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           Criando Mentalidade
           
Nossos filhos vagabundos

            Maria da Penha Vieira
            22, Agosto/2004

            Berta Ataíde
            e Ana Louvado
            Coordenação: Maria da Penha Vieira
            28, Julho/2004

 

 

Início do Tema

 

Mentalidade!

Mentalidade! 2

Criando Mentalidade

O chamado Interior

 

 

É tão raro um músico se apresentar nas ruas que, quando acontece, se transforma em ícone de mediocridade e/ou morto-de-fome. Isso me faz lembrar o solitário saxofonista que fazia ponto na saída do metrô da Carioca, no Rio e cujo início acompanhei durante um bom tempo. Todos os dias por volta das sete horas eu desembocava do metrô, e, como o saxofonista já conhecia minha música favorita ( I put a spell on you/cause your mine/turu ru ru... ) dava os primeiros acordes na boca da cidade que ainda não acabara de levantar-se da cama, mas exalava o cheiro doce do café dos botequins. O dinheiro dele já estava no bolso do meu blazer. Para mim, era um ritual sagrado. Nunca levava o carro para o centro da cidade só para não deixar de viver o rito matinal. E veja que não me incomodava a carência técnica instrumental do músico.

Alguns anos depois, vejo uma boa reportagem com "meu músico" em um programa de tv. Fui tomada por um sentimento abençoado por ter sido uma das primeiras pessoas que viram aquele sax brotar das pastilhas do chão do centro da cidade e rasgar as manhãs ainda silentes.

São coisas simples assim, que alargam mentalidades. Nada Oficial, nada feito por imposição legal. Nada disso depende de projeto mirabolante, como essa nossa mania de grandeza que contrasta com o existente na vida real. O espontâneo acaba por ser incorporado as nossas vidas sendo, assim, muito mais do que simplesmente aceitos. Essa é a melhor das leis. ( ONGs, não por favor! Fiquem longe dessa espontaneidade).

É bom registrar, que no Brasil, quando um grupo de música se apresenta em corredores de grande circulação de centros urbanos, são em geral músicos populares que já desistiram de lutar para alcançar um palco de verdade. Palcos de campanha política, esses ficam para os músicos famosos e alinhados. Palcos de prefeituras, com cartas marcadas e dízimos para uma fila infindável de agentes.

A atividade de rua, bem poderia ser abrigada nos fundos de casas comerciais, não apenas pela legião de músicos instrumental. Também cantores, pelo pessoal de teatro, os artistas plásticos, escritores, enfim, todo pessoal que não encontra espaço comercial propriamente dito. Quem mais lucraria seria o propiretário do estabelecimento comercial, com certeza. Os artistas lucrariam, se os donos dos estabelecimentos estimulassem o público a contribuir financeiramente de acordo com as posses e a satisfação de cada.

Uma única e intransponível dificuldade para todos: licença municipal. Ou seja, o Poder Municipal, onde quer que exista um cidadão, é a barreira do inferno ou glebas usadas politicamente.

O pessoal dos esportes no mar, bem, esses continuam mastigando suas dores e frustrações. Vivem num eterno ressolho. Humilhados em sua condição humana por não conseguirem prover-se e ainda desacreditados pela família, amigos e parentes. Para eles, o sonho pode acabar na ministração de aulas particulares. Se sonhar profissionalmente, só campeonatos. Mas não há como participar dos campeonatos mais importantes se não encontram patrocínio.

 

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