Fetichismo
Dr.
Ney dos Santos
Em
27, Junho/2001
Pode-se
demonstrar experimentalmente que pessoas diferentes variam
na facilidade com que são condicionadas. Pessoas
extrovertidas tem dificuldade em formar reflexos condicionados,
os introvertidos precisam de menos tempo e menor número
de aplicações do estímulo para que
se estabeleça uma resposta condicionada. Os fetichistas
e outros com desvios sexuais, tendem a ser pessoas introvertidas,
com uma fantasia muito rica, mas que geralmente estão
mal ajustadas aos seus semelhantes e ao mundo exterior.
Provavelmente a tendência para ser facilmente condicionado
é importante no desvio, e esse pode ser o "fator
psíquico de origem desconhecida", mencionado por
Freud em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade,
onde ele acha necessário presumir "que essas impressões
iniciais da vida sexual são caracterizadas por um
aumento da persistência e suscetibilidade à
fixação, em pessoas que mais tarde se tornarão
neuróticas ou pervertidas"
( clique para ver conceito de perversão
). Freud em um de seus artigos sobre" fetichismo"
(1927), diz que essa perversão decorre da negação
da castração, o que leva o sujeito a substituir
o pênis por algum fetiche, como sapato,por exemplo,
para manter a ilusão de um "faz- de - conta que não
me sinto castrado".
Nas
pessoas chamadas normais as peças de vestuário
ou partes do corpo que, para um desviado sexualmente, podem
tornar-se fetiches, servem para atrair a atenção
e despertar o interesse — um interesse que, especialmente
quando recíproco, logo passa a incluir toda à
pessoa com uma ênfase particular nos órgãos
genitais. Essa extensão é bloqueada no fetichista,
seu interesse para no fetiche e concentra-se nele, atribuindo-lhe
um significado que pertence à pessoa como um todo ou
aos órgãos genitais num homem mais normal. Em
vez de espalhar-se, o interesse erótico permanece obsessivamente
fixado naquele aspecto da pessoa que atrai o indivíduo.
Geralmente
a origem do fetiche encontram-se nos primeiros anos da infância;
os autores pré-freudianos contribuíram muito
para esse estudo ao conceberem o fetiche como uma espécie
de reflexo condicionado. Assim, se acidentalmente uma criança
foi excitada pela sensação do vestido de sêda
da sua mãe, pela visão das roupas interiores
da irmã, ou pelo tato ou cheiro do protetor de borracha
debaixo de seu bercinho, suponha-se que ela permaneceria sensível
a esses objetos particulares e exigiria sua presença
como um elemento indispensável da excitação
erótica.
O
fetichista, como todos os desviados sexuais, tem sentimentos
de culpa e de incapacidade sexual. Isso tende a torná-lo
excessivamente ansioso em qualquer situação
sexual e, por conseguinte, consciente ou inconscientemente,
ele teme a impotência.( Não discutimos que, em
certo nível, esse medo da impotência seja devido
ao medo da castração.) Por isso cria uma situação
em que esta certo de ser potente, e não há nada
mais certo do que uma coisa que ele sabe tê-lo excitado
no passado. O fetiche, que se estabeleceu com um estímulo
sexual durante a infância, não é abandonado
em troca da pessoa total, como acontece com indivíduos
normais, porque o fetichista necessita dele como algo em que
se possa basear para conseguir a ereção. Ele
não pode estar necessariamente seguro é, em
certo sentido, uma figura amedrontadora e, portanto, tão
inibidora da ereção quanto estimuladora de desejo.
(Traços deste medo explicam o fenômeno comum
da impotência quando um homem tenta pela primeira vez
uma relação sexual com nova parceira). Dessa
maneira o fetiche atua como tranqüilizante — uma defesa
contra o medo, um dispositivo mágico que garante a
potência.
