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Relacionamento pais e filhos

Antonio Carlos Alves de Araujo *
Psicólogo - C.R.P: 31341/5

31, Maio/2001


                   "Uma família infeliz é aquela que permite que outros elementos preencham espaços no lugar do prazer da troca entre seus membros" .

                    O objetivo é apontar elementos para a reflexão e análise do cotidiano psíquico entre pais e filhos e sua repercussão familiar e social.


                    Infelizmente a maioria dos pais se preocupa com extrema demasia apenas no futuro material e profissional de seus filhos, sendo que durante décadas há um grande esforço econômico para se atingir tal finalidade. Embora isso seja necessário, pouquíssimos pais se preocupam com outros tipos de herança, como por exemplo, o aspecto pessoal e afetivo de seus filhos. Embora isso seja um fato óbvio, o impacto social desse tipo de educação é desastroso para a coletividade.


Qual o tipo de treinamento afetivo e social que se passa para um filho?


Qual o grau de inibição, timidez ou fuga social do mesmo? Qual a extensão de seus medos interiores e disponibilidade para trocar afeto com outras pessoas? Lamentavelmente boa parte dos pais é absolutamente omissa para lidar com tais questões, o que agrava o problema, ou então usa de dissimulação e disfarce para encobrir tais fatos.


Um dos maiores erros que observamos na relação pais e filhos se dá no tocante ao aspecto material. Aquele pai ou mãe que não possui muito tempo para seu filho, acaba compensando através de presentes ou recompensas materiais. Assistimos isso diariamente. Porém, o fato é muito mais profundo, pois nunca se trata de uma questão quantitativa, mas sim qualitativa. Uma criança não dimensionará sua relação com os pais
apenas em termos de tempo, mas também o modo como se desenrola essa relação e os sentimentos de ternura e segurança oriundos da mesma.

Assim sendo, a compensação material por parte dos pais, nada mais é do que um embuste, para que os mesmos escondam sua própria dificuldade de passar afeto, sua falta suprema de treino amoroso.

Quem lida com psicoterapia infantil, sabe que uma neurose se estabelece numa criança quando a mesma tem receio ou vergonha de compartilhar o plano afetivo com os pais, não importando necessariamente o tempo que passa com os mesmos.

Em algum momento de sua vida, essa criança já sonhou com as coisas acontecendo de modo diferente, contudo anos de insensibilidade para esse fato acima citado, acabam por criar uma nova geração muitas vezes mais rebelde e insensível ao aspecto da pessoalidade humana. Que se manifestem aqueles pais que assistem diariamente seus filhos entregarem suas almas ao computador ou ao videogame.


Temos que fazer uma ressalva ao aspecto exploratório de uma criança, que percebendo a culpa ou dificuldade dos pais em determinado setor das relações acaba por se utilizar da manipulação e chantagem emotiva para obter mais mimos ou regalias.


Pais saudáveis são aqueles que buscam ou possuem um local de reflexão e aprendizagem, nunca encarando a educação de seus filhos como algo estanque, mas, sobretudo com um dinamismo que requer trabalho, coragem e amor para se lidar com tão complicada tarefa.


Muitos pais falam do desejo de que seus filhos não passem pelas mesmas privações que sofreram outrora. O que muitas vezes os mesmos não percebem é que tal pensamento é reducionista, pois a superação de qualquer etapa dolorosa, requer que o próprio pai tenha trabalhado e parcialmente superado seus conflitos emocionais, se evitando a projeção dos mesmos em algo meramente econômico, com a intenção de fuga acima descrita.

É fundamental que todos estejam pelo menos parcialmente aptos para enxergarem determinadas verdades por mais dolorosas que sejam, como por exemplo, o desejo de muitos pais de terem não filhos em si, mas clones melhorados de si próprios, cobrando muitas vezes coisas que jamais conseguiram ou deveriam cobrar.


Há a necessidade da reflexão e equilíbrio constante de forças antagônicas para o desenvolvimento pleno de uma criança, como por exemplo: independência e importância do contato humano; individualidade e espírito coletivo; auto estima e admiração que leva ao amor por outras pessoas.


Qualquer processo educativo que valorize principalmente o poder, status e sucesso, criará filhos que carregarão imensa soma de ansiedade e insegurança, sendo que priorizarão apenas o aspecto material, tratando os pais como instituições financeiras que lhes comprarão objetos da admiração e inveja de seus colegas, tentando compensar sua frustração secreta de não poderem ser autênticos no círculo familiar.

Os pais deveriam ter em mente o preço que todos arcarão quando o aspecto afetivo não for à prioridade. O treino, vivência e realidade afetiva que não obtermos no círculo familiar, custará enorme soma de energia e tempo para podermos reconstruí-los em outras esferas, isso se a pessoa estiver motivada e disposta.


Se levantarmos uma hipótese social acerca das relações pais e filhos nos dias atuais, encontraremos uma característica peculiar que vem desafiando psicoterapeutas das mais diversas linhas de pensamento. A criança revive e extrapola ao máximo determinado conflito ou neurose que está diretamente associado a algum distúrbio pretérito dos pais que não foi resolvido, como assinalei anteriormente, numa tentativa inconsciente de alertar e equilibrar uma psique familiar descompensada.

O problema se torna gravíssimo quando a criança além de atuar como o sinalizador acima descrito, exacerba o conflito de tal forma, que sua vida pessoal se torna absolutamente bloqueada, afetando a área emocional e cognitiva.


Problemas escolares, retraimento, agressividade e até mesmo o desejo de não crescer expresso no urinar na cama passam a ser a tônica, sendo que não faltam desculpas e artimanhas por parte da criança a fim de justificar a comunicação sinalizada ( anti-social ).


Usando um pouco termos técnicos, a própria questão do complexo de Édipo (forte carga de atração da criança em relação ao genitor do sexo oposto) fica fragmentada, pois se a teoria anteriormente citada dizia que a criança tem o desejo de afastar o pai para estar mais próxima da mãe, não é o que verificamos no trabalho dinâmico familiar. Pelo contrário, são diversos os casos de distúrbios infantis originados após a separação, e quando isso ocorre, entra a questão citada anteriormente da criança como sinalizadora de problemas paternos, aliado ao fato dela não aceitar a separação, por achar que quando um dos dois se for, perderá mais regalias ou vantagens, reproduzindo psiquicamente a partilha que se dá no contexto financeiro quando um casal se separa.

Concluímos que a maioria do processo psíquica infelizmente é influenciada desde a tenra infância por fatores de status, posse e poder, e todos os pais que almejam um futuro de estabilidade emocional para seus filhos, deveram refletir profundamente sobre tão sérios problemas.

Antonio Carlos Alves de Araújo - Psicólogo

C.R.P. 31341/5

Endereço: Rua Engenheiro Andrade Júnior, 156 - Tatuapé - São Paulo/SP
EMAIL: antoniopsico1@hotmail.com

 

 

 

 

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