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Dislexia
, mesmo ao longo desses cem anos de pesquisas, aproximadamente,
tem sido deixada à margem das salas de aula. Crianças
sadias têm sido alvo constante. Falhos processos de avaliação,
erros de interpretação, conceitos mal formados ou
pré-concebidos a respeito dessa dificuldade, induzem fatalmente
a um falso diagnóstico, ou seja, suas dificuldades escolares
são simplesmente um indício de baixa capacidade intelectual.
Muitos
disléxicos,
em determinadas atividades, conseguem obter uma performance superior
à média do seu grupo etário (na música,
desenho, pintura, eletrônica, mecânica, na engenharia,
nos esportes...)
Alguns
estudos mostram que, dentre os inúmeros conceitos existentes,
a dislexia
é uma desordem na maneira pela
qual o cérebro processa a informação...
É uma disfunção neurológica...
É enfim, uma combinação de habilidades e
dificuldades.O quadro estatístico mundial afirma que
cerca de 15% a 30% das crianças em idade escolar, apresentam
dificuldades de aprendizagem, e desse quadro 10% são disléxicas.
Atinge de quatro a cinco meninos para cada menina.
É
muito freqüente que pessoas disléxicas apresentem déficit
no domínio da ação, da motricidade, da organização
têmporo-espacial, da capacidade de globalização
no domínio do esquema corporal, na dominância lateral.
A má
estruturação do espaço nessas pessoas manifesta-se
em princípio, nas dificuldades em situar as diversas partes
do seu corpo, umas em relação às outras. As
noções de alto, baixo, em frente, atrás e,
sobretudo, direita e esquerda são confundidas, o que no domínio
da leitura, provoca confusão entre certas letras como p-q,
b-d, u-n, p-b, dentre outras. Cada letra é percebida, dependendo
do sentido de deslocamento do seu olhar (esquerda-direita e vice-versa).
O olhar das pessoas disléxicas não segue forçosamente
a direção esquerda-direita, muda de direção
várias vezes em apenas alguns segundos. Se a criança
não se situa no espaço bidimensional, é normal
que encontre dificuldades e faça confusão inclusive
na análise da direita e da esquerda do mundo exterior.
É
importante esclarecer que a maioria das crianças pode confundir
"direita e esquerda" até os sete anos, aproximadamente.
As causas
da Dislexia não são ainda tão claras,
mas os resultados são cada vez mais evidentes em nossas
bancas escolares, produzindo pesadelo àqueles, com Dificuldades
de Aprendizagem, que ultrapassam os portões para dentro da
Escola. Entretanto, não se pode chamar de "dislexia"
toda e qualquer "dificuldade"
ligada à leitura e/ou a escrita, bem como as Dificuldades
de Aprendizagem que podem ter por base problemas emocionais,
algum déficit auditivo (exame do processamento auditivo
central), um déficit visual ( teste de ortóptica
), ou uma inadaptação ao método pedagógico,
e/ou ainda possíveis falhas no processo de alfabetização,
causadas por má prática pedagógica, ou seja,
pela má formação do professor.
"É
importante saber que a dislexia ocorre independente do fator socioeconômico,
cultural ou intelectual". Mas, seus efeitos
vão além do seu corpo e de sua inteligência...
Afetam seus sentimentos, seus familiares, seus amigos, seus ideais
de vida... Desorganiza e destrói toda a sua estrutura física
e humana!
Ao sofrer
constantes discriminações, essas crianças perdem
a confiança em si própria, o que gera uma baixa auto-estima.
Talvez este seja o maior e o mais comum dos problemas emocionais,
que a criança disléxica enfrenta para desenvolver-se
satisfatoriamente, desencadeando frustrações, preconceitos
e sentimentos de incapacidade, que pode levar ainda ao surgimento
de algumas "fobias" específicas. São extremamente
carentes de afeto, compreensão e cuidados. Possuem dificuldades
para expressar os seus pensamentos e para entender também,
o pensamento do outro. Apresentam uma inabilidade em seguir seqüências,
de observação/atenção para detalhes
e, de organização interna para absorver informações
recebidas seja por meio de palestras, demonstrações,
ou mesmo a leitura de sala de aula.
Às
vezes não conseguem direcionar sua atenção
para um único tópico, distraem-se facilmente ao prestar
atenção em várias coisas ao mesmo tempo, o
que chamamos de "atenção difusa". Podem,
na maioria das vezes, apresentar um comportamento impulsivo: agem
antes de pensar, sem medir as conseqüências. Planejam
e decidem mal, com isso muitas vezes suas ações são
perigosas. Isso não quer dizer que sejam necessariamente
hiperativas, são apenas crianças "desatentas
e impulsivas". Crianças hiperativas são
sempre agitadas, não conseguem ficar sentadas, quietas. Revelam
algum movimento contínuo das pernas, dos pés, dos
braços, das mãos, dos lábios ou até
da língua. Naturalmente, certas pessoas, em certos momentos,
inclusive alguns disléxicos, apresentam essas características.
Há
também a falta de atenção causada por uma condição
da "Desordem do Déficit de Atenção"
que já é um outro problema e também afeta a
aprendizagem.
A compreensão
de tais problemas nos obriga a direcionar e reestruturar a Escola
trabalhando mais seu espaço, afim de melhor atender a todos,
indistintamente, que apresentem dificuldades em sua aprendizagem.
"O medo de falhar", muitas vezes, pode deixá-las tímida
e fazê-la retroceder para evitar situações ameaçadoras.
Podem também se tornar, exatamente ao contrário, "atrevidas/ousadas",
na tentativa de esconder dos outros suas verdadeiras dificuldades
acadêmicas dentro das salas de aula.
