Cidade Sem Deus
Maria da Penha Vieira
15 de Junho/2003
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Domingo, abri
um dos jornais e lá estava o susto. O meu susto. Estampada
a fotografia do Rubinho ao lado de um policial. Rubinho
tinha o lábio inferior sangrando e olhar perplexo. Minha
perplexidade era maior.
Na noite de Sexta-Feira, enquanto juntamente com um grupo
de amigos eu jantava, quase ao lado da 14ª DP, situada
no Jóquei, Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro, Rubens Sabino
da Silva, Rubinho, como todos nós o chamamos pastava atrás
das grades sem que eu fizesse a menor idéia.
Rubens Sabino da Silva, ator que fez o personagem Neguinho,
o traficante dos Apês, no filme Cidade de Deus, foi preso
por roubar a bolsa de uma senhora dentro do ônibus, na Avenida
Niemeyer, no Bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro.
Rubens afirmou ao repórter que quando praticou o delito,
estava há três dias sem dinheiro para se alimentar. Rubinho
vendeu filme e agora vende jornal. Todos ganham, menos ele.
Estou falando
do Rubens Sabino da Silva, ex-(?)menino de rua do Rio, alçado
ao vôo ligeiro de astro de cinema. Uma trajetória que a maioria
dos atores iniciantes, os pontas, passam a vida buscando o
espaço dos frames sem jamais conseguir, por falta de talento
e/ou padrinhos. Rubinho não chegou a astro, mas, conquistou a profissão
de ator, por talento sim, mas pagando o preço que ele não
estava suportando como não suportou o protagonista de "Pixote,
a lei do mais fraco" (1980), de Hector Babenco.
Incontáveis
vezes Rubinho dormiu em minha casa, por não ter outro lugar
para dormir. Aliás, ele revezava entre a rua, casa de músicos
que o conheciam e o ajudavam ou casa de pessoas desconhecidas,
como eu, que o acolhiam. Em minha casa, dormia e se alimentava,
vez por outra. Numa dessas vezes, há muito tempo, pela manhã
ele me deu uma entrevista que guardei e de onde pinço algumas
informações.
Corroborando
a fome
Após muito tempo
sumido e ainda saboreando o falso glamour da fama, depois
de Cidade de Deus, certa noite me aparece o Rubinho pedindo
comida. Embora tenha achado o fato muito estranho, dei-lhe
comida. O fato repetiu-se uma segunda vez. Não ofereci pernoite
nas duas vezes. Na última vez, ele ficou do lado de fora e
eu dentro de casa, nos falávamos por cima do muro. Ele me
perguntou se eu havia visto Cidade de Deus e o que eu havia
achado do trabalho dele. Menti-lhe dizendo que havia visto
o filme e que ele estava ótimo. Meia verdade, embora ela não
exista. Como ator eu tinha certeza de que ele estava realmente
ótimo porque já conhecida o desempenho dele. Menti a cerca
do filme que afirmei ter visto e não vi. Menti para não decepcioná-lo.
Ele tinha certeza de que eu o havia visto por causa dele.
Fiquei com vergonha do Rubens e menti. Roubei a bolsa dele.
Minha estranheza
quanto ao fato de o Rubinho vir pedir um prato de comida não
é difícil imaginar. Com certeza ele deveria ter assinado um
contrato para fazer o filme e deveria ter tido remuneração
adequada. Ou seja, um filme com tanto patrocínio e bilheteria
invejável não poderia ter pago tão pouco a ponto de alguns
meses depois o ator estar mendigando comida pelas ruas. Mas
agora vejo que foi o que aconteceu. Como não fui vê-lo na
Polinter, não sei se ele teve remuneração obedecendo ao contrato
firmado com a produtora do filme. Jeffxander, Xandão, conhecido
no mundo repeiro do Rio e que também trabalhou no filme, como
um dos personagens que formavam o Trio Ternura, logo no início
do filme, corrobora o dito por Rubens: “não recebemos quase
nada de dinheiro”.
Sem lona ou
alcatifa
Urge que alguma
coisa, qualquer coisa seja feita na direção de proteger esses
pequenos miseráveis da bondade cultural. As ONGs que trabalham
com jovens e crianças, principalmente jovens e crianças de
rua, precisam urgentemente repensar tudo.
