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       Second life
       Versão linholene

 

 

          Maria da Penha Vieira
          Maio, 05/2007

'Lembra um tempo atrás, quando um publicitário, carequinha que não era publicitário e que hoje nem é tão carequinha assim pegou um empréstimo que não era empréstimo, num banco que não era banco, dando como garantia o dinheiro que iria ganhar com campanhas publicitárias que nunca seriam feitas? Lembra que, naquela época, ele inventou com alguns amigos um intricando mundo paralelo, que tinha um moeda própria, onde as pessoas podiam viver outros personagens na mais completa privacidade? Este homem foi acusado de laranja, lobista, corrupto e safado. Hoje vejo, foi um dos maiores visionários que este país já teve, um verdadeiro gênio injustiçado.'

Um fenômeno igual está ocorrendo na internet. Em menor escala por enquanto, é verdade, mas está ocorrendo. A internet tem sido uma ferramenta utilíssima para a expansão dessa "net-work" para uns, rede de prospects para outros e o mais claro, rede de conexões, da qual muitas pessoas têm se valido para ampliar o leque de contatos com intenções nem sempre decentes baseada no simples fato do gosto de conhecer gente nova, de iniciar novas amizades.

Essa rede de amizades poderia render frutos para o mundo dos negócios de alguém em caso de aproximação desinteressada. Isso seria normal, comum. Apenas uma pequena conseqüência. No entanto, para muitas pessoas como aprendizes do carequinha, a intenção de cultivar amizades inexiste. O que existe mesmo é ampliar o número de conhecidos e, de preferência, pessoas bem fornidas de situações econômicas e financeiras com vistas a formar seu catálogo de ingênuos ou de iguais. É exatamente com iguais que ele pretende somar e ampliar cada vez mais a rede que beneficia a todos formando o grande panelão.

'O sujeito simplesmente inventou o Second life brasileiro. Só me dei conta disso agora. É igualzinho. Primeiro ele montou uma gigantesca rede de relacionamento. Depois criou o avatar de publicitário, entrando como sócio em duas agências mineiras falidas para viabilizar o lobby. Transformou o dinheiro de caixa 2 em mensalão, uma moeda virtual que só circulava naquele mundinho fechado e de fachada. A cada dia que passava, um integrante convidava outro e a rede de relacionamentos tornava-se mais robusta – basta ver a quantidade de gente envolvida no escândalo que parecia ser uma coisa e na verdade era outra. Não fosse uma guerrinha entre alguns integrantes da rede, ele estaria hoje negociando com o Google.'

Esse tipo de gente, indivíduos que vivem de pequenos expedientes ( pequenos por enquanto ) aparecem em seu avatares amadoristicamente construídos somente visíveis aos que estão atentos para observar e desvendar as intenções. Transfigurados de aura de importância das quais eles precisam vestir-se para causar impacto nas figurinhas, não menos ávidas, muitas das vezes. São tipos bem interessantes, de aparências diversas, mas cujas falas eloqüentes seguem a mesma linha e o mesmo padrão da linguagem de papo-de-aranha, ou de cerca-lourenço. São pessoas simpáticas, quando não extremamente simpáticas, a princípio, bom papo, envolventes e, às vezes, muito engraçadas. Outras circunspectas, também, só a princípio.

Dificilmente você descobre, desde o início do encontro, a atividade profissional bem definidamente ou se, por exemplo, consta na página do ORKUT, atenção, pode haver camuflagem. Ora são uma coisa, ora outra, enfim, demonstram sempre que isto não é importante, o importante é fazer amizades em um mundo tão ensandecido de carências. São caras-de-pau mesmo..

Os disfarces linholene ( parece linho, mas é plastico linholene ), parece-mas-não-é, variam de acordo com o freguês que ela pretende despelar e com a especialidade do carequinha ou da carequinha. Biconas, entronas, aparente refinamento cujo verniz barato não resiste a um risquinho qualquer, mas todas ficam sempre muito bem soltas para fazer a vítima baixar a guarda. Com um certo tempo contado em minutos pode até demorar mais elas já se convidam para visitar você em sua casa. Outras vezes não se convidam, e chegam, de repente, após telefonema, soçobrando em sorrisos de "amizade dos tempos de infância" sugando o resto das informações que faltam.

Esses tempos de infância estão abarrotados no ORKUT, por exemplo, onde as vítimas dão mole em fartura de informações e os carequinhas, de contra-informações. Depoimentos saudosos daquele tempo "da nossa infância", ou um período de faculdade e tantas outras ainda mais reveladoras.

Na virtualidade do mundo das telas repletas de palavras "delicadas, otimistas e espontâneas" forjam-se verdadeiros" amigos de fé". Aí nascem os carequinhas virtuais caça-níqueis, que no jargão político chamam de "petequeiros" aqueles vivem de catar merrequinhas em pequenos expedientes. Em breve ele/ela o procura para vender alguma coisa. Qualquer coisa. Ou, interessados em adquirir alguma coisa por meio de compra, por exemplo. Ou ainda "Você conhece alguém que esteja interessado em...". E aí vem um interesse que parece grande. Essa deixa não é para o carequinha comprar, mas ele/ela quer saber se você pertence ao grupo que ele/ela pretende alcançar e formar a rede de relações que na cabeça dela ou dela é "poderosa" e daí, um passo para começar a lhe tirar alguma coisa. Claro que esta rede, para esses pequenos, é poderosa, pois, ainda estão em fase de aprendizado exercitando no pingado ou no varejo. Aos poucos vão se refinando para agir no atacado. Os recursos usados são inúmeros.

Ao ler a coluna do Silvio Lach, lembrei-me, também eu, de que a internet tem contribuído muito para a formação de uma safra onde começa a se formar os aprendizes de carequinhas que mesmo tendo que levar algum tempo, farão carreira de sucesso seguindo a moda exportada de Brasília e devidamente socializada e ainda em versão pequenos punguistas , preservando a manutenção das futuras gerações políticas do velho, bom e conhecido 171 ou o 299.

Aconselha-se aos petequinhas, vez por outra, uma viagem à Brasília para fazer as provas e conferir o avanço do aprendizado.

Enfim, como dizia o político, personagem de Chico Anísio: Quero que o mundo se exploda. Eu quero é me dar bem!

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