“Normal para a night”. É assim que
uma adolescente, entrevistada pela revista Época”, define
sua bebedeira e de suas amigas quando saem para se divertir.
Os dados que uma pesquisa da Organização
das Nações Unidas para a Educação (UNESCO) realizou aqui no
Brasil com 50 mil estudantes do ensino fundamental e médio,
são alarmantes e ainda mais, a forma como a sociedade brasileira
prefere encarar, ou, por não encarar esse assunto.
Iniciar a beber entre 10 e 12 anos,
significa que nossas crianças estão começando a se embebedarem
na fase de crescimento, de desenvolvimento físico e mental
e isso é terrível pelas conseqüências orgânicas e psicológicas
que, certamente, sobrevirão.
Se os responsáveis por essa situação,
família e governo, não se movimentarem para mudar essa realidade,
a sociedade logo constatará crianças, mal saídas do Édipo,
com 4, 5 anos de idade, se embebedando. Os que tentam tapar
o sol com a peneira, certamente dirão: “Que exagero!”.
Não há nisso exagero algum. O escritor,
Rui Guerra, que no passado bebeu por mais de 20 anos, já detectou
a desumanidade das indústrias para atrair consumidores, entre
eles crianças: “Você vê os comerciais, são cheios de tartaruguinhas
dançando, bichinhos e tudo o mais, isso é criminoso”, disse
ele à Época. Realmente, certos comerciais de bebidas se dirigem
a um público cada vez mais jovem e só nossas autoridades não
percebem.
Um aspecto, também, notável na propaganda
é a associação bebida-prazer/bem-estar, induzindo jovens (homens
e mulheres) a beberem como se ingerissem uma “poção mágica”
que os transformassem em corpos esculturais, felizes e sensuais
sem o inconveniente de comportamentos anti-sociais nem ressaca
no dia seguinte.
Por isso, há a indagação, por que as
pessoas estão se iniciando nessa droga legal – a bebida –
cada vez mais cedo?
Não há “uma” causa. Há um excesso de
oferta de bebidas e uma infinidade de motivações que ocasionam
esse infeliz encontro entre oferta e procura abrindo a porta
para a entrada de outras drogas.
Os pré-adolescentes, que hoje em dia
estão enveredando pela bebida, seja menino ou menina, têm
“n” motivos que os levam ao vício. Alguns deles são: a pressão
a que seus pais são submetidos, pela vida moderna e, conseqüentemente,
submetendo seus filhos, precocemente, à necessidade (e pressão)
da competição; testemunhar desde a mais tenra idade, as freqüentes
festinhas e reuniões, em que seu pai ou sua mãe, ou os dois,
excedem na bebida, passando para eles, como uma situação de
“normalidade” esse embebedamento nas reuniões; há também o
sentimento de “não pertencer” ao grupo de amigos, esse é um
sentimento egocêntrico que o álcool alivia, momentaneamente,
a vontade de se sentir inserido e não rejeitado pelo grupo;
há, também, a timidez de não conseguir conquistar os “gatinhos”
ou as “gatinhas”, entre outros sentimentos de insegurança...
O alcoólico, no futuro poderá ter:
um enfraquecimento progressivo que pode atrofiar o coração,
hipertensão, risco de contrair pneumonia e tuberculose, acumulação
de gordura no fígado e inchaço (uma única bebedeira pode causar
uma hepatite aguda e à morte por necrose das células), a repetição
dos porres pode resultar na fatal cirrose, hemorragias causadas
por varizes no esôfago, rasgar a ligação do esôfago com o
estômago que pode ser fatal, gastrite aguda e câncer no estômago,
pancreatite crônica com a destruição do órgão pelos próprios
sucos digestivos, diabetes, atrofia dos músculos, hemorragias
e anemias por alterações nos leucócitos e plaquetas, risco
de derrames no cérebro. Mentalmente, o álcool pode causar
demências, semelhantes ao mal de Alzheimer, que acarreta perda
de memória, diminuição progressiva da concentração motora,
alterações de humor e é crônica e incurável, entre outros
males...
É o caso de perguntar, porque, a exemplo
dos cigarros, o governo não obriga, em cada garrafa ou lata
ou seja lá em que recipiente for, imprimir na embalagem das
bebidas com qualquer teor de álcool, os males, que, comprovadamente,
podem advir com o uso do mesmo?
O alcoolismo é uma doença reconhecida
pela OMS (Organização Mundial de Saúde), mas, o que fazem
a família e a sociedade? Preferem, hipocritamente, atribuir
a um desvio de caráter ou a uma falha moral do portador da
doença, pois, assim, se eximem de qualquer responsabilidade
pelo alcoolismo crônico e por suas conseqüências: desastres
de automóvel, afogamentos, suicídios, homicídios, fogo, tromboses,
pneumonias, etc...
A pessoa pode se encapsular na negação,
ignorar a própria condição, não aceitar tratamento e morrer
em decorrência do alcoolismo. Ou ao contrário, aceitar o diagnóstico
pelo seu médico, pelos amigos ou por si próprio e manter a
doença sob controle pois ela é incurável (como diz o A.A.A.,
incentivando a abstenção – só por hoje!)...
Quanto a essas meninas e meninos, que
acham que precisam do álcool para estarem “normais para a
nigtht” e, só então curtir, ampliar o círculo de relacionamentos
e sentirem-se desinibidos: esse pode ser um momento fugaz
em que vocês se julgam o máximo, mas pode ser, também, o caminho
mais curto para uma longa existência sofrida ou a morte.
É necessário, também que esse dueto
fatal: família omissa e governo negligente, saia da inércia
e aja rápido diante desse quadro tenebroso, que é um contingente
de 17,4 milhões (UNESCO) de crianças e jovens brasileiros
se embebedando.
Chocados? Não é hipocrisia – é real!.
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