Direitos
Humanos
para
as Polícias*
Maria da Penha Vieira
09, Julho/2002
Saúde mental
Seleção
Habitação
Priorização
Pesquisas
disponíveis, nem pensar. Afinal os números tanto
quanto a metodologia não mereceriam crédito,
mas o número de casos psiquiátricos dentro dos
quadros das polícias deve ser coisa muito grave. Numa
pequena pesquisa de campo, insignificante diante deste universo,
encontramos policiais surtados, estressados, cheios de tiques
nervosos, gagueira, sem coordenação motora,
e um sem número que formam um quadro de somatização
lastimável e de doenças mentais crônicas.
Enquanto
conversávamos com um desses policiais observamos uma
tosse seca intermitente que cortava a fala. Perguntado sobre
a tosse, ele disse que não era nada grave, só
sistema nervoso mesmo. Nada demais. Sem atendimento psicológico
de qualidade, sem tranqüilidade para trabalhar, com salários
aviltantes. Policiais sem um espaço
apropriado para lazer com suas famílias. A sociedade
não se dá conta de que o mesmo (
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ler >> ) excesso de ruídos
a que estão expostos os civis, também estão
os policiais militares, mas com um agravante,
são eles que cuidam da nossa segurança.
Nas
férias onde vão os policiais para se recuperarem
dos excessos do cansaço? E o lazer das folgas, será
que existem bons clubes para a classe? Recentemente, no Rio,
durante uma operação da polícia diante
de um seqüestro com reféns, o policial fechou
os olhos na hora de atirar. É assim que nascem as balas
e vidas perdidas. Ou o policial precisa fechar os olhos para
não ver a própria morte ou uma tetraplegia se
aproximando? O comportamento desses policiais, como das pessoas
em geral, está intimamente ligado à liberação
de suas tensões acumuladas no dia a dia.
De
acordo com o grau de insalubridade da função,
no exercício da profissão, os policiais deveriam
ter atendimento psicológico diferenciado, recebendo
mais monitoramento, por conseguinte.
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do artigo
Recrutamento
e Seleção:
Quando
perguntado sobre o motivo que o leva a desejar ser policial,
todo aspirante sabe que é para dizer que quer servir
a Pátria, ajudar a construir uma sociedade melhor etc.
Alguns raros jovens ingênuos respondem assim, por convicção
temporária, contudo a maioria não pensa assim.
O
aspirante tanto para a Academia de Polícia Militar,
de onde já sai oficial quanto para o aspirante à
soldado, tem sua habilidade e conhecimentos reduzidos à
prova escrita, exame médico, psicotécnico, exame
físico.
Nossa
visão sobre a importância do processo de recrutamento
e seleção dos candidatos, é de que ela
é a base da maior importância. É exatamente
aqui que muitos dos problemas que nossas polícias apresentam
são gestados. Portanto esse recrutamento e seleção
devem seguir com rigor.
O
fato de que muitos candidatos são filhos de policiais,
ou com parentescos de nomes importantes em outras áreas,
não podem, não devem ser considerados e muito
menos aceitos como antecedentes favoráveis, se os mesmos
não apresentarem o sucesso necessário durante
a seleção.
No
que tange à seleção, um dos instrumentos
que deve ser exaurido, em suas possibilidades é o Psicotécnico
incluindo e dando ressalto às aplicações
de dinâmicas de grupos como forma de identificar fragilidades
a serem trabalhadas enquanto dure o Curso Preparatório.
À medida dessas identificações, um trabalho
deveria ser desenvolvido e numa periodicidade semanal, a aplicação
de nova sessão de dinâmica de grupo dando continuidade
ao trabalho indicador dos progressos obtidos, repetindo-se
até seu objetivo final. Mas não parando aí.
Pensamos
que é isto; mas isto, deve ter continuidade, monitoramento
durante toda a carreira ativa dos aprovados, principalmente,
já profissionalizados. Não apenas porque o profissional
aspira ascender e sim para garantir a este profissional reciclagem
necessária à própria sobrevivência
física.
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POLÍCIA
MILITAR DE MINAS GERAIS
Academia de Policia Militar
ESTUDO DA EXPOSIÇÃO
AO RUÍDO:
Impacto no policial militar do
Batalhão de Trânsito
Adriano Starling Mosci, Cap.
PM QOS
João Luiz Cioglia Pereira
Diniz, Cap. PM QOS
Trabalho
Técnico apresentado à Academia de Policia Militar
de Minas Gerais (APM ), para aprovação no Curso
de Aperfeiçoamento de Oficiais - QOS/97, sob orientação
dos professores Fernando Pimentel de Souza (conteúdo)
e Marcus Vinícius Gonçalves da Cruz (metodologia).
