Em francês
a palavra "jalousie" significa ciúme. Dela derivou
o termo "gelosia" que por muito tempo se usou para denominar
a janela. Segundo o doutor em Letras Dionísio da Silva,
"maridos ciumentos teriam trazido a persiana ou a veneziana
para as casas para evitar que as mulheres pudessem ser vistas
da rua, mas sem impedi-las de ver o que se passava lá fora".
O ciúmes
é um sentimento que tem a idade do homem. Sócrates
o definiu como "a dor da alma".
Esse
sentimento, por muitas vezes, adquire um furor tão devastador
que William Shakespeare o chamou de "monstro dos olhos verdes"
e é sobre ele sua obra do século XVII, em que "Otelo
– O Mouro de Veneza"; movido por um ciúme doentio
do seu melhor amigo com sua esposa, acaba matando a honesta, terna
e doce Desdêmona.
O drama
de Shakespeare se repete até nossos dias. Muitos Otelos
e Desdêmonas da vida encenaram e encenam seu texto na vida
real.
Para
alguns o ciúme é visto como uma espécie de
zelo, um sinal de amor, como um renovador de relacionamento desgastado
e valorização do parceiro; para outros, é
prova de insegurança e auto-estima rebaixada.
É
certo que esse sentimento se torna perigoso para quem é
alvo dele quando essa "dor da alma" se transforma em
patologia. É uma doença universal e democrática,
pois ataca igualmente a homens e mulheres, reis e plebeus. Os
sintomas são os mesmos através do tempo. O que difere
de uma pessoa para outra é a forma de dar vazão
a essa angústia irada.
O que
move o ciumento ou a ciumenta é um desejo de controle total
do(a) companheiro(a), mas, por mais controle que consiga sobre
o outro, nunca é o suficiente. A pessoa que padece desse
mal está sempre em busca de confissões e confirmações
para suas suspeitas e mesmo que as consigam, nunca está
satisfeito, pois continua ruminando suspeita por algo mais.
O ciumento
vive em eterno sofrimento, o que lhe causa estresse, descontrole
emocional e o relacionamento fica tenso. Esse descontrole pode
levá-lo a protagonizar cenas ridículas e constrangedoras
em público. Apesar do sentimento de culpa que carrega,
seu pensamento obsessivo pode ocasionar a perda da(o) parceira(o).
É um paradoxo, pois todo seu sofrimento se resume no medo
de perder o outro.
No ciúme
patológico a pessoa pode ir até ao delírio,
construindo pensamentos que só existem na sua imaginação.
Mesmo que haja um motivo real para o ciúme, sua mente distorcida
o faz ir além.
Como
saber se o ciúme é normal ou se já está
com ares de patologia?
O ciúme
normal é transitório e baseado em fatos reais.
A pessoa
cujo ciúme é doentio pode, por exemplo, ter um comportamento
parecido com esse: se o outro diz que vai viajar, irá crivá-lo
de perguntas: com quem vai, aonde vai, demora, não demora,
e monitora-o pelo telefone. É comum na volta da viagem
e mesmo no dia-a-dia, vasculhar as coisas do outro a procura de
indícios de infidelidade, inclusive a memória do
celular.
À
simples menção de um(a) ex, é motivo para
fazer uma cena onde a agressividade pode estar presente em palavras
e até fisicamente.
Se o
outro sai com amigos do mesmo sexo para ir a um barzinho, fica
telefonando para saber se está lá mesmo e principalmente
para escutar o barulho do ambiente procurando ouvir vozes do outro
sexo, isso quando não vai até lá para verificar
"in loco".
Pergunta
como quem não quer nada a amigos e parentes sobre seu comportamento
na sua ausência. Sua vida profissional fica prejudicada,
pois não consegue pensar em outra coisa além das
suas ruminações. Coloca investigador para segui-lo,
ou segue-o pessoalmente. Faz tudo que uma mente descompensada,
dominada pela desconfiança e insegurança pode conceber...
Esse
modo distorcido de vivenciar o amor faz com que a pessoa experimente
várias emoções, assim como: ansiedade, depressão,
raiva, vergonha, insegurança, explosões de amor,
humilhação, culpa, desejo de vingança...
Na internet
encontrei uma poesia que certamente tem seu autor, mas estava
anônima como muitos textos que circulam por lá. Define
o tormento do ciúme e termina assim: "Vê-se
arder, fumegar, sulfúreo lume... Que estrondo! Que pavor!
Que abismo infando!... Mortais, não é o inferno,
é o Ciúme!"
Maria Luiza Curti é psicóloga
e webjornalista
Psicóloga clínica –
crp. 14/01733-1
mlcurti@uol.com.br
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