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            Os Estados Unidos do Brasil

            Márcio Chalegre Coimbral ( * )
            25, Maio/2004

O sistema federativo de qualquer país é essencialmente decorrente de sua história. A maneira como um Estado se forma, também é determinante para desenhar os valores e costumes de uma sociedade. Para países de dimensões continentais, o modelo centralizador, com poderes fortes para um governo nacional não mais funciona no mundo. Prova disso são as constantes guerras de independência em vários países centralizadores, pois as diferenças culturais regionais, tendem a ser mais fortes do que a unificação em um poder central.

No Brasil, somos um país de realidades regionais muito diversas. A distância entre Roraima e o Rio Grande do Sul não é apenas geográfica. Existe uma diferença cultural muito grande. As sociedades e costumes são muito diferentes. Como resultado disto, o Brasil é constituído de várias realidades, diversas nos seus diferentes estados. No setor político e legislativo isto se confirma, pois todo o poder é centrado na força da União, deixando os estados a par de muitas decisões importantes. Legislativamente isto também causa problemas. Temos, em áreas importantes do direito, a mesma legislação para todo os Estados brasileiros. Um exemplo simples é a legislação trabalhista, que além de ser antiga (data da década de 40), abrange todo o território nacional. Ora, é inegável que a realidade do trabalho no Maranhão e Santa Catarina, por exemplo, são altamente distintas. Leis nacionais, não comportam as diferenças regionais, atrasando o desenvolvimento de certas áreas.

O mesmo não ocorreu com os Estados Unidos. O sistema federativo americano e único, como mencionam os professores de Harvard. Entretanto, parece ser o mais acertado para países de dimensões continentais, que comportam grandes diferenças culturais entre os estados. É inegável que a realidade e os costumes da região da Nova Inglaterra, onde se encontra Massachusetts, são completamente diferentes dos apresentados na Califórnia ou Arkansas. Para corrigir estes problemas, os Estados Unidos constituiu uma federação que concede maior autonomia para os Estados em certos aspectos. O sistema federativo norte-americano é decorrente de sua colonização (de povoamento, ao contrário da brasileira, de exploração). Aqueles que vieram para o norte da América, preservavam a liberdade, mais do que qualquer coisa. Para eles, o governo e o Estado, eram um mal necessário. Isso explica a dificuldade de constituição dos Estados em um só, mas que se tornou possível, em função do respeito as diferenças de cada um dos seus membros. As 13 colônias iniciais se tornaram 52 estados que contam com grande autonomia em relação a União.

A lição que se tira da experiência norte-americana, é que só o respeito pela individualidade e particularidade de cada Estado que compõe uma federação, pode levar ao seu livre desenvolvimento e consequentemente ao sucesso. A prova cabal desta tese é a Europa e a constituição da União Européia. As conversas e acordos para a constituição de um ente maior na Europa está acontecendo há anos, com extremo cuidado. O respeito pelas particularidades de cada país são fator primordial para a constituição dessa união. No fundo, a essência do que está sendo feito na Europa hoje, é baseado na experiência americana de mais de 200 anos. O que a Europa visa é a sua união, respeitando as particularidades de cada país membro. Nos parece claramente, ser a constituição dos Estado Unidos da Europa.

Qual a lição que o Brasil deve tirar desta realidade ? Creio que deve ser repensar o seu sistema federativo, diminuindo a distância entre o cidadão e o Estado, inclusive facilitando a fiscalização dos serviços estatais. Além de diminuir o tamanho do Estado, o poder central nacional deveria descentralizar alguns poderes, inclusive legislativos. É inegável que certas regras devem ser federais, porém, outras claramente poderiam ser delegadas para os Estado-Membros. Assim, poderíamos diminuir a "distância" entre os diferentes estados.brasileiros, harmonizando suas diferenças, assim como fizeram os Estados Unidos e esta fazendo a Europa. Respeitando as diferenças regionais, poderíamos construir um país mais próspero, pois as diversidades de cada região poderiam ser melhor reguladas por quem está mais perto da realidade. Muitas vezes quem está longe, não consegue enxergar os problemas regionais e suas peculiaridades. Já é hora de Brasil observar o que é próspero no resto do mundo.

 

 

Sobe

 

 

 

 

 

 

Artigo redigido em 13.06.2000, em Boston, MA, EUA.
* Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, hoje em Brasília.

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