Belo Horizonte / 1997
As
exposições diárias ao ruído dos
policiais militares do batalhão de trânsito em
serviço na Praça Sete mostraram-se bastante
elevadas. A monitoração contínua confirmou
que o tráfego de veículos é a principal
causa da poluição sonora da região e
consequentemente para os policiais militares, embora outros
fatores como sirenes, carros de som e uso do apito também
contribuam significativamente. Sabendo-se que, de acordo com
o Mapa Acústico de Belo Horizonte, 100% do efetivo
operacional do BPTran atua em áreas de poluição
sonora com níveis equivalentes ao da Praça Sete,
como nos grandes corredores de tráfego da cidade (avenidas
Amazonas, Cristiano Machado, Antônio Carlos, Pedro II,
rua Padre Eustáquio, entre outros), na região
central e dentro do perímetro da Av. do Contorno, depreende-se
que a exposição a ruídos ambientais é
elevada para todo o referido efetivo.
Policiais
militares do BPTran em Belo Horizonte, atualmente com um efetivo
de 923 homens, porque trabalham nas vias públicas sob
constante exposição ao ruído provocado
pelo tráfego de veículos.
Os níveis de exposição apresentados provocam
sérios impactos à saúde dos policiais
militares, que vão desde danos auditivos de graus variados,
segundo fatores relacionados com a susceptibilidade individual
intensidade e tempo de exposição a danos extra-auditivos
decorrentes do estresse degradativo do organismo, com todos
os possíveis efeitos já discutidos, além
da perda de capacidade de trabalho mental e psicológico.
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Habitação
Perguntem
a algum policial ( até a patente de sargento ) na rua,
em qualquer rua, onde ele mora. Mora inexoravelmente numa
favela, numa viela qualquer, bem ao lado do bandido mais reles
na hierarquia do crime. Seus filhos: seus filhos brincam com
os filhos e parentes de criminosos. Quando estes policiais
morrem em serviço, de quanto será o Prêmio
da Apólice do seguro que ele deixou para a família?
Quantos governadores de estados lembraram-se de mais essa
responsabilidade civil? Que perguntas bestas e descabidas,
essas minhas perguntas.
A
menos que eu esteja enganada e posso estar, a Polícia
Militar tem suas vilas militares, com apartamentos ou casas,
mimosos e pequenos jardins, para nossos policiais. Certamente,
seguro de vida também.
Por
que, nunca, nenhum dos antigos professores do pessoal do crime
organizado apresentou a idéia de construir condomínios,
num versão moderna das antigas vilas das Forças
Armadas? Condomínios, que podem variar em sua configuração
arquitetônica seja de casas ou pequenos edifícios,
com escola, posto médico, enfim uma estrutura inteligente
e humana que lhes permitam trabalhar, dormir e viver com um
mínimo de dignidade e segurança para eles e
suas famílias?
Ao
menos morando afastados do crime, as possibilidades de aliciamento
dos nossos policiais, pelas hostes do crime, seriam menores.
Afastamento que traria segurança para eles, os policiais,
visto que não teriam intimidade nem possibilidades
de criar laços afetivos, natural do convívio,
com seus vizinhos criminosos. Não temeriam por seus
filhos e mulheres com a intensidade que se pode imaginar na
situação em que vivem. As ONGs dos Direitos
Humanos já pensaram nisso? Pode até ter que
sim, mas onde estão os resultados?
Manter
nossas polícias convivendo no dia a dia, tendo que
olhar o rosto do inimigo, expor-se todo o tempo, é
mesmo não pensar em mudar nada.
Como
um policial que cumprimenta, e tem que cumprimentar, seu vizinho
bandido, de maneira amistosa, poderá apontar-lhe uma
arma franzina?
O
policial aposentado que fala no jornal da televisão
mora na favela, numa viela sem saída. Um pequeno acerto
na arma pesada que lhe levarem, é um favor de vizinho.
Mais do que isso, um favor a ele próprio, um favor
que lhe salvará a vida. A recusa, no mínimo,
o obrigaria a mudar-se do local onde mora, como diriamente
acontece. A quem estes policiais despidos de sua dignidade,
fragilizados em sua segurança recorrem?
Estamos
levando em consideração que, o estado agudo
da escalada da violência e poderio do crime organizado
minarão projetos como o do problema habitacional do
policiais militares. Qualquer leitor identificará todos
os pontos pelos quais este não seria viável
neste momento. Mas, com certeza, um projeto de saúde
com ênfase para a saúde mental, este cabe a qualquer
momento. Não apenas cabe, como é imperativo
ser implementado.
Falando
do policial, individualmente, estamos falando de toda Corporação,
dos benefícios para toda a Corporação,
e, o objetivo fim: toda a sociedade.
Garantir
boa formação, tratamento profissional com salários
indiretos ( benefícios ) advindos dos projetos que
visem beneficiar a qualidade de vida do policial e de toda
sua família, é um dever traduzido em "investimentos"
contabilizados em qualidade de serviços prestados à
sociedade.