Muitos
fetiches, por vezes, tem um significado sadomasoquista. A
história da moda feminina está cheia de truques
que não só acentuam características sexuais
da mulher, como também limitam os movimentos até
o ponto do desconforto, se não da verdadeira dor. O
sapato de salto alto, provavelmente o mais comum dos fetiches,
é um exemplo. Pouco prático, desconfortável,
bastante constrangedor, ele encurta o passo, torna impossível
andar em longas distâncias e requer freqüentes
consertos. No entanto, os saltos altos são uma arma
tão poderosa dentre os artifícios femininos
para atrair os homens, que a estrutura dos aeroplanos e o
assoalho dos grandes edifícios tiveram que ser modificados
para que elas pudessem continuar a usá-los sem sofrer
muitos danos. Muitas modas femininas são aparentemente
destinadas a dar às mulheres aparência de maior
fragilidade e desamparo do que elas realmente tem; isso agrada
aos homens porque os coloca numa posição superior,
na qual podem ser protetores, dominadores e fisicamente mais
ativos. Conforme indicamos anteriormente, o desejo sádico
de ter um objeto masoquista de estar à mercê
de um amante dominador pode ser encontrado em qualquer mulher.
Segundo
a classificação de transtornos mentais e de
comportamento da CID-10 (OMS) , Classifica o fetichismo como
dependência de alguns objetos inanimados como instímulo
para excitação e satisfação sexual,
mas na diretriz de diagnóstico, o fetichismo deve ser
em caso em que o fetiche é a fonte mais importante
de estimulação sexual ou é essencial
para a resposta sexual satisfatória.
Fantasias
fetichistas são comuns, mas não chegam a ser
um transtorno a não ser que levem a rituais que sejam
tão compulsórios ou inaceitáveis a ponto
de interferir com relação sexual e causar angústia
no indivíduo, Todavia, é importante frisar que
os fetichista são pessoas que não causam mal
a ninguém. Como todo homem guarda em si mesma formas
embrionárias de fetichismo, espera-se que a maior compreensão
possa ser fonte condescendência para esse desvio sexual
tão comum.
Normalmente
o fetichismo é limitado quase exclusivamente a homens.
Conceito
de perversão
O
conceito de perversão etimologicamente, a palavra
resulta de per + vertere ( ou seja, pôr
às avessas, desviar ) designando o ato de o sujeito
perturbar a ordem ou o estado natural das coisas. Logo, de
acordo com esse significado, o conceito de perversão
foi estendido,por alguns autores, dentro e fora da psicanálise,
para uma abrangência que inclui outros devios que não
unicamente os sexuais, como seriam os casos de perversões
morais ( ex. os proxenetas ), as sociais ( ex. psicopatia
), as perversões alimentares ( anorexia, bulimia )
as institucionais ( desvio da finalidade para a qual a instituição
foi criada), as do setting psicanalítico, etc.
No
entanto, em sentido mais estrito, a maioria dos autores, mesmo
na atualidade, matém fidelidade a Freud e defende a
posição de que, em psicanálise, o termo
perversão deve designar unicamente os desvios ou aberrações
das pulsões sexuais, mesmo reconhecendo a existência
de outros impulsos, como os ligados à pulsão
de morte, tão exaltada pela escola kleiniana.
Outro
ponto que deve ser bem enfatizado é o que se refere
à necessidade de estabelecer uma distinção
entre perversão e perversidade. A esse respeito, Laplanche
e Pontalis ( 1967 ) assinalam que existe uma ambigüidade
no adjetivo perverso, que corresponde àqueles dois
substantivos. No entanto, enquanto "perversão " alude
a uma estrutura que se organiza como defesa contra angústias,
perversidade refere-se a um caráter de crueldade e
malignidade. Assim, o perverso ( no sentido de perversão
) não busca primariamente a sensualidade; antes, essa
comporta-se como uma triunfante válvula de escape maníaca
contra as ansiedades paranóides, especialmente as depressivas.
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Fontes
bibliográficas
: Freud. Sigmund —
Psicopatologia da vida cotidiana
Storr,
Anthony — Desvios sexuais.
Zimerman,
David — Vocabulário Comtemparâneo de Psicanálise
World
Health Org. Geneva — CID -10
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