junto com os troféus vieram boladas de dinheiro.
           Há outras ocupações que são personalíssimas; não bastam que sejam bem exercidas, pois depende do reconhecimento do público, para daí materializar a boa remuneração, mas, é uma valorização pessoal, de alguém que exerce seu talento natural de maneira que cai no agrado público, e não da profissão. Nesse caso há um reconhecimento residual.
           Isso ocorre muito no mundo das artes, como os cantores, músicos, artistas plásticos. Enquanto o público não os "descobrem", as pessoas de seu relacionamento social e familiar, fazem pouco do seu talento, preferindo colocá-los como "aluados" com pouca vontade de trabalhar, de enfrentar um "trabalho digno". Muitas vezes até os próprios pais vêem nos filhos, que ainda não conseguiram alcançar o sucesso, um talento nato, mas eles vivem em função do que "os outros" pensam.
           Na verdade, esses pais estão preocupados é com o que "os outros" pensam deles: "O que fulano e sicrano vão pensar de mim? Que não fui capaz de encaminhar meu filho(a) na vida!". E aí começam a dizer que "alegria não enche barriga", ou ironizam: "mas, você acha mesmo que as pessoas vão pagar por esses rabiscos?", ou "mas, você não acha que já está na hora de procurar alguma coisa séria para fazer?", etc.
           Há profissão que já foi muito valorizada e depois caiu para a classe dos "narizes torcidos", como a de professor, principalmente a do ensino fundamental. Os professores nunca ganharam nenhuma riqueza, mas há cinqüenta anos, conheci professores do primário (como se dizia naquela época), que conseguiam sustentar toda a família dignamente com o seu salário e eram respeitados pelo que faziam. Atualmente, para obter reconhecimento, o professor tem que possuir pilhas e pilhas de certificados, é uma série de pós, mestrado, doutorado, numa educação continuada que não tem fim.
           Hoje, quando a mãe faz a clássica pergunta à filha: "o que você quer ser quando crescer?", e a menina responde: "Quero ser professora", a mãe, arregala os olhos e solta um "Credo!", ou então, resignadamente, diz: "Coitada...". Mas, tem coisa mais bonita que ver uma professora que tem realmente vocação para o magistério, ensinando? Não tem, é bonito de se ver e a sociedade, embora não as pague decentemente, depende inteiramente delas para a transmissão de conhecimento e, sobretudo valores que vão condicionar a qualidade intelectual futura dos indivíduos.
           Atender a nosso chamamento interior, é estar em equilíbrio tanto interno como exteriormente e se ganharmos dinheiro com nossa vocação, daí é... o ideal..

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