Tristeza
Aspectos psicológicos de suas causas
e consequências
Antonio Carlos Alves de Araujo
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Psicólogo - C.R.P: 31341/5
16, Abril/2003
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"Talvez o ponto
de maior sofrimento deste sentimento, seja o aspecto temporal,
pois a tristeza sempre nos coloca a dúvida pessoal de quanto tempo
ainda nos resta para buscarmos a felicidade, já que até agora
temos fracassado. A essência deste processo é uma dívida eterna
em relação ao passado, e é exatamente o que a tristeza manifesta
na sua totalidade".- Antonio Carlos - Psicólogo.
É impressionante
como a literatura psicológica sempre abordou temas muitas vezes
minuciosos do comportamento humano, em detrimento de pontos centrais
das emoções humanas. A tristeza se insere neste contexto citado,
pois há uma carência de trabalhos sobre o tema. Gostaria de iniciar,
traçando uma importante diferença entre tristeza e depressão. A
primeira é um estado emocional intrínseco a todo e qualquer ser
humano, privado de determinada satisfação pessoal e emocional. É
uma reação do organismo quando o mesmo se depara profundamente com
sua fragilidade. A depressão é um processo cristalizado de vingança
e raiva internalizados na pessoa, é a tentativa de devolver o "pior"
de si mesmo para o meio circundante.
A raiva citada
é devolvida de forma indireta, através da escassez absoluta de vitalidade
e energia. É forçar constantemente que o ambiente cuide inteiramente
da pessoa, regredindo a um estágio infantilizado de amparo constante.
A depressão é uma mensagem constante da eternidade da mágoa; é um
ritual obsessivo e diário que diz da desistência perante novas jornadas
ou desafios. É uma parada total e voluntária diante da busca do
prazer, o trocando pelo tormento pessoal, contaminando totalmente
o ambiente à sua volta.
A tristeza não
chega aos limites extremos citados no processo da depressão, pelo
contrário, pode ser um elemento valioso para a avaliação de toda
uma meta de vida. Desde os primeiros anos da infância, todo o ser
humano sentirá a emoção citada. Diria que o modo como uma criança
elabora a tristeza, é que definirá sua futura personalidade; podendo
se tornar uma pessoa carente, tímida, ou um ser independente;que
aprendeu a criar em cima dos obstáculos. Sem dúvida a tristeza é
o divisor das águas que definirá o tipo de pessoa que vamos nos
tornar.
Infelizmente
nossa cultura não valoriza o aspecto emotivo do ser humano, assim
sendo, a criança cresce não valorizando seu aspecto emocional, ficando
apenas com o trauma ou complexo de inferioridade por ser dependente
economicamente ou afetivamente. Se os pais deram a vida à criança,
a dívida já está paga, pois a mesma veio ao mundo também para salvar
os mesmos. Isto ocorre a partir do momento que a criança começa
a reproduzir antigas neuroses familiares não resolvidas, na tentativa
de mostrar aos pais que estes tem uma tarefa inacabada para cumprir.
Sob esta ótica, são os pais que dependem dos filhos para enxergar
aquilo que precisa ser reparado, do contrário, todos viverão em
eterno conflito. Se todos pudessem perceber o exposto acima, haveria
uma verdadeira revolução no contexto familiar e social.
Talvez o ponto
de maior sofrimento deste sentimento, seja o aspecto temporal, pois
a tristeza sempre nos coloca a dúvida pessoal de quanto tempo ainda
nos resta para buscarmos a felicidade, já que até agora temos fracassado.
A essência deste processo é uma dívida eterna em relação ao passado,
e é exatamente o que a tristeza manifesta na sua totalidade. A pessoa
sente que tudo aconteceu por ter permitido que outras pessoas entrassem
a fundo em sua vida, podendo a partir deste momento tornar-se totalmente
introvertida e avessa a novos contatos pessoais.
Como em nossos
tempos atuais, a prioridade há muito tem sido o aspecto material,
nosso lado emocional a cada dia vai se sensibilizando não em um
aspecto positivo, mas a falta de seu uso, digamos assim, faz com
que sejamos constantemente contaminados pelas emoções humanas mais
negativas. Este é um processo de compensação, pois a atrofia emocional
não exacerba apenas a sensação de carência, mas torna a todos cada
vez mais vulneráveis às seqüelas de determinadas vivências negativas.
Pensa-se muito
sobre a tristeza como a ausência de dinheiro, afeto, poder etc.
Isto é absolutamente incompleto, sendo que dito sentimento é a gradativa
perda de responsabilidade ou negligência para com o prazer do outro
e de si próprio;gerando um vácuo no desenrolar dos relacionamentos.
