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Não se pesca de carretilha
em barranco de rio

 

Leia O País do Diploma

 

 

Maria da Penha Vieira
07, Abril//2003

Há pescadores que não têm como fazer uso da sofisticação de uma vara de pescar com carretilha, menos ainda se embarcados. A estes, o melhor, o mais profícuo é orientá-los para o uso da varinha de bambu, para começar. Como foi-me dito por um sábio pescador, "em barranco de rio, qualquer vara serve". Ou porque o espelho d`água e o tipo de peixe a ser pescado não admite tanta sofisticação ou porque querer fisgar um peixe de 300 quilos, próprio de águas profundas, com vara de pescar em barranco é o melhor sinal de que em não se tratando loucura é má-fé daquele que induz.

Para que se possa pescar usando a sofisticação de uma vara de carbono e carretilha, embarcado com sonar, é preciso saber ler o manual, e inventar, primeiro, um curso superior de pescaria. O mais comum é não ter dinheiro para comprar a requintada ferramenta. Já a vara de pescar, simples, pode ser confeccionada com maiores possibilidades de adequação à sobrevivência. O material usado é encontrado farta e facilmente. O uso do instrumento dispensa manuais de instruções para quem não sabe sequer ler seu próprio nome em letra de forma.

Usando esta comparação, e aplicando-a ao Ensino no Brasil, descobre-se que, o que falta aqui, é gente preparada para pescar com vara de bambu. Pescar o peixe errado com o instrumento inadequado, usando a mesma lógica com referência ao habitat do peixe é o que vem sendo estimulado.

As famílias brasileiras se danam para adquirir instrumentos sofisticados para seus filhos e o que acontece? Eles, sequer tiveram como aprender a usar o imenso leque de possibilidades dos instrumentos tanto quanto não têm como chegar às bacias onde somente lá, esses instrumentos terão utilidade. Os pais enganados pela cultura do "doutor" acabam por enganar seus filhos.

Estimular apenas o uso da pescaria embarcada em águas profundas, usando varas de carbono, carretilha e sonares é o mesmo que estimular o delírio, empurrar o Brasil barranco abaixo.

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Descomplicar, para quê?

 

 

Com tantos arquitetos, engenheiros, administradores de empresas, economistas dirigindo táxis, dentro em pouco, a profissão de motorista profissional vai exigir curso superior. O caminhoneiro graduado em um país que até pode sofrer de amnésia mas, não dá para esquecer com quantos filósofos pode contar.

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O contraste que se constata entre os profissionais de venda de balcões de lojas, de um banco de motorista de táxi e a proliferação de MBA`s, por exemplo, é uma resposta aos desvarios do sistema de ensino brasileiro contrapondo-se ao mercado de trabalho. Para pilotar um boeing não há exigência de diploma de doutor, mas para vendedora de loja de calcas jeans, precisa.

Atrás dos balcões de lojas e banco de motoristas de táxis encontra-se desde assistentes sociais, sociólogos, nutricionistas, arquitetos, inclusive, sem faltar inúmeros advogados.

O mais corriqueiro e curioso é ler os anúncios publicados em jornais nos classificados de empregos. Lojas, simples comércio de porta de rua, exigindo que os candidatos apresentem documentação de curso superior, quando nem o proprietário da loja nem o nosso Presidente da República precisou de diploma de curso superior para exercerem suas profissões e cargos. Quando muitas das nossas maiores fortunas foram feitas por pessoas analfabetas ou semi.

Mas o que se poderia esperar de um sistema de ensino que se esqueceu de formar técnicos ? Qualificar mão-de-obra para matar fome? O país do sonho do "canudo de papel" do sonho do "filho doutor". A mocinha que estuda Letras na UERJ, diz meia dúzias de palavras em alemão e nunca ouviu falar de Göete?

