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Solidão - O desespero de nossa época.

Dr. Antonio Carlos Alves de Araújo
E
-mensagens para:antoniopsico1@hotmail.com

 

Abordagem das causas da solidão em nossos dias, bem como o impacto da mesma nas pessoas e a forma como cada um tenta lidar com esse fenômeno causador de boa parte da angústia nas pessoas.

“O solitário é aquele que tem tempo de sobra para pensar em sua total insatisfação, o infeliz é aquele que jamais terá essa oportunidade”.

“Solidão a dois não é tanto saber que o outro jamais lhe completará, mas principalmente o total desprezo e indiferença em relação aos nossos anseios e expectativas, é ser constantemente ignorado e abandonado na presença de alguém”.

“A solidão suprema não é a incapacidade atual de viver uma experiência de real prazer, mas tão somente o temor de experenciá-lo ao encontrarmos, ou seja, o irmão predileto da solidão chama-se desperdício ou talvez o medo do amor”.

“Solidão é o terrível desespero da espera por alguém que nos traga aquilo que mais necessitamos”.

“Quando o sofrimento nos derrota, somos aniquilados, quando o aceitamos nos transformamos num ser maior”.

“Muito pior do que o adeus é a certeza do nunca mais”.

A solidão é como uma ressaca do mar, trazendo ou nos dando uma dimensão de todos os nossos atos e pensamentos, ela nos mostra todo um histórico e estilo de vida, sendo na maioria das vezes uma prova indesejada da nossa falta de responsabilidade pelo ente humano, é ainda o produto de tudo aquilo que sempre tentamos fugir,o desespero.

Sua imperativa presença não dá espaço para fugas ou escapismos como quando estamos absortos em algo, mas revela cruelmente nossos mais remotos hábitos, medos, temores e anseios, sendo que este último é uma tentativa desesperada da mente para se proteger dos primeiros, pois o desejo na solidão tem a função vital de proteção da saúde psíquica, pois caso contrário, nosso inconsciente é literalmente invadido pelas mais temidas idéias destrutivas e persecutórias.

O verdadeiro pânico é o sentimento não apenas de estar só, mas a sensação terrificante de desamparo pessoal e social, principalmente dentro de um contexto que apregoa a equação:“solitário é igual a fracassado”. O impacto desse lema nas pessoas é extremamente avassalador, querendo todos fugir desse estigma ou cicatriz de inépcia social, produzindo maiores danos ainda, como a baixa qualidade das escolhas ou extrema ansiedade. Obviamente, podemos deduzir que a procura por relações de certa forma é um alívio ou fuga daquilo que realmente somos ou tememos em nós mesmos, sendo a ansiedade uma vacina eficaz e preferível ao profundo autoconhecimento.

As razões dessa conduta são mais do que históricas, pois séculos de cristianismo, forçaram a todos a ocultar partes indesejáveis e ameaçadoras da personalidade, imputando apenas aos desajustados e psicopatas os elementos destrutivos do ser humano. O ponto central desse presente estudo é o fato da solidão revelar até que ponto verdadeiramente desejamos a troca e contato humano, nesse caso a solidão passa a ser um estímulo e até um objeto de reflexão apurada para uma futura busca, selecionando melhor as escolhas, dando inclusive uma dimensão do que realmente gostamos ou daquilo que profundamente sentimos saudades. Diria que esse seria o lado positivo da solidão, uma dissecação de nosso estilo de vida como descrito anteriormente, pesando-se todas as vantagens e desvantagens de nossa conduta, neste caso a solidão seria um intervalo para que pudéssemos reavaliar nossas experiências de vida, e o que realmente estamos buscando, e a maneira pela qual estamos fazendo isso.

