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         Federalismo perneta

         Comentado por Jorge Geisel


 


           Rodrigo de Almeida ( * )
           16, janeiro/2007

 

Comentado por Jorge Geisel

A MUDANÇA DE RUMOS na discussão política brasileira, aqui esboçada na terça-feira, seguirá inerte se Brasília não continuar a ignorar a necessidade de revisão do nosso federalismo. Para começo de conversa: de um federalismo perneta nasce boa parte das acefalias políticas econômicas do país – corrupção incluída. E dele quase nada se fala, exceto poucas vozes de políticos como Aécio Neves e Delfim Netto ou alguns poucos acadêmicos.

O Brasil tem um federalismo capenga por várias razões. Mas, para síntese rápida e fácil, basta dizer que exibimos uma conjugação esquizofrênica de recursos e atribuições. Em tese, há autonomia concedida a Estados e municípios, mas uma enorme centralização tributária e política nas mãos do Poder Executivo. Num país gigantesco, temos um poder central que, por força e tamanho, domina financeira e politicamente as unidades federadas.

Dá nisto. Obriga o sistemático beija-mão de deputados federais, prefeitos e governadores, à cata de recursos nos corredores dos ministérios e do Palácio do Planalto. ( Noves fora aqueles que o fazem pra encher os bolsos, a maioria percorre a via-crucis para assegurar algum mínimo benefício em seus Estados).

Noutra ponta, a ausência de uma melhor compreensão sobre o federalismo num país como o Brasil gera extravagâncias como a recente verticalização, mecanismo ilusório de consolidação de supostos partidos fortes nacionais, mas frontalmente contrário à idéia de uma Federação formada por interesses e realidades tão diversos.

Problema antigo. O Brasil é federativo desde a Constituição de 1891. O Império, como se sabe, garantira a usurpação do poder local de que antes gozavam as capitanias e vilas coloniais. Uma das respostas dos republicanos à centralização imperial vigente desde João VI, o reconhecimento constitucional não assegurou ao país um federalismo de fato. Nunca fomos além de um pseudofederalismo.

Apesar de consideráveis sístoles e diástoles — como o ministro Golbery descrevia nossa distribuição de recursos tributários — o padrão se manteve mais ou menos linear ao longo da história. A Constituição de 1988 representou um divisor de águas rumo à descentralização política e administrativa. Os legisladores enxergaram no fortalecimento dos governos estaduais e municipais uma espécie de braço financeiro do movimento pela redemocratização.

Antes de aplacar, a atual Constituição ampliou a esquizofrenia. A descentralização das transferências fiscais não correspondeu à autonomia dos governos locais sobre suas decisões. Também criou uma nova estrutura de despesas sem se desfazer da anterior. A receita dos municípios e dos Estados cresceu, mas ao contrário do que se esperava, a da União também cresceu. Razão da mágica? O governo federal criou as chamadas contribuições sociais, impostos que não precisa dividir com os demais entes federativos.

( Longa vida tem o apetite tributário. Quem esquece a fábula do doutor Simão Bacamarte, que resolve fundar um hospício em Itaguaí e nele internar toda a cidade? Para tanto, inventou-se um imposto sobre os enfeites em cortejos fúnebres. Arrecadou-se mais dinheiro do que o previsto e sobrou dinheiro em Itaguaí. Machado de Assis sabia das coisas ).

Vem prevalecendo a tese, muito difundida por burocratas de Brasília, de que governadores e prefeitos são incapazes de governar. Um tiro no pé. Do jeito que está, quem não consegue governar é Brasília. Acrescente-se outra lição da história: Quanto mais descentralizadas as decisões, mais controle a população tem sobre elas. Como quase tudo na política, um federalismo de fato não elimina as chagas crônicas, mas pode amenizar várias dores.

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Sobe

 

 

 

 

 

 

( * )Rodrigo de Almeida - Editorialista e colunista do Jornal do Brasil.
Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil

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