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O
idioma de cada um
Por Alexandre Sergio da Rocha (
* )
07, Dezembro/2006
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Discutiu-se no Congresso Nacional um projeto de lei que, ao que se comenta, pretenderia proteger a língua portuguesa, impedindo o uso de nomes estrangeiros em estabelecimentos comerciais e em determinadas outras situações. Como é natural, essa providência provocou debates e as posições variaram do apoio à repulsa, passando, em grande medida, pela incredulidade nos efeitos de semelhante legislação.
Os idiomas não são
imutáveis. A língua que falamos e escrevemos
é bastante diferente da que falava Camões e, mais ainda, da
que tinha curso no século XII. Esta, o português arcaico,
resultou de uma diferenciação do latim vulgar medieval em
contato com os idiomas que com ele concorriam, no oeste da
península ibérica. Por sua vez, o latim que se transformou
no português arcaico era bem diverso da língua que Cícero
utilizava no apogeu do período clássico.
Dois são os principais mecanismos de alteração do idioma: a importação de vocábulos de outros idiomas, incorporados à nova língua na forma original ou deformados, e a consolidação de usos alternativos ou errôneos que terminam por se converter na forma padrão geralmente aceita.
A importação de
palavras e construções não é um fenômeno apenas lingüístico;
é, sobretudo, político-cultural. O país que, em determinado
momento histórico, detenha capacidade maior de influência
política e econômica freqüentemente associada a poderio
militar vê seu idioma impondo-se hegemonicamente, seja
por meio de nomes dos objetos da vanguarda tecnológica, seja
como termos levados para outros países por seus naturais que
tenham contato com a metrópole mundial do momento, sendo freqüente
que os que utilizam tais palavras imaginem crescer em status
por demonstrar conhecimento delas.
A transformação do idioma pela via da aceitação dos usos incorretos, por sua vez, pode conter, também, um elemento de natureza político-cultural, agora de caráter interno ao país. Como conjectura, a hipótese de trabalho que proponho é a seguinte: períodos em que seja questionada a legitimidade de uma ordem política vigente ou recém-terminada são mais propensos ao relaxamento do rigor com que todas as normas são impostas, como se a indesejada rigidez da ordem política "contaminasse" todas as outras formas de rigidez normativa, inclusive as que se aplicam ao idioma.
Se essa hipótese for verdadeira, terá potencializado, no Brasil, o complexo fenômeno sociocultural que se deu no panorama da educação, nos últimos quarenta anos do século vinte, com reflexos ainda presentes. Nesse período, realizou-se a expansão do ensino brasileiro, seja pela real necessidade de sua universalização nos níveis mais elementares, seja como recurso de popularização dos governos autoritários que se sucederam dos anos de 1960 aos anos de 1980. Essa expansão foi certamente necessária, mas o modo por que se fez foi catastrófico.
Antes dos anos de 1960, havia uma rede de educação pública no País que, em grande medida, era bastante satisfatória em termos de qualidade e quantidade dos conteúdos que transmitia (embora a adequação desses conteúdos à nossa realidade sempre tenha sido objeto de polêmica). Entretanto, esse ensino público de qualidade padecia de um defeito: era elitizado, isto é, o número de pessoas que a ele tinha acesso era amplamente inferior ao número de pessoas em idade escolar. Com a expansão, buscava-se, alegadamente, corrigir essa injustiça social.
O aumento do número
de vagas não foi precedido, porém, de providências para ampliar
a formação docente, de maneira a prover os estudantes agora
admitidos à escola de educação qualitativamente equivalente
à que se fornecia antes. Tampouco foram adotadas políticas
de valorização do magistério. Ao contrário, verificou-se,
nessa época, um aviltamento progressivo dos salários e do
prestígio social dos professores. Portanto, houve, sim, a
oferta de número maior de vagas escolares, mas à custa de
uma degradação extraordinária da qualidade e da quantidade
dos conteúdos transmitidos pela escola, porque
(1) não se formaram professores adequadamente preparados
em número suficiente e
(2) os que tivessem melhor capacitação eram atraídos
por outras oportunidades de trabalho melhor remuneradas e
que ofereciam melhores condições gerais de exercício profissional.
