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Sonhos
e pesadelos
Dr. Antonio Carlos Alves de Araújo
Psicólogo
Comunique-se
08, Agosto/2001
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Acerca
de 101 anos atrás Sigmund Feud publicava seu histórico
livro sobre a interpretação dos sonhos. Nascia nesse
momento o fundamento teórico da psicanálise: associação
livre de idéias - o paciente não censurava nenhum
pensamento que lhe ocorria, e a interpretação dos
sonhos do paciente dentro do referencial criado por Freud (sendo
os pensamentos reprimidos sexuais seu principal objeto). Essas noções
se divulgaram amplamente no decorrer do século vinte, e não
cabe nesse breve estudo levantar aspectos teóricos, mas principalmente
uma comparação histórica daquilo que a psicanálise
julgou ser a raiz do significado do sonho, e se tal estudo permanece
válido em nosso contexto atual.
Freud salientou
basicamente que os sonhos seriam essencialmente a tentativa de realização
de um desejo reprimido que se alojava no inconsciente, sendo que
esse desejo seria primordialmente de natureza sexual ou encerraria
aspectos proibidos pelo contexto moral, como exemplo, o incesto
ou o que Freud veio a rotular de "complexo de Édipo" (uma
ligação neurótica da criança visando
exclusividade na relação afetiva, sem ter que disputar
com um dos pais sua atenção). O sonho era produzido
por dois elementos centrais: a "condensação e deslocamento",
que respectivamente significam: recolher partes de diferentes períodos
do desenvolvimento de uma pessoa, e reproduzi-las através
de simbolismos que ocultassem seu verdadeiro significado, evitando
que a pessoa entrasse em contato direto com o material proibido
ou do qual sentia-se culpada.
Outras
correntes da psicologia atribuíram metodologias diferentes
para a análise dos sonhos, como por exemplo, o estudo do
inconsciente pessoal e coletivo, formulado por Carl Gustav Jug,
que chamava a atenção para elementos da história
da humanidade (mitos ou arquétipos) – que representavam elementos
coletivos da mesma, presentes em todos os seres humanos, por exemplo,
a idéia da religião que é aceita praticamente
em todas as culturas, bem como determinados feitos heróicos
que são relatados através de inúmeras gerações.
Estes elementos estão sempre presentes no psiquismo humano,
determinando sua direção e resultados. A essência
desse estudo é enfatizar o sonho em nossa realidade atual,
como foi descrito anteriormente. E seguindo esse parâmetro,
gostaria de enfatizar que o sonho representa principalmente o drama
histórico que o ser humano vivencia em determinada época,
sendo a essência do sentimento que predomina na alma da pessoa.
Não
podemos nos esquecer que o contexto da época de Freud era
marcado pela extrema repressão sexual, assim sendo, boa parte
dos sonhos de suas pacientes reproduziam toda a miséria afetiva
e sexual da época. Em nosso presente momento, qualquer psicólogo
tem a clara noção de que os sonhos de nossos pacientes
atuais refletem principalmente três esferas: solidão,
angústia e principalmente medo. Todo o drama diário
pela batalha num mundo de competição inveja e ambição
é retratada periodicamente na elaboração onírica
das pessoas. Alfred Adler, contemporâneo de Freud salientou
o complexo de inferioridade e superioridade, como elementos centrais
da personalidade humana. É impressionante como observamos
ditos aspectos nos sonhos das pessoas. O complexo de inferioridade
se manifesta essencialmente através de sonhos de queda, nudez,
roubo, perseguição, estupro, perda de membros do corpo,
regressão a etapas anteriores, como, por exemplo, sonhar
que se está de volta ao ginásio, ou outra etapa qualquer
já vivenciada pela pessoa.
A compensação
de toda essa inferioridade sentida, ou o desejo de superioridade
se reproduz em sonhos do tipo: voar, viagens a lugares desconhecidos,
experiências místicas de ausência do próprio
corpo, contatos com seres extraterrestres, mas, sobretudo em sonhos
onde a manipulação e o poder são os elementos
dominantes. O próprio sonho de natureza sexual ou de orgasmo,
muitas vezes acompanha elementos de poder ou idolatria descritos
pelos pacientes. É interessante notar que a simbologia descrita
por Freud de natureza eminentemente sexual nos sonhos, como por
exemplo: guarda-chuva, fechaduras, obeliscos, cavernas, etc, foi
substituída por elementos da opressão e fracasso social
sentidos pela pessoa. Em suma, parece que nosso inconsciente em
nossos tempos está sobrecarregado do vazio e carência,
e esse espaço cada vez mais é preenchido pelo medo
ou pânico. Nesse exato ponto podemos falar do pesadelo.
O próprio
Freud deparou-se com uma contradição em sua teoria
dos sonhos, pois se os mesmos eram a realização de
desejos, como ficaria a questão dos pesadelos? Sua resposta
para essa questão ocorreu quando o mesmo elaborou a teoria
do masoquismo, teoria esta que diz que o prazer se manifesta na
dor, numa tentativa de aliviar a tensão e culpa (sendo a
essência do masoquista ter que se punir por desejar ou querer
o prazer, e dita punição o liberaria para vivenciar
seus desejos recalcados), e mais tarde em sua teoria do instinto
de morte, sendo este um instinto acionado que visava o retorno ao
inanimado, a destruição da vida e do prazer, em suma,
destruir a si próprio.
