A "MAMMA"
ASSASSINADA
Por Maria Luíza
Aparecida Curti
23, junho/2001
amma,
matrona, madona, todas elas se confundiam na adoração
que o filho italiano sempre dedicou à mãe. Dos europeus,
a mãe mais cultuada sempre foi a italiana. Os homens quando
escolhiam a noiva, usavam como parâmetro as virtudes maternas.
Hoje, o país
queda-se confuso e perplexo ante a onda de matricídio que
tem ocorrido. O que está havendo? A "mamma" já
não é mais aquela? Os filhos já não
são mais aqueles? A Itália que sempre teve a "mamma"
como sua espinha dorsal também já não é
mais a mesma?
Diante de um
temor até agora desconhecido, os criminologistas, sociólogos,
psiquiatras e juristas levantam hipóteses mas até
agora não chegaram a um denominador comum sobre algo que
indique as causas desse novo mal.
O jornal espanhol
El País diz que o número de assassinatos em família
aumentou 100% nos últimos 20 anos; os italianos não
estavam muito preocupados pois seus adolescentes não manifestavam
conflitos de gerações até que explodiu essa
brutal reação de violência: no dia 22 de fevereiro
passado numa tranqüila cidade do interior no Piemonte, um
casal de namorados adolescentes (16 e 17 anos), assassinaram a
facadas, a mãe e o irmão menor da menina.
Como numa sucessão
em cadeia com intervalo de poucos dias e em menos de um mês,
em diversas partes da Itália do Piemonte (noroeste) a Nápoles,
passando por Turim e terminando na Sardenha: 5 mães sofreram
tentativa de assassinato pelos próprios filhos, 3 morreram
e 2 conseguiram escapar.
Os crimes que
fizeram com que das manchetes dos jornais jorrassem sangue materno,
estão fazendo também com que especialistas arranquem
os próprios cabelos se debatendo entre fatos e hipóteses
que os deixam atarantados.
Os fatos: filhos
estão assassinando mães com requinte de crueldade
(facadas, sufocação, socos, etc...) – esses filhos
são provenientes de lares abastados – a falta aparente
de motivos familiares ou sociais que justificassem tais atos –
a ausência de culpa pelo ato praticado (Érika, a
adolescente que matou a mãe a facadas, de Milão,
onde está detida disse tranqüila: "A vida é
longa", e o que mais os assustam são as mensagens
que ela tem recebido de outros adolescentes: "Érika,
você é corajosa").
Algumas das hipóteses
levantadas: o país em poucas décadas deu um salto
econômico gigantesco e se alinhou ao pelotão de frente
da Europa; pais e mães geralmente trabalham fora abastecendo
seus filhos com roupas de marca, telefones celulares, enfim, com
toda parafernália moderna que a onda consumista pode proporcionar,
restando, portanto, um excesso de pais maravilhosos dedicados
a ganhar dinheiro e pouco tempo para se dedicarem a esses filhos?
– Há pouca qualidade na quantidade de relações?
– As separações dos casais? – A emancipação
feminina proporcionando a ela o sucesso profissional afastando-a,
portanto, do altar (lar) onde era santificada?
Tudo por enquanto
são hipóteses a serem estudadas. O que é
certo é que algo mudou no lar italiano derrubando o mito
materno colocando em risco a tradição de que este
é o país europeu onde os homens sempre ficaram mais
tempo na casa dos pais, dependentes da família e principalmente
da "mamma".
A mulher italiana
atualmente está cada vez mais distante da imagem da matrona
outrora cultuada. São mulheres modernas que cuidam da profissão
e dedicam cuidados especiais com a aparência ficando a léguas
de distância da antiga matrona gorda vestida com roupas
recatadas e que não dispensavam o avental, fazendo e servindo
a macarronada à família bem alimentada; seria também
esse um dos motivos dos atuais conflitos?
Os motivos palpáveis
aos olhos jurídicos podem parecer torpes, mas ainda não
foram analisados e avaliados os motivos psicológicos que
estão facilitando toda essa tragédia.
Maria Luiza Curti
é psicóloga e webjornalista
mlcurti@uol.com.br
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