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O País dos Diplomas

 

 

Professor Eugêncio Gudin*
Este artigo foi publicado no jornal
O GLOBO em 19/03/1971

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07, Abril//2003

“Li, há dias, na seção de correspondência de O Globo a carta de um pai que se queixava, amargamente, do Ministério da Educação, pelo fato de não haver lei alguma de proteção aos técnicos de nível médio".

Tenho um filho, dizia o digno missivista, que fez o curso técnico de química industrial com boas notas e que é caixeiro de sapataria porque não encontra trabalho. Acrescentou, estranhando, que as indústrias sejam obrigadas a ter engenheiros químicos responsáveis, mas não técnicos.

Finaliza exclamando: Vejo diariamente surgirem cursos técnicos, de turismo, de mercado exterior, etc. Coitados dos que caem nessas arapucas.

A proposição quase importa em exigir que todos os portadores de diplomas, ao fim de um curso qualquer, tenham colocação assegurada no setor correspondente. Tive eu próprio várias vezes ocasião de ouvir queixas de ex-estudantes meus, que não conseguiam colocar-se como economistas. O que tudo denota um lamentável equivoco. Ou antes, dois equívocos.

O primeiro consiste na omissão da circunstância de que quando o estudante se matricula em uma escola ou um curso, fá-lo por sua livre e espontânea vontade, sem consultar qualquer agência governamental ou profissional sobre a probabilidade ou não de seu futuro aproveitamento. Tanto assim que quando os cursos oficiais ou particulares de ensino superior não oferecem o número de vagas correspondente ao de candidatos, surge a chamada questão dos excedentes, que importa em contestar a legitimidade da fixação de um limite máximo de vagas de primeira entrância.

Não parece ocorrer aos interessados a consideração da demanda, existente ou inexistente, para cada espécie de profissionais, o que é importante não só quanto às possibilidades de seu futuro aproveitamento como quanto à possível criação de escolas não correspondentes às solicitações do mercado de trabalho.

O Segundo equívoco consiste em desconhecer que o aproveitamento ou não de cada profissional recém-formado depende da sua capacidade individual. Quando em 1956, último ano em que exerci o magistério na Faculdade Nacional de Economia (da então Universidade do Brasil), ao proferir a aula inaugural dos cursos, tive ocasião de chamar a atenção dos colegas como do Ministro da Educação para o fato de que, em turmas de cerca de 30 alunos, que então eram, três, quatro ou cinco saíam com preparo bom ou satisfatório; quanto aos demais, isto é, na média geral, o resultado não era auspicioso.

Ora, acontece que nesse mesmo ano, dando minha habitual leitura aos artigos do Economic Journal, a tradicional revista inglesa da Royal Economic Society, ali encontrei o discurso do novo presidente da Sociedade Prof. Lionel Robbins (hoje Lorde Robbins), por muitos anos professor e diretor da London School of Economics, em que esse ilustre mestre dizia do aproveitamento dos seus alunos : “Para os primeiros e os bons segundos", dizia Robbins, "a tinta ainda não secara em seus diplomas, quando eles já estavam colocados,” Quanto aos demais, dependia da sorte.

A idéia de que o fato de ser portador de um diploma dá direito a uma colocação é inteiramente frustrante. Dá direito a exercer eventualmente a profissão Em outras palavras, é uma condição necessária, mas não suficiente, para que o indivíduo seja aproveitado nos misteres de sua profissão. Dependente também da sorte de vir o indivíduo a trabalhar em um gênero de serviço para o qual tenha (ou não) especial aptidão. Um economista medíocre, por exemplo, pode vir a ser, por vocação, um grande banqueiro ou presidente de uma grande empresa, graças a predicados outros que possua além do diploma de economista.

O elevado número de diplomados, que, nas várias profissões, não encontram o aproveitamento a que aspiravam, conduz à campanha dos sindicatos profissionais na defesa acirrada da "regulamentação da profissão", não somente no sentido legítimo dessa instituição (controle do exercício da Medicina, por exemplo), mas também como órgão de pressão para forçar empresas ou serviços de Governo a aproveitarem profissionais de que não precisam. O emprego passa assim a ser não mais um produto da demanda e da oferta de capacidade profissional, e sim uma alavanca ou uma imposição legal apoiada na posse de um diploma. Aí também se infiltram manifestações de agressividade quando se recorre a profissionais estrangeiros especializados.

É uma mentalidade do século XVII, e do tempo do mercantilismo, que deve ser abolida em um país como o nosso que precisa da franca liberdade de movimentos para poder desenvolver-se “.

 

 

 
Enviado pelo Professor 
 

 

 

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