Foi pensando em minha experiência clínica e institucional, como
psicóloga, pedagoga, e posteriormente psicopedagoga, que despertou-me o desejo
de investigar mais de perto as relações do "Brincar Infantil".
Observamos nos últimos anos, que nunca se deu tanto destaque ao
brinquedo, como se vem dando ultimamente. As indústrias investem nesta área,
desenvolvem toda sorte de brinquedos eletrônicos, jogos, fazem comerciais,
propagandas, brindes em supermercado, até as lojinhas de um e noventa e nove
atacaram também, (com brinquedos muitas vezes sem qualidade , sem fiscalização e
controle do IMETRO. Evidentemente tudo isto tem um fim: o consumo perverso.
Descobriram uma fatia do mercado, as crianças e os jovens, que são consumidores
em potencial, manipulados, seduzidos, ingênuos. Porém, constatamos que há o lado
bom deste estímulo, mas não encontramos nossas crianças brincando com
espontaneidade e espírito criador. Logo o brinquedo é descartado e querem outro,
ou brincam um pouquinho e depois vão mexer no que não deve. Por que será?
Notamos vários teóricos pesquisando e escrevendo a respeito, como o brinquedo
sendo um instrumento enriquecedor , possibilitando a aprendizagem de várias
habilidades.
No dia-a-dia, é comum ouvirmos comentários sobre o brincar, num
tom queixoso e esvaziado de significado: os pais comentam "Hoje meu filho não
foi para a escolinha, também não perdeu nada, só vai para brincar!"; ou os
professores falam "Aquela menina não tem feito nada, só pensa em brincar!".
Portanto, o brincar parece estar associado à uma ação irrelevante, ou pelo menos
nada que tenha alguma importância para a vida humana.
Os pais valorizam mais as atividades como: "Meu filho faz,
natação, inglês, ginástica, faz conservatório musical, teatro, computação,
etc....". Estas atividades são importantes e necessárias, mas está sobrando
pouco tempo para a espontaneidade, para o brincar em conjunto, para a fantasia.
A Psicopedagogia tem se constituído no espaço privilegiado para
pensar as questões relativas à aprendizagem. Sendo assim, está intimamente
ligada ao ato de brincar, como fonte de conhecimento.
Podemos
dizer que, a capacidade de brincar faz parte de um processo
de desenvolvimento, sendo imprescindível para a sobrevivência
psíquica e para o avanço social do homem. Notamos isto na própria
história antropológica humana. Sabemos pela maneira que uma
criança, adolescente, adulto, brinca como algo revelador de
suas estruturas mentais, pensamentos, sentimentos, interações,
ou seja seus níveis de maturidade cognitiva, afetiva –
emocional e social.
Faço
então uma pergunta: "O que acontece com o brincar; pois ora
é tão valioso ora é tão desvalorizado?"
O brincar e o jogar
da Criança ao Adulto
Vejamos a origem das palavras:
Jogar: do latim "jocare": entregar-se
ao; ou tomar parte no jogo de; executar as diversas combinações
de um jogo; aventurar-se ou arriscar-se ao jogo; perder no
jogo; dizer ou fazer brincadeira; harmonizar-se.
Brincar: "de brinco+ar"; divertir-se
infantilmente; entreter-se em jogos de criança; recrear-se;
distrair-se;saltar; pular; dançar, (...) (Dicionário da Língua
Portuguesa – Aurélio, 1986, pp. 286-98)
Segundo, BOMTEMPO (1987 p.13) "a atividade do brincar,
geralmente é vista como uma situação livre de conflitos e tensões, havendo
sempre um elemento de prazer. Também é uma atividade com um fim em si mesma,
pois não há resultado biológico imediato que altere a existência do indivíduo."
O brincar da criança não é equivalente ao jogo para o adulto,
pois não é uma simples recreação, o adulto que brinca/joga afasta-se da
realidade, enquanto a criança ao brincar/jogar avança para novas etapas de
domínio do mundo que a cerca. Precisamos saber que o brincar da criança é uma
forma infantil da capacidade humana de experimentar, criar situações, modelos e
como dominar a realidade, experimentando e prevendo os acontecimentos.
Quando induzimos a criança a brincar com jogos educativos,
chega um momento em que ela interrompe dizendo: -"Bem agora, vamos brincar,
tá?". Portanto a criança não estava brincando no verdadeiro sentido do verbo,
quando percebe o objetivo e intenção pedagógica que a cansou, interrompe, pois o
brincar é destituído de qualquer objetivo externo e determinado, brincar requer
espontaneidade, criatividade, liberdade com limites.
