Direitos
Humanos
para as Polícias
Começando por onde deve
Maria da Penha Vieira
09, Julho/2002
A sociedade brasileira tem-se
mostrado pouco atenta à complexidade dos problemas
da Segurança Pública. Repetem-se falas como,
"a policia precisa estar
melhor aparelhada, para repelir o crime organizado"
"armas mais modernas e eficientes (?)’
‘a polícia é corrupta’
‘tenho mais medo da polícia do que medo dos bandidos’
‘mais viaturas para as polícias’
tudo
dito, sem que o cidadão comum reflita, ainda que não
seja nenhum especialista em segurança pública.
Agora,
teremos eleições majoritárias. Novo Presidente
da República, novos governadores, deputados, senadores
etc. Vejamos o quê e como eles estarão investindo
para mudar o quadro agudo da crise de violência em que
vivemos. Será que nossos governadores continuarão
comprando meia dúzia de viaturas e promovendo o desfile
de sirenes pelas ruas das cidades para propaganda enganosa?
Nossos candidatos continuarão
perenizando os pedidos de bênçãos e permissão
aos chefes do crime organizado para entrar nas favelas para
fazer campanha e pedir votos?
É desta forma que nossos
políticos se comprometem com o crime, com a violência
e depois não têm competência moral para
encontrar soluções que são inumeráveis,
no entanto falta o mais difícil: vontade política,
pelos simples fatos de estarem comprometidos até o
pescoço.
Impossível é ser
eleito sem o voto dessas comunidades. Se for eleito, como
conseguiu entrar nelas? Assim tem sido, sem que lhes seja
perguntado.
Se
há os que nem precise entrar, é porque as têm
à "porteira fechada"; mas esses devem ser
pouquíssimos, custa muito alto.
Nossa preocupação
já tem iniciativas e preocupações antigas,
mas que poucos participam delas. Colhemos material, que se
segue, grifado em azul :
ASSEMBLÉIA
LEGISLATIVA DO ESTADO
DO RIO GRANDE
DO SUL
Comissão
de Serviços Públicos
Reunião
Realizada em 07 de abril de 1994
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página
http://www.al.rs.gov.br/Comiss%C3%B5es/Csp/1994/940407.htm.
A
questão habitacional da Brigada Militar é um
problema seriíssimo que teremos de enfrentar com arrojo,
muita determinação e com a mobilização
da comunidade e dos homens públicos em geral. A formação
de uma cooperativa para viabilizar a aquisição
da casa própria para nossos servidores é de
fundamental importância. Pedimos aos poderes públicos
que colaborem conosco para viabilizar um projeto que venha
a contribuir para a diminuição do déficit
habitacional dos nossos policiais militares. Não podemos
continuar permitindo que nossos servidores continuem a morar
em favelas, ao lado de delinqüentes. Esse é um
problema gravíssimo que precisa ser enfrentado. Por
isso, cumprimentamos o Poder Legislativo, através do
seu Presidente, Deputado Renan Kurtz e do...
Deve ser mesmo uma coisa muito
difícil de ser compreendida.
Comprovado que os drogaditos
apresentam buracos no cérebro, neurônios queimados
mas, no Brasil, com destaque para o Rio de Janeiro, essas
seqüelas parecem mais perceptíveis e danosas nos
cérebros da inumerável fila de "autoridades"
e especialistas em segurança que temos tido e mais
recentemente, ouvindo-os falar nos jornais da TV.
Enquanto os criminosos se mostram
competentes, organizados, guerrilheiros disciplinados e com
conhecimentos inequívocos tanto de ataque como de defesa,
nossos homens "do bem" se apresentam exatamente
o contrário, apesar de tanta escolaridade. Apesar da
boa alimentação na primeira infância.
Apesar de tanto e de tudo, se apresentam tíbios, inoperantes
e, no mínimo, com boa vontade podem valer esses adjetivos.
As vítimas da ditadura
e os discípulos dos nossos antigos guerrilheiros políticos,
hoje, quase todos políticos conhecidos e até
admirados, entrincheirados nas salas refrigeradas dos gabinetes,
um dia no passado, se encontraram. Os letrados passaram conhecimentos
aos iletrados. Conferiram diplomas com o rubro lacre de breu.