A mão de obra
barata e fácil propicia a exploração desses jovens artistas
oferecendo oportunidades equivocadas ou enganosas através
da arte. Propicia equívocos nessas cabecinhas despreparadas
para o que seja a realização do sonho, para oportunidades
messiânicas. A maioria desses jovens e crianças, que como
o Rubens, vêm da rua, funciona diferentemente da nossa cabeça.
Seus valores só são compreendidos entre eles. São verdadeiros
códigos que desafiam as mentes arrogantes dos meios “intelectuais”
“preocupados” como os problemas sociais. Meninos de rua são
fáceis clichês que garantem mídia, servem como marketing para
os espertos e iscas para os patrocinadores. Nesse novo mundo
no qual esse jovens fisgados estão sendo inseridos, eles podem
ser comparados a ovelhas indo para o abate ou terão que aprender
novas modalidades de crime e de perversidade que viverão na
Canaã das ilusões. Será que depois do caso “Pixote” não deu
para entender ? .
Essas crianças
que vêm da rua são espelhos partidos em milhares de pedaços.
São identidades em estilhaços. São manipuláveis através do
discurso bonito e das esperanças, presas fáceis nas mãos de
hábeis de descolados “humanitaristas” e mesmo daqueles que
realmente pensam estar ajudando e desejam, verdadeiramente.
Os primeiros, mostram a lâmpada e retiram o interruptor. Nos
casos das ONGs, falta um trabalho inicial cuidadoso e continuado
de profissionais da área da psicanálise e psicólogos. Primeiro
é preciso recuperar a identidade de cada um desses jovens.
Juntar os cacos e recompor o espelho ao mesmo tempo em que
se cria possibilidades de desenvolvimento das habilidades
desses indivíduos.
Sem a recomposição
da identidade, que será o lastro, o chão no qual esses jovens
estarão apoiados, para nada adianta oferecer “oportunidades”.
É o mesmo que oferecer uma escada deixá-los subir e depois
retirar a escada com o agravante de que em baixo, não haverá
nada para amortecer a queda. Este recurso é usado no cinema
para que os atores astros e estrelas não se machuquem.
Longe de mim
generalizar, mas enquanto se ficar brincando de “educar” através
da arte e outras pantomimas, sem a responsabilidade de considerar
que é necessário preparar, antes, o estofo interno que irá
aparar a queda como esses jovens irão reagir à retirada do
tapete vermelho? Ou a demora em ver seus esforços recompensados?
O “bobear” tem retorno imediato ao contrário do trabalho.
As pessoas que lidam com esses projetos têm a responsabilidade
de dizer para esses jovens que a sobrevivência dos socialmente
“bem-aventurados” é tão difícil quanto a deles.
Rubens Sabino
da Silva, Rubinho
Muito criancinha,
quatro ou cinco anos de idade, no meio da noite, era obrigado
a abandonar a “cama” onde dormia para participar de sessões
de um centro de umbanda, nos fundos do qual morava com sua
mãe e irmãos. Ele conta que o barulho dos atabaques e as noites
insones o deixavam perturbado. Ao falar, a expressão séria
do rosto de Rubens e o olhar para ao chão, era a responsável
pela exposição da lembrança da vida que revivia a cada palavra.
As sucessivas
fugas de casa, desde os sete anos de idade, e os espancamentos
no retorno. Voltava sempre pelas mãos dos juizados de menores.
Às vezes, de carona ou mesmo de ônibus acabava indo parar
em cidades mais distantes, no interior do Estado do Rio. No
final dessas fugas, quando era pego pela polícia local o parente
mais próximo a ser chamado era a irmã mais velha, com quem
morou algum tempo.
Rubens por anos
viveu ao relento, atrás da Central do Brasil.
“eu
vivia vendendo doces nos sinais de trânsito e pelas ruas.
Mas os doces não eram meus e eu só ganhava um troco. Fui
juntando dinheiro até que deu pra eu comprar minha caixa
no atacado. Eu me lembro da minha primeira caixa de doces,
só minha pra eu vender e ficar com todo o dinheiro só pra
mim”. Os olhos de
Rubinho sorriram em apenas dois momentos da nossa conversa
em frente ao computador, e este foi o primeiro.