A brincadeira a partir dos 2 aos 4 anos, desenvolve-se com base
nas organizações mentais, ou seja a simbolização. Diferencia o "eu" do outro,
fantasia de realidade.
No início apresenta características de "pensamento mágico pré
conceitual", ou seja a a criança dá vida aos objetos, atribui sensações e
emoções, conversa com eles. É também uma brincadeira solitária, na qual vive
diferentes papéis. Pouco a pouco, ensaia um simbolismo coletivo, exigindo dela
esforço e descentralização para acrescentar o outro e poder continuar
brincando.
A partir dos 4 anos, a brincadeira vai adquirindo um aspecto
mais social surgindo as brincadeiras com regras, onde o combinado deve ser
respeitado.
Na compreensão da brincadeira simbólica a criança revela
situações carregadas de emoções e afetos, as organizações lógicas :
classificações, seriações, quantidades, cores, cenário onde aparece seus medos,
dificuldades, tensões, inversão de papéis, etc...
HUIZINGA (1980), filósofo da história em 1938, escreveu seu
livro "HOMO LUDENS" no qual argumenta que o jogo é uma categoria absolutamente
primária da vida, tão essencial quando o raciocínio (HOMO SAPIENS) e a
fabricação de objetos (HOMO FABER), então a denominação HOMO LUDENS, é cujo
elemento lúdico está na base do surgimento e desenvolvimento da civilização.
O autor define jogo como: "uma atividade voluntária exercida
dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras
livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si
mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de
ser diferente de vida cotidiana." Em seu livro Huizinga nos conta que:
Nas sociedades antigas, não havia destinação
entre jogos infantis e adultos, eram coletivos.
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O jogo era considerado como um vínculo
entre as pessoas, grupos, classes e gerações, entre
passado e futuro. Gradualmente este caráter foi sendo
perdido ao longo da história, transformando-o mais individual.
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A influência educacional, religiosa
e social altera os valores morais, considerava a criança
como, um ser não maduro para convívio com adulto, sendo
que deveria ser submetida a um "regime especial".
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Os jogos e divertimentos coletivos
foram abandonados e o ato de brincar desvalorizado,
por não ter função aparente.
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Com o surgimento do capitalismo esta idéia teve mais força,
pois não podia ser associado a produção e trabalho, se tornou algo inútil.
O importante no brincar não é tanto como a criança, o jovem ou
o adulto brinca, mas sim como ela se envolve, lidando de forma cada vez mais
criativa e interativa com seu mundo interno e externo.
O fato de uma criança jogar xadrez, onde há presença de regras
explícitas, pode ser considerado também por ela como uma brincadeira, ou o fato
de brincar de boneca aparentemente sem regras explicitas, possa ser uma
reprodução de papéis sociais, pré estabelecidos por ela.
Os pais e educadores devem levar em consideração os seguintes
aspectos ao observar a criança ou o jovem brincando:
1- Ela tem brincado ultimamente? Quanto
tempo fica nesta atividade? O que faz com aquela brincadeira?
2- Brinca sozinha? Brinca com alguém? Brinca em grupo?
3- O que ela está expressando?
4- Quais as regras?
5- Como está brincando?
6- Criou novas regras?
7- Permaneceu em regras impostas?
8- Qual sua reação?
9- O que aparece neste jogo?
10- Para que serve este jogo ou brincadeira?
11- Como cuida dos brinquedos? v Quais
os brinquedos prefere?
Na verdade não existem delimitações claras sobre o ato de
brincar e jogar e sim uma fusão entre as duas atividades. Quando uma criança não
brinca, não se desenvolve, não se aventura em algo novo, desconhecido, isto é
muito preocupante. Se a criança brinca está revelando ter aceito o desafio do
crescimento, de ter a possibilidade de errar, de tentar a arriscar para
progredir e evoluir.
Enquanto pais, educadores e profissionais afins, precisamos ser
mais tolerantes com as atividades do cotidiano e criarmos um espaço para o
lúdico, para nós também podermos sonhar, fantasiar, brincar.
Alto
BIBLIOGRAFIA
BOMTEMPO,
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PIAGET, J. "A Formação do Símbolo na Criança" Ed. Guanabara
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