Second Life – Silvio Lach JB - Revista Domingo, 22/04/2007

Lembra um tempo atrás, quando um publicitário, carequinha que não era publicitário e que hoje nem é tão carequinha assim pegou um empréstimo que não era empréstimo, num banco que não era banco, dando como garantia o dinheiro que iria ganhar com campanhas publicitárias que nunca seriam feitas? Lembra que, naquela época, ele inventou com alguns amigos um intricando mundo paralelo, que tinha um moeda própria, onde as pessoas podiam viver outros personagens na mais completa privacidade? Este homem foi acusado de laranja, lobista, corrupto e safado. Hoje vejo, foi um dos maiores visionários que este país já teve, um verdadeiro gênio injustiçado.

O sujeito simplesmente inventou o Second life brasileiro. Só me dei conta disso agora. É igualzinho. Primeiro ele montou uma gigantesca rede de relacionamento. Depois criou o avatar de publicitário, entrando como sócio em duas agências mineiras falidas para viabilizar o lobby. Transformou o dinheiro de caixa 2 em mensalão, uma moeda virtual que só circulava naquele mundinho fechado e de fachada. A cada dia que passava, um integrante convidava outro e a rede de relacionamentos tornava-se mais robusta – basta ver a quantidade de gente envolvida no escândalo que parecia ser uma coisa e na verdade era outra. Não fosse uma guerrinha entre alguns integrantes da rede, ele estaria hoje negociando com o Google.

Cabeça brilhante a do carequinha.

Na verdade, o Brasil sempre foi um gigantesco Second life. A cada escândalo, o efeito Denorex, aquele do parece-mas-não-é, vai deixando a gente de cabelos brancos, em pé, revoltos e cheios, muito cheios mesmo. Tanto que dá vontade de arrancar alguns.

No nosso Second life, as pessoas transitam do luxo ao lixo em questão de segundos. Um dos donos da rede de lojas mais chique do Brasil caiu na rede ganhando o avatar de contrabandista. Já o dono de uma das pizzarias mais sofisticadas do Rio caprichosamente escolheu como segundo personagem o de tranficante de drodas internacional.

Agora, com essa operação Hurricane, o efeito mais uma vez se repete. Patrono que é bicheiro. Presidente da Liga que é bicheiro. Delegado que é assaltante. Desembargador que é lobista. Juiz que é atravessador. Ladrão que é policial. Aspone que é advogado. Todos tão vivos quanto o dinheiro encontrado com eles.