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Tolices
e anacronismos
Por Patrícia Carlos de Andrade (
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07, Dezembro/2006
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Ninguém está livre de se olhar no espelho
e achar que a imagem está bonita e elegante, quando na verdade,
de acordo com os padrões reinantes, está um desastre. Escolhemos
uma roupa esportiva para uma ocasião e, quando chegamos no
local, descobrimos que ela está mesmo é esculhambada. Mesmo
quem diz não ter qualquer vaidade, se olha no espelho e se
agrada do que vê, acha que está, pelo menos, correto, mas
pode ser que não esteja. Da mesma maneira, por mais inteligente
e vaidoso de sua própria inteligência, ninguém está livre
de seguir um raciocínio brilhante, construir uma obra intelectual
de respeito, e não perceber que as premissas estavam erradas
ou que a realidade nega o resultado do raciocínio.
Falando em vaidades físicas e intelectuais,
das quais também poucos podem se dizer livres, me vem à mente
a agradável e sedutora figura de Fernando Henrique Cardoso.
Eu o admiro, mesmo não compactuando de seus ideais. Ele foi,
inegavelmente, um dos melhores e mais bem preparados presidentes
que o Brasil já teve e, sob seu comando, num governo democrático,
é inegável também que o país progrediu. A era FHC, entre outros
avanços, fortaleceu instituições com efeitos de longo prazo,
que a história ainda vai mostrar. FHC, como mostram a matéria
e a entrevista da última "Veja" sobre seu esperado livro —
"A arte da política: a história que vivi" — é e se considera
de esquerda, uma esquerda moderna, que, segundo ele, não é
tola, nem fiel a anacronismos.
Por que ele é de esquerda? Ele responde:
porque defende valores como a justiça social e a igualdade.
E porque se irrita com um problema do capitalismo que é a
desigualdade. E afirma: "É da natureza do capitalismo."
Tudo na matéria e na entrevista, e acredito
que no livro, é muito interessante: mostra mesmo a força e
a honestidade intelectual de FHC. E é por isso que sua explicação
de porque é da esquerda democrática soa tola e anacrônica
— equivocada, mesmo.
Primeiro: onde exatamente o Estado, tomando
a si funções crescentes e, em nome delas, custando parcela
cada vez maior do produto da nação, promoveu justiça social
e igualdade? Ou será que estamos falando de justiça social
e igualdade na pobreza? Onde estão os exemplos concretos de
crescimento, igualdade e justiça social providos por um Estado
com papel central na sociedade? Além disso, o que é esse negócio
de justiça social? O que seria a justiça não social? E por
que igualdade seria justiça? De fato, não é. Se eu trabalhar
o dia inteiro, de sol a sol, e der metade de meu salário para
pagar o seguro desemprego de meu vizinho, que assim receberá
do Estado o mesmo que eu, isso é justo?
Afirmar que o capitalismo gera desigualdade,
algo que está em sua essência, é o mesmo que afirmar que todos
os homens são absolutamente iguais em todas as suas características,
e quando introduzimos este sistema chamado de capitalismo,
as diferenças começam a surgir. E é claro que isso nunca foi
e nunca será verdadeiro e a História já mostrou que todas
as formas de tentar enquadrar os seres humanos em modelos
de igualdade impuseram grande sofrimento aos povos. Mas não
é só isso: há na afirmação de FHC a certeza de que o Estado
é quem corrige essa irritante natureza do capitalismo de gerar
desigualdade.
Ele, supostamente, retira renda dos ricos,
na forma de impostos, e a distribui para os pobres na forma
dos mais diferentes serviços e também na forma de dinheiro,
como nos programas assistencialistas. Depois de tantos anos
fazendo isso, com o Estado chegando a tirar quase metade da
renda dos brasileiros para gerar igualdade e justiça social,
inclusive por oito anos sob o comando de FHC, era para o Brasil
ser um dos países mais igualitários e socialmente justos do
mundo. Mas não precisa ser muito inteligente para ver que
não foi isso que aconteceu. O Estado brasileiro cresce sem
parar, tirando impostos que pesam muito mais no orçamento
das classes mais baixas, para criar classes privilegiadas
de funcionários públicos bem remunerados, com todos os direitos
e sem muitos deveres, de aposentados com ricas pensões, de
empresários que recorrem ao BNDES, de alunos ricos de universidades
públicas.
Digamos que há dois países, cada um com
duas pessoas. No primeiro, um morador é pobre, não trabalha,
vive de esmolas — das pessoas e do governo — e o outro trabalha
e tem um padrão de vida médio. No outro, os dois trabalham,
um tem padrão de vida médio e o outro é bem mais rico. A desigualdade
pode ser maior no segundo, mas onde é que as pessoas vivem
melhor e a vida é mais justa? O problema a ser atacado, então,
não é a desigualdade e, sim, a pobreza. E uma última pergunta:
quem distribui mais renda — um capitalista que pega seu próprio
dinheiro, que poderia estar rendendo juros sem risco em qualquer
lugar do mundo, e investe numa empresa, contratando chefes
de família de várias classes sociais ou um novo departamento
num ministério que, usando parte dos impostos retirados da
sociedade, contrata funcionários e mais funcionários com direito
e poder de usar verbas e mais verbas vindas de impostos tirados
da sociedade?
Patrícia
Carlos de Andrade é economista e Diretora Executiva do
Instituto Millenium.
http://institutomillenium.org
Arigo originalmente publicado em O Globo, Segunda-feira, 27
de março de 2006.
Sobe
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