 

É fundamental sentirmos essa solidão para que possamos refletir e ajustar padrões viciados de conduta e comportamento. Fugir da solidão constantemente significa abafar essa oportunidade de crescimento interior. Infelizmente isso ocorre devido à insegurança, e temor de que a solidão se torne uma constante na vida da pessoa, achando que não terá forças para sair desse quadro devido a um forte complexo de inferioridade pessoal. A solidão está intrinsecamente relacionada com o passado, pois todo ser humano em estado de solidão pensa no mesmo, seja em termos de arrependimento, prazer pretérito perdido, mágoa, raiva, ódio, angústia, saudades, etc. Mas é justamente nesse ponto que reside um fator central, pois o temor à solidão passa a ser o medo da memória, de nossa história pessoal, da avaliação ou prova sobre o grau de prazer e felicidade do eu.

No próprio processo de terapia temos um exemplo vivo do medo à solidão, Freud chamou de “resistência”, quando um determinado paciente não conseguia se libertar de um determinado conteúdo neurótico, apelando ou para o silêncio na hora terapêutica, ou até mesmo para a sedução do analista com o propósito de anular sua atuação.

Alfred Adler foi o primeiro a perceber que a resistência tinha um fundo de solidão, sendo que o intuito do paciente era criar um “combate” com o analista para desmoraliza-lo, dado o ódio do paciente por estar em análise, sendo que isso na cabeça do mesmo era uma prova de seu fracasso em desenvolver o que ele chamava de “sentimento de comunidade”, relações sociais que visassem a cooperação e solidariedade entre as pessoas, assim sendo a resistência era contra o sentimento de se envolver e se doar para algo ou alguém. Sem sombra de dúvida este foi o século onde o ser humano mais se sentiu solitário e desamparado, seja por problemas relacionados à estrutura político-social-econômica ou por neuroses pessoais.

O fato é que solidão também está relacionada à questão do poder em nossa era, pois toda estrutura de poder teme uma maior troca e aproximação das pessoas, devendo imputar na cabeça do indivíduo que sua solidão não é fruto de um sistema, mas tão somente de sua incompetência pessoal. Deveríamos refletir bastante sobre isso, para que possamos isolar as verdadeiras causas do problema. Apostar sempre no privado e individual é acelerar o mecanismo da solidão, não que se esteja pregando a anulação pessoal, pelo contrário, estar integrado consigo mesmo é lutar para que o outro também realize seu potencial, porém em nossos tempos apenas assistimos a devoção ao estritamente pessoal.

A verdade é que estamos absolutamente indolentes e apreensivos para buscarmos novas relações, volto a insistir no medo da memória, pois esta encerra o temor ou uma negativa ao novo, dizendo-nos constantemente que se nos arriscarmos novamente, todo o sofrimento que vivemos no passado poderá se repetir.Freud chamava esse mecanismo psíquico de “compulsão à repetição”, uma tentativa neurótica de reviver constantemente um trauma, até que a pessoa se torna cônscia do processo que havia direcionado principalmente seus afetos.

Adler achava que tal mecanismo se devia ao fato da pessoa insistir sempre em ser amparada pelo seu meio, pois o sofrimento seria uma espécie de escudo para nunca se atingir a independência, forçando um cuidado e atenção especial para a pessoa acometida pela neurose, o que ele chamava de “pessoa mimada”, o protótipo de ser humano incapaz de troca, mas tão somente direcionado para os benefícios que possa obter através de seu distúrbio. A solidão no psiquismo humano é sentida como um processo doloroso de exclusão na obtenção ou participação de experiências afetivas de troca ou prazer, é sentir que todos os demais tem um direito que nos é negado.

Segundo a teoria psicanalítica, a fantasia que a criança desenvolve acerca da sexualidade dos pais, é que “há uma espécie de festa na qual ela está excluída”, sendo este exatamente o sentimento do solitário acerca de sua real condição humana, sua crença na incapacidade de obter semelhante satisfação. Adler acreditava que a criança percebia tal acontecimento não como um prazer de natureza sexual negado, mas principalmente o ódio da mesma em relação à pessoa que detinha o poder sobre sua inclusão ou exclusão de determinados eventos, ou seja, uma luta contra a suposta tirania e dominação dos pais, traçando um paralelo entre a luta de classes no modelo econômico que vivemos.