Ainda,
com respeito a idéia de um projeto habitacional voltado
para os militares, o Coronel Brandino José Mello Ribeiro,
especialista em Segurança Pública e Coordenador
Militar da Presidência da Alerj, esclarece que ‘já
houve uma experiência, na Unidade de Olaria, que não
resultou satisfatoriamente, por motivos diversos, inclusive
por brigas constantes entre as mulheres dos praças.’
Para Cel.
Brandino Mello Ribeiro, a solução passa pela
unificação das Corporações
Leia o
excelente artigo, O cerne da
questão das Polícias
, Polícia
Militar e Civil, incluindo-se a Guarda Municipal. Essa
tricotomia, não funciona, afirma.
Com
respeito a questão da unificação das
Polícias, esta, também é defendida pelo
ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro,
Dr. Marcos Heusi. Essa defesa, a cada dia vem ganhando bons
defensores mas ainda não ganhou corpo político
suficiente para que a discussão possa ser ampliada.
A sonhada unificação das polícias é
projeto de longo prazo e requer muita estruturação
antes de qualquer coisa, pois, do contrário seria "embolação"
das polícias. A mesma proposta que hoje resulta na
existência do Ministério da Defesa, demorou muito
até encontrar força política para sua
determinação em Lei.
O
atual Comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro,
através do Major Frederico, Relações
Pública daquela Corporação, corrobora
que ‘já existe um projeto-piloto abrangente preocupado
com os problemas de habitação tanto quanto o
trato da saúde mental. Maior acompanhamento e atenção
buscando minimizar os problemas decorrentes da tensão
gerada pela profissão, e, maior atenção
com os policiais submetidos à situações
de tensão extrema. ‘a ser implantado em algumas
Unidades da Polícia Militar.
Situações
extremas de tensão os policiais vivem constantemente,
cada vez que perseguem suspeitos em carros velozes que eles
sequer podem pensar em alcançar. A cada troca de tiros
com bandidos bem fornidos de armas pesadas.
O
que vemos é que, mesmo o projeto habitacional voltado
para os praças da Polícia Militar que acabou
sendo mal sucedido, deve ter ocorrido por falta de logística.
E, qualquer outro que venha a ser proposto nos mesmos moldes,
continuará não apresentando resultados satisfatórios.
Mais do que isso, será tão perigoso quanto um
AK em mãos e tempo errados.
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do artigo
Os primeiros
Nossa
tese é de que, em um projeto-piloto, os investimentos
em conjuntos habitacionais não sejam ocupados por praças
da ativa, num primeiro momento. Ele deve voltar-se inicial
e prioritariamente para os praças e oficiais recém-saídos
das Escolas de Formação. É exatamente
para estes "novatos" que deverá estar voltado
todo e qualquer projeto-piloto na área habitacional.
Também para eles, os projetos, urgentes, voltados para
a área da saúde mental, assistência e
acompanhamento social completo. Com maior foco para a Reciclagem
Educacional. A profilaxia será menos onerosa tanto
para o Estado quanto para a sociedade.
Estes
"novatos" policiais ainda se encontram em um certo
estado de "pureza", sem o avançado grau de
desencanto e comprometimentos perniciosos.
Em
sendo os conjuntos habitacionais projetados para estes militares,
dotados de estrutura, como creche-escola, posto de saúde,
biblioteca, setor de administração etc. A unidade
habitacional sendo patrimônio do Estado, estaria sendo
apenas cedida para uso, enquanto no exercício da profissão.
Suas famílias precisariam de preparação,
de pauta de conduta, também, para este novo tipo de
convívio. Noções básicas de mediação
de conflitos poderiam ser ferramentas utilíssimas,
a serem utilizadas por um conselho administrativo local.
Estimulados
por Instituição de previdência, poderiam
investir em imóvel pessoal/familiar, dentro do mais
absoluto poder de escolha, a ser utilizado após aposentadoria.
Todavia,
se tais projetos não forem pensados para todas as Unidades
da Federação, de maneira sistêmica, não
resultará em nenhum sucesso, pois que ficará
a mercê dos governadores de cada estado, continuando
ao sabor das sucessões partidárias e políticas
paroquiais. Nossa sociedade continuará dependendo de
Polícias que sequer podem garantir amparo aos seus
contingentes. O policial desamparado, inseguro, doente vai
poder se preocupar com a segurança de quem, se não
suporta sequer a própria?
É
por aqui, senhores especialistas, políticos e autoridades
em geral, que devem começar o trabalho.
Dar
continuidade no desamparo dos policiais, que hoje é
padronizado, será continuar o trabalho de cortar lenha
para manter a fogueira.
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Para pensar:
Por
onde andavam nossos ex-governadores, que nunca pensaram em
trabalhar um projeto habitacional para afastar as polícias
do convívio com os bandidos fazendo uso de medidas
mais eficazes?
Hoje,
é pedido que os chefes do crime organizado sejam banidos
para outras paragens.
Grande,
brilhante solução! Mais uma boa idéia
dessas e o Brasil será o Paraíso Eterno.