A tristeza é uma espécie de bússola que nos dirá qual é a área mais
afetada; ambição desmedida, falta de real investimento afetivo,
complexo constante de inferioridade pessoal. Obviamente a perda
de controle pelo citado acima levará inevitavelmente a pessoa à
depressão.
Outrora já havia
alertado em outro estudo sobre o medo, de que determinadas emoções
humanas são não apenas um alerta, mas talvez o último refúgio de
um modo de vida totalmente desumanizado. O medo,inveja,tristeza
e depressão estão dominando cada dia mais nossa alma, e pouco temos
feito a respeito desta situação catastrófica.
Já presenciei
por diversas ocasiões em terapia, o paciente simplesmente abandonar
a mesma por não tolerar a idéia de ser alguém diferente, desejando
com esta atitude comprometer o próprio psicólogo; preferindo se
arruinar a conceder ao outro o poder de realizar um trabalho satisfatório.
Agora pensemos como este processo terapêutico citado pode ser transportado
para as relações diárias. Não demorará a descobrirmos que esta situação
de genuína "sabotagem", vem se alastrando em todos os setores. Se
fizéssemos uma história do desenvolvimento das emoções e sentimentos
da humanidade, descobriríamos que talvez alcançamos um dos níveis
mais baixos e medíocres de realização pessoal e coletiva.
Nosso sistema
de valores insiste em divinizar o egoísmo e individualismo, sendo
que nunca foi fato tão notório, de que nossa plena satisfação depende
inicialmente do bem estar do outro. A tristeza passa também pela
perda da capacidade inata do ser humano da solidariedade. Nosso
sentido da vida cai pela metade, quando descobrirmos que nossos
esforços são totalmente egóicos, embora esta mensagem caia absolutamente
no vazio, em virtude do esforço e necessidade constante de se ganhar
dinheiro. Porém, a reflexão é vital, se desejarmos evitar um estado
de infelicidade generalizada. As coisas melhorariam um pouco, se
cada um de nós admitisse a necessidade de aprendermos como se importar
profundamente com alguém.
A maior corrupção
da história da humanidade, foi à apropriação de um dos mais genuínos
sentimentos humanos;a solidariedade, pela religião. O confinamento
da bondade agregadas a um conjunto de crenças e rituais, teve o
sentido histórico de minimizar o potencial de mudança do ser humano,
abafando qualquer manifestação contra determinadas injustiças, ou
tentativas de rebelião.
Como disse
acima, psicologicamente a criança é treinada desde cedo à jamais
dar valor a sua afetividade, ficando apenas com o trauma de sua
fragilidade perante a sobrevivência. É instalado na criança o sentimento
de culpa, pelo sacrifício econômico feito pelos pais em função da
mesma. Embora estas considerações sejam um tanto óbvias, é importante
frisar que o maior poder de uma criança é seu afeto, ternura e emoção,
fatos muitas vezes negligenciados pelos adultos, reforçando desde
cedo na mesma, a ambição e treino para a vida material. Sendo assim,
determinada pessoa se torna egoísta quando descobre que não irá
receber facilmente determinadas coisas, fechando-se em seu ego,
e vendo todos ao redor como eternos rivais ou competidores. Esta
crença internalizada desde a tenra infância, marca a cristalização
da tristeza na alma da pessoa, pois a mesma foi treinada para nunca
valorizar o seu eu, mas tão somente suas habilidades materiais.
Não é difícil
perceber em nossos tempos, como a miséria humana ou doença mental
está muito mais próxima do que imaginamos. Infelizmente insistimos
muitas vezes em ilusões românticas, que acabam na maioria das vezes
potencializando nossa tristeza. O fato é que fomos treinados para
o egoísmo, mas pela mais pura ironia do destino ou contradição,
uma das coisas mais difíceis para todos, ainda é trabalhar o "não".
Ficamos estupefatos, perplexos e desnorteados perante a rejeição.
Não sabemos como lidar com a mesma, pois nunca tivemos tal treino.
Lidar com a
recusa é fundamental, principalmente para aprendermos a selecionar
o que realmente teve ou não valor. Como disse anteriormente, a atrofia
emocional de nossa era, exacerba uma sensibilidade que fica fora
de controle ou transbordando o tempo todo; a questão da dificuldade
de lidar com o "não" se insere neste contexto, pois como a cada
dia estamos mais fragilizados, as recusas só reforçam ainda mais
a baixa autoestima. O desafio quase que diário para todo e qualquer
ser humano é entender e trabalhar a frustração, sendo que não precisamos
caminhar muito para encontrarmos obstáculos.