Entendi a importância de ele ter
a sua primeira caixa de doces. Significava que ele tinha poder
e respeito, o poder máximo entre o pessoal de rua, entre o
pessoal que vende nos sinais. Ser patrão de si mesmo e ainda
ter seus vendedores. Não depender de ninguém. Não ser bucha
de ninguém. Seu esforço, enfim, fora premiado.
Há uma ligação
direta por associação nesta experiência de
vida de Rubinho com as queixas que têm sido comuns quanto
ao fato da “inquietação” que ele apresenta. Tanto que, o
desejo de ser independente se projeta no fato de que ele
estava tentando filmar a própria biografia. Seu próprio
filme, sua caixa de doces. Atrevendo-se a sonhar com sua
própria máquina de fazer filmes.
O segundo sorriso com olhos brilhando
foi quando eu falei no nome de uma freira. Uma religiosa que
cuidava deles na Catedral. Para os braços de quem ele e outros
meninos de rua, corriam para se proteger da polícia ou de
marginais. Tive a oportunidade de juntamente com um grupo
organizado pela escritora Anna Guasquez, ouvir uma palestra
da Irmã. Em linguagem clara, límpida, ela falou sobre os valores
que norteavam aquelas crianças. Pelos padrões morais deles,
eles não roubavam, eles eram espertos e bobeavam. Tem força
e poder, é respeitado, aquele que consegue “bobear” mais.
Na época, “bobear” era aproveitar-se de quem estava distraído
e “tomar” algum pertence. O mais esperto sabia fazer melhor.
Era mais ágil, tinha lucros maiores e não vacilava. Ser pego
pela polícia era ser vacilão, não era esperto, por conseguinte
não tinha prestígio.
Rubens passou pela Fundação São Martinho,
e onde, segundo ele, teve assistência de um psicólogo de quem
ele não gostou. Tendo em vista que eu não teria condições
financeiras para custear um profissional de psicoterapia,
não aprofundei a conversa sobre o assunto, mas tenho certeza
de que tendo compreensão dos benefícios ele faria outra tentativa.
O perigo seria não apresentar um profissional muito bem qualificado.
Quando perguntei a ele sobre como
era a convivência no grupo de rua ele me respondeu “sempre
gostei de andar e fazer minhas coisas sozinho, nunca tive
grupo”. Um detalhe curioso, mas que contribui para compreender
a importância da independência que o do ator Rubens Sabino
da Silva preserva. Não fosse isso, ele teria sido muito mais
influenciado pelo ambiente no qual sempre viveu.
Vacilo na parada
foi o que disse Rubinho ao jornalista
neste domingo, 15 de Junho. Em conhecendo Rubinho, sei que
ele poderia ter feito assalto armado e não um roubo comum,
corriqueiro de pivete — num processo de regressão. Não o fez,
porque não tem índole assassina nem é bandido. Rubens tem
19, já fez vários trabalhos como ator e músico, viveu toda
vida entre atores do crime na vida real. Com certeza, a cabeça
dele já se via como um ex-miserável. Sentindo vergonha de
ir pedir dinheiro nos sinais de trânsito ou catar os conhecidos
e amigos, preferiu (?) arriscar o tanto já conquistado. Para
os que conhecem o Rubinho, depois de tanto esforço, ele não
está entendendo o que aconteceu. A alegação de estar passando
fome nunca poderia ser motivo para roubar. Tem coisa mais
grave e invisível que é o estado psicológico no qual se encontra
o jovem ator. Até porque ele, como já escrevi, por duas vezes
nestes dois últimos meses veio até minha casa pedir comida.
Mas não é difícil entender que por
tantas vezes, mais uma, ele continua sendo vítima dos discursos
oportunistas até na hora de sair no jornal, em momento de
desgraça. Quando do lançamento do filme, não houve quem se
lembrasse de falar sobre a atuação de Rubens no filme Cidade
de Deus ou nas atuações anteriores. Não houve destaque. O
destaque só na desgraça e com direito à assinatura de projeção.
Agora, Rubinho virou astro do crime
na imprensa nacional e internacional. Esperemos que nem a
polícia nem a imprensa o mate.
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