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JALOUSIE

 

Maria Luiza Curti é psicóloga e webjornalista
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br
21, Janeiro/2002

 

"Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões e fazem com que as suspeitas pareçam verdades." (Cervantes)

Em francês a palavra "jalousie" significa ciúme. Dela derivou o termo "gelosia" que por muito tempo se usou para denominar a janela. Segundo o doutor em Letras Dionísio da Silva, "maridos ciumentos teriam trazido a persiana ou a veneziana para as casas para evitar que as mulheres pudessem ser vistas da rua, mas sem impedi-las de ver o que se passava lá fora".

O ciúmes é um sentimento que tem a idade do homem. Sócrates o definiu como "a dor da alma".

Esse sentimento, por muitas vezes, adquire um furor tão devastador que William Shakespeare o chamou de "monstro dos olhos verdes" e é sobre ele sua obra do século XVII, em que "Otelo – O Mouro de Veneza"; movido por um ciúme doentio do seu melhor amigo com sua esposa, acaba matando a honesta, terna e doce Desdêmona.

O drama de Shakespeare se repete até nossos dias. Muitos Otelos e Desdêmonas da vida encenaram e encenam seu texto na vida real.

Para alguns o ciúme é visto como uma espécie de zelo, um sinal de amor, como um renovador de relacionamento desgastado e valorização do parceiro; para outros, é prova de insegurança e auto-estima rebaixada.

É certo que esse sentimento se torna perigoso para quem é alvo dele quando essa "dor da alma" se transforma em patologia. É uma doença universal e democrática, pois ataca igualmente a homens e mulheres, reis e plebeus. Os sintomas são os mesmos através do tempo. O que difere de uma pessoa para outra é a forma de dar vazão a essa angústia irada.

O que move o ciumento ou a ciumenta é um desejo de controle total do(a) companheiro(a), mas, por mais controle que consiga sobre o outro, nunca é o suficiente. A pessoa que padece desse mal está sempre em busca de confissões e confirmações para suas suspeitas e mesmo que as consigam, nunca está satisfeito, pois continua ruminando suspeita por algo mais.

O ciumento vive em eterno sofrimento, o que lhe causa estresse, descontrole emocional e o relacionamento fica tenso. Esse descontrole pode levá-lo a protagonizar cenas ridículas e constrangedoras em público. Apesar do sentimento de culpa que carrega, seu pensamento obsessivo pode ocasionar a perda da(o) parceira(o). É um paradoxo, pois todo seu sofrimento se resume no medo de perder o outro.

No ciúme patológico a pessoa pode ir até ao delírio, construindo pensamentos que só existem na sua imaginação. Mesmo que haja um motivo real para o ciúme, sua mente distorcida o faz ir além.

Como saber se o ciúme é normal ou se já está com ares de patologia?

O ciúme normal é transitório e baseado em fatos reais.

A pessoa cujo ciúme é doentio pode, por exemplo, ter um comportamento parecido com esse: se o outro diz que vai viajar, irá crivá-lo de perguntas: com quem vai, aonde vai, demora, não demora, e monitora-o pelo telefone. É comum na volta da viagem e mesmo no dia-a-dia, vasculhar as coisas do outro a procura de indícios de infidelidade, inclusive a memória do celular.

À simples menção de um(a) ex, é motivo para fazer uma cena onde a agressividade pode estar presente em palavras e até fisicamente.

Se o outro sai com amigos do mesmo sexo para ir a um barzinho, fica telefonando para saber se está lá mesmo e principalmente para escutar o barulho do ambiente procurando ouvir vozes do outro sexo, isso quando não vai até lá para verificar "in loco".

Pergunta como quem não quer nada a amigos e parentes sobre seu comportamento na sua ausência. Sua vida profissional fica prejudicada, pois não consegue pensar em outra coisa além das suas ruminações. Coloca investigador para segui-lo, ou segue-o pessoalmente. Faz tudo que uma mente descompensada, dominada pela desconfiança e insegurança pode conceber...

Esse modo distorcido de vivenciar o amor faz com que a pessoa experimente várias emoções, assim como: ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, explosões de amor, humilhação, culpa, desejo de vingança...

Na internet encontrei uma poesia que certamente tem seu autor, mas estava anônima como muitos textos que circulam por lá. Define o tormento do ciúme e termina assim: "Vê-se arder, fumegar, sulfúreo lume... Que estrondo! Que pavor! Que abismo infando!... Mortais, não é o inferno, é o Ciúme!"


Maria Luiza Curti é psicóloga e webjornalista
Psicóloga clínica – crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br

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