Cabe uma pergunta
preciosa acerca da gênese da tristeza;se nossa sociedade venera
o hedonismo, satisfação e consumismo desenfreado, por que o reforço
constante que uma pessoa emprega em sua mágoa ou tristeza? O que
se ganha sofrendo? Embora todas as correntes da psicologia sempre
disseram dos chamados benefícios secundários da neurose, como por
exemplo: mais atenção, cuidado,mimos; penso que a resposta ainda
não está clara. Todo psicólogo assiste diariamente determinado paciente
não apenas reforçar seu sofrimento, mas também em hipótese alguma
abrir mão do mesmo, utilizando todos os estratagemas, incluindo
o abandono da terapia. O fato é que esta pessoa perdeu uma soma
de tempo considerável, construindo seu mundo pessoal de aflição,
não desejando encarar tal conclusão; sendo extremamente doloroso
admitir que perdeu tempo precioso na busca de seu caminho de satisfação.
Temos de entender
que o desespero sempre comove, pois como nossa capacidade solidária,
há muito se encontra trancafiada, necessitamos de experiências drásticas
de tragédias ou miséria coletiva, para fazermos o que devia ser
regular. Nossa solidariedade com o sofrimento alheio quase sempre
é hipócrita, escondendo um desejo oculto pelo outro estar na pior,
e todos nós sabemos de tal fato. A prova é que o assistencialismo
nunca resolveu de fato as carências ou necessidades dos mais excluídos.
A solução deveria passar pela amizade ou solidariedade genuína,
ajudando a pessoa a resgatar seu poder pessoal. Este é o elemento
central, pois de nada adianta ajudar determinada pessoa a superar
sua tristeza, se não lhe devolvermos o aprendizado de como lidar
efetivamente com suas dificuldades profundas.
Voltando para
as raízes psíquicas da tristeza, e frisando o conceito citado anteriormente,
não podemos deixar de associar a primeira com a questão da sensibilidade.
Talvez algum dia, quando as ciências trabalharem em conjunto, venhamos
a descobrir como existe uma perfeita lógica na questão sentimental.
Afirmo tal fato, pois nada é mais preciso ou matemático na existência
humana do que a questão da sensibilidade, sendo que nosso desafio
é colocar a mesma no lugar certo.
Todos os conflitos
psíquicos advêm do desvio deste potencial humano, que imperativamente
tinha de estar disponível para a afetividade. Porém, a repressão
que a educação familiar e social impõe ao fluxo natural da emoção
da criança, geram o medo, que desviará todo o potencial citado para
esferas sombrias das emoções humanas, como por exemplo: depressão,tristeza
profunda,mágoa, etc. A conseqüência direta do medo é um conflito
insuportável para a pessoa entre o temor de ser independente,procurando
sempre ser amparada em todos os aspectos;se utilizando inclusive
da doença para tal finalidade; ou o ódio e vazio que sente por tão
cedo terem lhe retirado o amparo familiar, tornando-se independente,
mas com rancor e mágoa como conseqüência de tal histórico.
Geralmente ambos
os grupos citados anteriormente, tem como característica básica
de personalidade, impor toda a sua solidão pessoal para todas as
pessoas que encontrarem no decorrer de suas vidas;como uma espécie
de vingança contra seu sentimento de inferioridade que o martiriza
diariamente. Estas pessoas fazem questão de passarem desapercebidas
perante os verdadeiros "tesouros" que possuem; se tornando retraídas,
ciumentas e possessivas. No lado sentimental, impõe ao parceiro
uma eterna espera pela doação de seu lado afetivo; sendo o ganhar
tempo, característica básica de conduta.
Embora muitas
vezes sofremos com determinado relacionamento, sabemos que a perda
do mesmo pode nos custar ainda mais caro.Por pior que seja a situação,
o sofrimento sempre aumenta num primeiro momento após o fim de determinado
envolvimento. O maior obstáculo para qualquer tipo de mudança é
a desconfiança quase que absoluta em nosso potencial,gerando um
receio imenso sobre se conseguiremos novamente construir algo; se
os eventos estarão ou não a nosso favor;se o destino ainda poderá
nos reservar um mínimo de satisfação perante todo o pesadelo diário
em que muitas pessoas vivem.
"NÃO TEMA A
TERAPIA, MAS A UTILIZE PARA A MUDANÇA DE UM ESTILO DE VIDA QUE PARECE
NÃO TER FIM." .
POR RAZÕES ÉTICAS,
QUALQUER ORIENTAÇÃO SÓ É POSSÍVEL PESSOALMENTE ATRAVÉS DE CONSULTA
PSICOLÓGICA..
(*)
Dúvidas e Orientação apenas pessoalmente
Antonio Carlos Alves de Araujo - Psicólogo
- C.R.P: 31341/5
EMAIL antoniopsico1@hotmail.com
END. RUA ENG. ANDRADE JÚNIOR, 154, TATUAPÉ-SP-SP
CONTATOS: XX 11 - 66980558 .
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