Todos, até agora, têm
apresentado soluções para os problemas da Segurança
em qualquer parte do País. No Rio, especialmente nesta
fase caótica que, curiosamente, sempre precede período
eleitoral, pelo menos no Rio de Janeiro. Neste ano exacerbaram,
surtaram de vez.
Fome e miséria caminham
juntas desde o Descobrimento. Nos dias que correm a miséria
moral superou tudo. Superou até a miséria focal,
o astigmatismo.
Um
dos pontos mais frágeis e mais gritantes neste Brasil,
em termos de Segurança Pública são os
problemas da habitação e da saúde mental
daqueles que cuidam da nossa segurança. O que digo
poderá soar sacrílego. Mas onde ela pensa em
chegar com esta questiúncula?
Quero
chegar aos quadros das nossas polícias. Polícia
Militar e Civil. Quero chamar a atenção para
o estado calamitoso, criminoso de abandono, principalmente
da Polícia Militar. Começando pela Academia
de Polícia do Rio de Janeiro, onde os internos, por
falta de cama nos alojamentos, alguns dormem no chão.
Onde o rancho nunca chega na hora exata da refeição,
um exemplo desanimador, logo de início, para os que
ingressam.
O que deveria causar estranheza
é a omissão, o silêncio dos nossos representantes
das classe políticas que o mínimo, ou, nada
fizeram para alterar o que por pouco ainda não está
estabelecido.
Se para transitar pelos feudos
do crime organizado, as Igrejas, o Estado, jornalistas, moradores
locais das comunidades faveladas pedem licença ao banditismo
para entrar no reduto deles como será que faziam e
fazem os candidatos políticos, postulantes à
representação da sociedade civil, para trabalhar
lá dentro, heim? Eles também tiveram, e ainda
têm que pedir benção. Alimentaram o monstro
a pão-de-ló, pensando estarem acima de qualquer
possibilidade de que eles próprios pudessem vir a ser
vítimas. Enquanto o povo clamava, podia ficar tudo
como estava mas, quando o "poder paralelo" bateu
à porta deles, aí sim, viram que não
estão acima de nada.
Até
que vingue, mesmo em curto espaço de tempo o projeto
de muitos, em ver as polícias unificadas, melhorar
a auto-estima e a dignidade do policial, militar ou civil,
já será um grande feito. O que não se
entende é que se deixem ficar de braços cruzados
esperando o dia em que venha a acontecer a unificação.
Do Programa nacional de segurança pública as
verbas oriundas para o Fundo Nacional de Segurança
Pública, o montante exato, investido nas polícias
não se tem acesso ou notícias. Sabe-se que alguns
investimentos ( há quem fale em torno de 200 milhões
) foram dirigidos para o reaparelhamento da polícia
e capacitação profissional. Utilizados na aquisição
de armas, veículos e equipamentos para a polícia,
no treinamento de policiais em técnicas de policiamento
ostensivo, investigação criminal.
A
população não tem como acompanhar esses
investimentos, menos ainda, como e onde poder contar com disponibilização
de informações claras e concretas. Foram feitos
investimentos em diversas direções mas para
nenhuma dessas das quais estamos falando e que nos preocupa,
na medida em que o ser humano, o grande patrimônio,
os policiais, não foram contemplados, ao que percebemos.
Os veículos não andam sozinhos e precisam de
profissionais com motricidade e reflexos do mesmo modo que
as armas não alcançam seus alvos com mãos
trêmulas e olhos fechado de pavor.
Na Zona Sul do Rio de Janeiro,
embora mínima, parte dessas verbas serviram para criar
os conhecidos Polígonos de Segurança com vistosos
toldos. Fora deles não há salvação?
Nem dentro deles. Dinheiro mal investido, visão rasteira
do que é Segurança Pública. Usou-se verba
do Fundo até para apoiar a criação de
mais um poder policial ao instituir as Guardas Municipais.
O
Programa nacional de segurança pública tem metas
várias, inclusive voltada para os Direitos Humanos
dos apenados. Mas não para os Direitos Humanos dos
policiais e suas famílias vitimadas pelo descaso do
Estado e pelo esquecimento da sociedade, a mesma sociedade
que clama e necessita de proteção.
Saúde
mental
Seleção
Habitação
Priorização