Freud com
bastante perspicácia percebeu mais tarde que o pesadelo era
uma tentativa do ego de controlar um material reprimido que causava
extremo sofrimento à pessoa. Nesse ponto podemos falar da
questão temporal dos pesadelos, pois para a pessoa que sofre
com os mesmos, fica a sensação de perseguição
de algo passado que sempre retorna, uma verdadeira tortura mental
que nunca se esgota. Porém se observarmos atentamente a direção
de determinados pesadelos descobriremos que seu sentido não
está apenas ligado ao passado, mas também ao futuro,
ou seja, a meta de vida que a pessoa pretende realizar, pois o pesadelo
coloca em cheque através de dolorosa angústia, determinadas
atitudes que a pessoa precisa tomar para resgatar seu prazer pessoal
e social; como se fosse uma espécie de alerta para determinado
problema que necessita de solução urgente.
O pesadelo
apenas se concretiza no espaço vago deixado pela ausência
de prazer e realização pessoal, sendo que o resultado
será a tirania de imagens ou vivências dolorosas. Em
suma, o pesadelo ocorre numa personalidade onde a fonte diária
de prazer não depende de sua vontade ou controle, sendo o
terror noturno a conseqüência lógica de tal mecanismo.
A ansiedade e expectativa por determinadas experiências gratificantes
são transformadas em angústia e decepção
através dos sonhos.
Para ilustração
de tais conceitos, a análise de alguns pesadelos de pacientes:
"Sonhei
que era uma criança e tinha sido enterrada viva, e meu
túmulo foi violado por saqueadores; chorava e ao mesmo
tempo começou a jorrar leite de meu corpo".
O conteúdo
sexual desse sonho é praticamente explícito, pois
se tratava de um paciente que sofria de extrema solidão e
carência no lado afetivo e sexual. Porém, é
muito comum a categoria de sonhos onde a pessoa está sendo
enterrada viva, e quase sempre isso representa determinado potencial
que nunca foi utilizado ou aproveitado, sendo que no caso do paciente
descrito anteriormente, ficou nítida sua decepção
por enterrar algo que ainda estava vivo, e a violação
representava um direito negado ao mesmo. O pesadelo nesse caso tinha
a intenção de revelar a pessoa que algo de sua humanidade
não estava sendo efetivado, sendo que não poderia
abrir mão do potencial afetivo sem a tortura de um pesadelo
ou uma neurose.
"Sonhei
que perfurava um poço em minha casa, e apenas jorrava terra,
sendo que fiquei apavorado que aquilo invadisse todos os ambientes
da casa".
Novamente
o tema da não efetivação de um potencial aparece,
pois de acordo com as discussões feitas com o paciente, determinado
pesadelo representava que sua angústia afetiva e emocional
lhe atormentava quase que diariamente, sendo que não poderia
esquecer ou abandonar algo que permanecia vivo em seu íntimo,
o desejo da satisfação amorosa, e mais uma vez, não
poderia liquidar algo que clama por satisfação, sendo
que a terra representava deixar de lado algo que não estava
disposto a abandonar, mas estava enfrentando graves dificuldades
para lidar com um emocional tão carente e debilitado.
"Uma
mulher estava deitada numa cama, e estava pegando fogo, tentando
me puxar, vi a figura de um homem ao meu lado, a mulher se carbonizou
por completo, e fiquei apenas chamuscada".
Esse pesadelo
é extremamente interessante, como resposta do inconsciente
à resolução de determinado conflito psíquico.
Tratava-se de uma pessoa que na infância havia sido molestada
sexualmente, sendo que por diversas vezes sua vida correu real perigo,
pois sua agressora a segurava pela mão a beira de um poço,
ameaçando lhe arremessar para baixo. Apesar da gravidade
do trauma citado, sua vida afetiva e sexual permanecia intacta,
sendo que seu pesadelo representava claramente o final de seu conturbado
histórico infantil, e assim sendo, estava livre para prosseguir
sua jornada afetiva, com o mínimo de resquícios de
suas dolorosas vivências.
Alguém
poderia dizer que o homem no sonho da paciente acima descrito representaria
a relação terapêutica, no sentido de depositar
no elemento masculino suas esperanças de reparação
e alívio emocional. Embora tal análise tenha algum
mérito, a realidade é que dita experiência manteve
intacto o sentimento de poder da paciente, como dizia o psicólogo
Alfred Adler, e nada mais justo que tal fato ocorresse, pois o próprio
psiquismo encontra maneiras de compensar os danos sofridos na trajetória
do desenvolvimento. A autocomiseração foi substituída
pela urgência de ser reconhecido o evento traumático
na própria terapia, que sempre deve ser conduzida para resgatar
o potencial do paciente não apenas por ter sobrevivido a
tal evento, mas, sobretudo para lhe dar uma dimensão superior,
no intuito de libertar a pessoa em todos os sentidos, e provando
para a mesma que suas energias ainda continuam presentes e a disposição
de algo maior e melhor, e o sonho acima descrito é a prova
contundente do poder de reparação que o pesadelo possui,
assinalando que o poder pessoal da paciente citada anteriormente
permanecia vivo e a espera de ser mobilizado.
ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO-
PSICÓLOGO
C.R.P. 31341-5
ENDEREÇO: RUA ENGENHEIRO ANDRADE
JÚNIOR, 156- BELÉM-SÃO PAULO- CAPITAL
FONE: 66980558-
EMAIL: acaa@ig.com.br
Agradecimentos aos pacientes que autorizaram
a divulgação do material.
Revisão e colaboração:
ANA LÚCIA DA SILVA NEVES- PSICÓLOGA- C.R.P. 31333-4
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