Outro ponto muito interessante acerca da psicologia do solitário, observado em terapia é o de que determinado indivíduo parece ter criado historicamente todo um “projeto” voltado à solidão. Citarei a seguir alguns elementos que contribuem para tal finalidade, embora muitos deles sejam preconceitos ditados pela sociedade, mas que acabam sendo incorporados pela pessoa, visando evitar uma experiência de aproximação, alguns exemplos: neuroses em geral, onde a pessoa acaba por ficar debilitada, dificultando uma real experiência de prazer com o outro, sendo que a relação se torna de extrema dependência, por exemplo, a síndrome do pânico, onde o medo e pavor forçam uma atuação excessiva e desgastante sobre o indivíduo, e o mesmo é incapaz de prosseguir suas tarefas profissionais ou sociais, o mais interessante é que determinadas crises de pânico sempre ocorrem quando o sujeito se encontra numa situação social ou simplesmente saiu de casa, revelando que o único ambiente seguro é seu lar, rejeitando por completo a aproximação com outras pessoas.

Ainda sobre idéias aterradoras, lembro-me de um paciente que tinha verdadeira fobia de estar contaminado com o vírus HIV, e embora os exames nada revelassem, ficou claro seu intuito de afastar-se das pessoas, principalmente no tocante ao planejamento familiar, pois pensava que como era portador, jamais poderia ter filhos, ou constituir uma relação. Ele inclusive havia fixado um prazo de dez anos para ter novamente relações sexuais, pois em sua mente era o tempo que escutara para ver se o vírus se manifestava ou não.

Outro exemplo desse projeto da solidão são de pessoas que moram sozinhas, que não conseguem organizar as tarefas rotineiras, faltando muitas vezes os cuidados elementares do lar, fica patente uma tentativa de afastar qualquer possibilidade de alguém compartilhar sua habitação, a primeira vista parece algo banal, mas observando com mais minúcia, vemos que a pessoa simplesmente não consegue efetuar o básico, carregando inclusive uma carga de ódio contra esse tipo de tarefa, que simboliza dar as boas vindas para quem deseja adentrar seu lar.

Alcoolismo e drogas em geral são mais do que óbvios nesse projeto, entrando ainda masturbação excessiva como dizia o próprio Adler, pois tenta fazer sozinho aquilo que deveria ser compartilhado; ainda a obesidade como fator de rejeição dentre outros.

Volto a alertar que esses conteúdos citados carregam forte conotação preconceituosa, devendo ser avaliados sob a luz do problema da pessoa em si, jamais devemos generaliza-los. Espero que este estudo tenha proporcionado uma reflexão ou um breve alívio, para um problema de tamanha magnitude tão pouco estudado pelas ciências sociais.

( Solidão - Um paralelo entre as teorias de Freud e Adler )

Quem é Dr. ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO, psicólogo( C.R.P: 31341-5) End.: Rua Eng. Andrade júnior, 156, Belém SP-SP Cep03061-040 Tel:66921958 e-mail:acaa@ig.com.br Experiência profissional: Psicólogo clínico .Atendimento: crianças, adolescentes, adultos, casais, orientação vocacional, psicodiagnostico.

Convênios: Economus (caixa econômica estadual), unibanco, sindicato dos corretores de imóveis, sindicato das secretárias do estado de são Paulo, sindicato dos trabalhadores em informática do estado de são Paulo, simpeem (professores municipais), apeoesp (professores estaduais), trabalhadores dos correios do estado de são Paulo. PALESTRAS: (entre outras). BANCO DO BRASIL - 1999. Assunto: relações de poder nas instituições. Faculdade de sociologia e política do estado de são Paulo. Assunto: psicologia social e professor universitário da referida carreira. Formação: FACULDADES METROPOLITANAS UNIDAS Ano de formação: 1989. Cursos em desenvolvimento: ADLERIAN’S INSTITUTE OF PSYCHOLOGY ( San Francisco – EUA ) SÃO PAULO, 16 de maio de 2000.

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