Esse estado de coisas afetou todos os setores do ensino, entre eles o da língua portuguesa. Ao final de uma geração, já era freqüente que professores formados nesse período necessitassem, eles próprios, de reciclagem, para não cometerem enganos elementares ou descuidos que, nos anos de 1950, seriam severamente corrigidos se tivessem por autor algum ginasiano menos aplicado.
Além disso, houve significativa alteração nos padrões estéticos predominantes. Enquanto os conceitos de novidade em literatura, mesmo no modernismo brasileiro, não impunham uma ruptura com a norma culta, o gosto da segunda metade do século vinte evoluiu para a aceitação de uma fala antigramatical como forma de caracterização de padrões culturais alternativos. A difusão desses falares alternativos, especialmente pelos meios de comunicação de massa, ajuda a que sejam fixados como português padrão pelas novas gerações, em fase de aprendizado, e pelos segmentos das antigas gerações cujo conhecimento do idioma não seja assim tão sólido.
As conseqüências disso para a comunicação são tragicômicas. Nos anos 80, um professor universitário que também foi combativo político, um dos fundadores de um partido cuja retórica sempre foi voltada para as massas, falava a um grupo de correligionários, em um subúrbio do Rio de Janeiro. Ainda que dotado de facilidade de comunicação, o professor talvez tenha sido traído, em seu discurso, pelo brilho intelectual do antropólogo ilustre que era, porque o coordenador do encontro o interrompeu dizendo mais ou menos o seguinte: "Professor, o senhor é um homem culto que sente as necessidades do povo, mas eu lhe peço que fale uma linguagem mais simples, para que esses nossos companheiros humildes possam entendê-lo bem."
O orador recomeçou, falando de maneira menos sofisticada, mas ainda não foi suficiente. O coordenador pediu de novo: "Professor, eu lhe peço que fale de maneira ainda mais simples, para que nossos companheiros possam compreendê-lo." Diante disso, o orador não teve alternativa. Prosseguiu: "O que estou querendo dizer é que esse governo…" e disse o que pensava do governo e o que ele fazia ao povo na linguagem dos botequins, sem deixar de pontuá-la com a gesticulação obscena adequada para dar ênfase a semelhante linguajar.
Na ocasião, essa
história me foi contada por uma testemunha ocular dos acontecimentos.
Confesso que não soube, no primeiro momento, se me divertia
com o pitoresco da situação ou se me preocupava com as dificuldades
que seriam sempre encontradas quando assuntos delicados e
complexos de interesse do País tivessem de ser explicados
aos cidadãos e o uso do idioma não pudesse ser tão simplificado.
Afinal, nem tudo se pode descrever satisfatoriamente com 300
palavras apenas.
Serão as palavras
estrangeiras responsáveis por essa grande dificuldade no uso
pleno dos recursos do nosso idioma? Terão alguma responsabilidade
nisso os autores de novelas cuja ambientação nordestina é
indicada por um sotaque absurdo e pela substituição incorreta
do objeto direto pelo indireto, na forma pronominal oblíqua
- eu "lhe" amo, por eu o amo; eu "lhe" vejo, por eu o vejo?
Poderá alguma lei evitar que a grande imprensa escreva "onde"
sem estar-se referindo a lugar no espaço, ou "através" sem
ser no sentido de algo que trespassa de um lado a outro, sendo
que este último emprego já encontra abrigo em dicionários?
Acredito que o remédio para esses males não seja legislativo.
Há um problema de compreensão e um problema de gosto; eles
existem ao mesmo tempo, mas não são o mesmo. Para que os que
aprenderam de menos tomem gosto por um idioma mais aprimorado,
talvez seja preciso que os que aprenderam de mais se reeduquem
e reaprendam a escrever, em homenagem à evolução que - gostemos
ou não - aconteceu. Do ponto de vista de minha geração, isso
pode não ser fácil, mas é possível. Basta ler, nos jornais,
as crônicas de João Ubaldo Ribeiro ou Carlos Heitor Cony para
ver que é realmente possível..
Doutor
em Filosofia, professor aposentado da UFRJ e Professor Titular
da FTE e da Faculdade 2 de Julho (Salvador, BA)
Sobe
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