Às
vezes por serem conduzidas a situações embaraçosas
e conflitantes podem tornar-se agressivas, furiosas e/ou resistentes.
Podem também ser consideradas preguiçosas, desmotivadas...Ou
motivadas, dependendo apenas da forma com que as pessoas
trabalhem ou se relacionem com elas. Todos estes comportamentos
são "normais" tentativas de "ocultar"
as suas dificuldades e disfarçar sua baixa auto-estima.
Diante dessas evidências, devemos ficar alerta aos primeiros
sinais, tanto em casa quanto na escola. Faço aqui alguns
questionamentos:
- Em quais momento as
"dificuldades de aprendizagem" se transformam em Transtornos
p/ o Disléxico?
"Observando
que torna-se um transtorno tudo aquilo que traz a alguém
uma má qualidade de vida, ou que impeça seu desenvolvimento
emocional, afetivo e social;enfim, tudo que traz desordem ao meio
social."
-
E onde começa todo esse problema?
Gostaria
de esclarecer antes de tudo, que Dislexia não
é doença, é uma condição natural
de vida, pessoas nascem disléxicas, e como condição,
deve ter seu espaço respeitado e reconhecido no nosso atual
Sistema Educacional. Segundo algumas pesquisas existe uma carga
genética que explica o "ser disléxico",
há uma incidência maior em certas famílias.
Quanto
às questões eu, particularmente, diria que os problemas
se acentuam, através da Má Formação
dos profissionais nas universidades, e culminam com a Má
Informação dos pais e dos educadores nas instituições
educacionais de um modo geral. Os pais e os educadores, por desconhecerem
as causas da falta de "motivação", do "desinteresse"
e da "falta da compreensão nas diversas leituras"
do aluno, da sua "lentidão", perdem a paciência
e fazem um julgamento incorreto e precipitado a respeito dessa situação.
Os Pais passam a condenar a escola cobrando respostas e resultados
imediatos, e a Escola, por sua vez, acusa os pais de negligência,
omissão e/ou conivência... A partir desse momento,
as discriminações e os rótulos
começam a surgir dando origem a uma seqüência
de bloqueios, que marcam e transformam em sérios transtornos
a vida desses alunos, tenham eles Dislexia ou Distúrbios
de leitura e escrita! A Escola por não estar preparada
ainda, passa a ser um lugar de acúmulo de FRUSTRAÇÕES
para eles, que temem as perguntas e os comentários desagradáveis
à sua pessoa, tanto por parte de professores e funcionários,
quanto pelos demais colegas. Isso somado a desinformação,
torna a questão ainda mais grave no Brasil.
É uma forma de
EXCLUSÃO (DES) HUMANA!
É
hora de se rever os papéis de TODOS na Educação
Brasileira. Pois, se nas escolas não encontramos profissionais
com "boa formação" para educar com
qualidade, eficiência e respeito, capazes de identificar,
compreender e trabalhar as Dificuldades de Aprendizagem dentro da
própria escola é porque alguém não está
exercendo bem seu papel, nem sua função.
O que estará
acontecendo com as nossas Instituições Formadoras?
De quem
é a "responsabilidade" de "Informar e Preparar"
de forma satisfatória, todoprofessor/educador para as dificuldades
existentes na aprendizagem? Preparar para ensinar àqueles
que já aprenderiam sem nenhum problema, já faz parte
de um programa de formação mínima.
É
claro que investimentos "unicamente", na qualificação
do professor, não resolvem, de imediato, todos os problemas
na Educação, mas por certo, minimizará o sofrimento
daqueles que são discriminados, dia após dia, em nossas
salas de aula.
Contudo,
não é justo "responsabilizar" tão
somente os "Educadores" dos diversos seguimentos de ensino,
por todos os resultados negativos, sem levar em conta, a falta das
condições básicas de trabalho e de uma maior
e melhor valorização da profissão de
EDUCADOR.
Acredito,
porém, que só uma "Grande Mudança"
na grade curricular dos Cursos de Formação,
poderá resgatar a verdadeira essência do Ser
Educador, se, e somente se, as inúmeras dificuldades
existentes no Sistema Educacional, entre elas a Dislexia...
deixarem de ser ignoradas pelo Ser Mestre... pelo
Ser HUMANO... na Educação Brasileira.
O professor,
frente aos novos desafios, deverá ser mais bem preparado
por meio de capacitações, como também ser incentivado
a pesquisar, para que na prática possam enfrentar as possíveis
situações-problema, com competência necessária
para reconhecer as prováveis Dificuldades de Aprendizagem,
desenvolvidas dentro e/ou fora da escola, para que dessa forma,
possam ajudar tanto aos aprendentes, em suas necessidades escolares,
quanto aos seus familiares, garantindo-lhes o direito a informação
e ao apoio, indispensáveis ao bom desenvolvimento das relações
familiares, assim como a orientação e o encaminhamento
aos locais com atendimento especializado, quando necessário.
Durante
todo esse processo... Aprendi que... "mais do que avaliar provas
e dar notas, é preciso ouvir os apelos silenciosos que ecoam
na alma do educando...".
É preciso saber
interpretar gestos e olhares!
Deixo
aqui, meu pedido de desculpas a todos, que de alguma forma, não
foram "compreendidos e/ou aceitos" no nosso sistema educacional,
e abandonaram as salas de aula, levando consigo a frustração
de sua única
condição:
"SER HUMANO
que aprende diferente!".
Fátima
Magnata
mfmag@terra.com.br
Profª.da Rede pública/PE.
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