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Normal para a night


Maria Luiza Curti*
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
Fale com Luiza Curti
02, Janeiro/2003


“Normal para a night”. É assim que uma adolescente, entrevistada pela revista Época”, define sua bebedeira e de suas amigas quando saem para se divertir.

Os dados que uma pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Educação (UNESCO) realizou aqui no Brasil com 50 mil estudantes do ensino fundamental e médio, são alarmantes e ainda mais, a forma como a sociedade brasileira prefere encarar, ou, por não encarar esse assunto.

Iniciar a beber entre 10 e 12 anos, significa que nossas crianças estão começando a se embebedarem na fase de crescimento, de desenvolvimento físico e mental e isso é terrível pelas conseqüências orgânicas e psicológicas que, certamente, sobrevirão.

Se os responsáveis por essa situação, família e governo, não se movimentarem para mudar essa realidade, a sociedade logo constatará crianças, mal saídas do Édipo, com 4, 5 anos de idade, se embebedando. Os que tentam tapar o sol com a peneira, certamente dirão: “Que exagero!”.

Não há nisso exagero algum. O escritor, Rui Guerra, que no passado bebeu por mais de 20 anos, já detectou a desumanidade das indústrias para atrair consumidores, entre eles crianças: “Você vê os comerciais, são cheios de tartaruguinhas dançando, bichinhos e tudo o mais, isso é criminoso”, disse ele à Época. Realmente, certos comerciais de bebidas se dirigem a um público cada vez mais jovem e só nossas autoridades não percebem.

Um aspecto, também, notável na propaganda é a associação bebida-prazer/bem-estar, induzindo jovens (homens e mulheres) a beberem como se ingerissem uma “poção mágica” que os transformassem em corpos esculturais, felizes e sensuais sem o inconveniente de comportamentos anti-sociais nem ressaca no dia seguinte.

Por isso, há a indagação, por que as pessoas estão se iniciando nessa droga legal – a bebida – cada vez mais cedo?

Não há “uma” causa. Há um excesso de oferta de bebidas e uma infinidade de motivações que ocasionam esse infeliz encontro entre oferta e procura abrindo a porta para a entrada de outras drogas.

Os pré-adolescentes, que hoje em dia estão enveredando pela bebida, seja menino ou menina, têm “n” motivos que os levam ao vício. Alguns deles são: a pressão a que seus pais são submetidos, pela vida moderna e, conseqüentemente, submetendo seus filhos, precocemente, à necessidade (e pressão) da competição; testemunhar desde a mais tenra idade, as freqüentes festinhas e reuniões, em que seu pai ou sua mãe, ou os dois, excedem na bebida, passando para eles, como uma situação de “normalidade” esse embebedamento nas reuniões; há também o sentimento de “não pertencer” ao grupo de amigos, esse é um sentimento egocêntrico que o álcool alivia, momentaneamente, a vontade de se sentir inserido e não rejeitado pelo grupo; há, também, a timidez de não conseguir conquistar os “gatinhos” ou as “gatinhas”, entre outros sentimentos de insegurança...

O alcoólico, no futuro poderá ter: um enfraquecimento progressivo que pode atrofiar o coração, hipertensão, risco de contrair pneumonia e tuberculose, acumulação de gordura no fígado e inchaço (uma única bebedeira pode causar uma hepatite aguda e à morte por necrose das células), a repetição dos porres pode resultar na fatal cirrose, hemorragias causadas por varizes no esôfago, rasgar a ligação do esôfago com o estômago que pode ser fatal, gastrite aguda e câncer no estômago, pancreatite crônica com a destruição do órgão pelos próprios sucos digestivos, diabetes, atrofia dos músculos, hemorragias e anemias por alterações nos leucócitos e plaquetas, risco de derrames no cérebro. Mentalmente, o álcool pode causar demências, semelhantes ao mal de Alzheimer, que acarreta perda de memória, diminuição progressiva da concentração motora, alterações de humor e é crônica e incurável, entre outros males...

É o caso de perguntar, porque, a exemplo dos cigarros, o governo não obriga, em cada garrafa ou lata ou seja lá em que recipiente for, imprimir na embalagem das bebidas com qualquer teor de álcool, os males, que, comprovadamente, podem advir com o uso do mesmo?

O alcoolismo é uma doença reconhecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde), mas, o que fazem a família e a sociedade? Preferem, hipocritamente, atribuir a um desvio de caráter ou a uma falha moral do portador da doença, pois, assim, se eximem de qualquer responsabilidade pelo alcoolismo crônico e por suas conseqüências: desastres de automóvel, afogamentos, suicídios, homicídios, fogo, tromboses, pneumonias, etc...

A pessoa pode se encapsular na negação, ignorar a própria condição, não aceitar tratamento e morrer em decorrência do alcoolismo. Ou ao contrário, aceitar o diagnóstico pelo seu médico, pelos amigos ou por si próprio e manter a doença sob controle pois ela é incurável (como diz o A.A.A., incentivando a abstenção – só por hoje!)...

Quanto a essas meninas e meninos, que acham que precisam do álcool para estarem “normais para a nigtht” e, só então curtir, ampliar o círculo de relacionamentos e sentirem-se desinibidos: esse pode ser um momento fugaz em que vocês se julgam o máximo, mas pode ser, também, o caminho mais curto para uma longa existência sofrida ou a morte.

É necessário, também que esse dueto fatal: família omissa e governo negligente, saia da inércia e aja rápido diante desse quadro tenebroso, que é um contingente de 17,4 milhões (UNESCO) de crianças e jovens brasileiros se embebedando.

Chocados? Não é hipocrisia – é real!.

 

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