 

Banho de informação

 

A nutricionista que fica penalizada com os nordestinos que "ainda comem carne seca, farinha, feijão e fubá? O que sabe, de verdade, a ou o nutricionista dos hábitos alimentares e da cultura do povo do interior de qualquer região do Brasil ? Alguém aí já ouviu falar na folha conhecida como bredo ( Amarantus virides ), tão apreciada pela culinária sazonal nordestina quanto nutritiva ?

Nesse campo convém até fazer uma luz. O cabrobó, o cabrunco lá de onde o vento-faz-a-curva, não passa fome como pensa o alarme. Mesmo aqueles que comem carne seca, farinha, feijão e fubá não deixam perdidas oportunidades que sempre têm de abastecer-se de sais minerais e vitaminas, ao chupar um caju, uma manga, para falar de frutas conhecidas. Mas há ainda outras frutas das quais poucos nutricionistas ouviram falar. Uma infinidade de frutos silvestres desconhecidos para a maioria dos brasileiros viventes no Eixo Rio/São Paulo. Outros conhecidos, ingá, abil, tamarindo, sapoti, abricó, graviola, podendo-se incluir oleaginosas como o piqui, coco-católé, jatobá, coco-babão e tantos não registrados do conhecimento "acadêmico" podem ser encontrados no meio do "mato".

Esses poucos exemplos, na roça é mato. Mato mesmo, pois é lá que se encontra tudo isso. Qualquer terreirinho tem um pé de manga, uma latada de maracujá, uma rama de abóbora e uns talinhos de macaxeira, cujas folhas tem grande teor nutritivo. Sem falar no inhame de verdade, não esse inhame que o roceiro nordestino e nortista chama de "cará-babão"e que ninguém come porque "só serve para alimentar os porcos". Nordestino que se preza sente-se ofendido quanto um sulista confunde o dourado abacaxi com o verdoso e azedo ananás. Crianças adoram frutas silvestres como melão-de-são-caetano, góia ( não é goiaba ), murta, oliveiras ( cá, conhecida como jamelão ) e jambo, que nascem em qualquer lugar, por obra da continuação da própria natureza, citando apenas esses.

Hoje, a tão conhecida, valorizada e exportada acerola não passava de "coisinha sem valor" que os "meninos" em suas andanças pelos matos iam encontrando e comendo, tanto quanto os melões-de-são-caetano que se esparramam pelos cemitérios. A folha do melão-de-são-caetano, para enriquecer, é, também, excelente adstringente e alvejante. Essas pequenas descobertas ainda não são científicas. Elas vêm do conhecimento e prática popular e como sempre, depois de pesquisadas são consagradas como "grandes descobertas científicas".

Os caiçaras, têm frutas como o coco verde e costumam comer frutos silvestres próprios da vegetação local, de beira-mar, sem faltar o caju. Quantas universidades incluíram em seus cursos, o conhecimento da diversidade das nossas soluções alimentares e possibilidades alimentícias?

Todo interiorano conhece: comer o quê não mata, engorda

Neste, como em outros campos, o que falta entre as Universidades privadas é a troca de informação com órgãos governamentais e um exemplo de boa fonte é a EMBRAPA — EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA PECUÁRIA , centro de pesquisa de reconhecida excelência, que tem outros braços de alcance —, com capacidade para entupir nossas universidades de conhecimentos importantíssimos. Os projetos desenvolvidos para esta área da alimentação, bem como, claro, toda área de agricultura, agropecuária, com excelência em pesquisas tem, apesar de todas as dificuldades e travamentos políticos, cumprido seu papel de forma efetiva. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural tem apresentado, ao longo de sua existência resultados contando, principalmente, com a importância do seu pessoal de curso técnico-profissional, tal como na EMBRAPA.

Tanto o pessoal de pesquisa — pescadores peritos no manejo da pesca com vara de carbono e carretilha embarcados — quanto o pessoal de formação técnica — pescadores peritos no manejo da pesca com vara de bambu e/ou molinete, embarcados ou não — todos, são absolutamente necessários.

Aqui, como se vê, poderíamos ter um excelente curso para formação de técnicos em nutrição ao invés de um direto "curso superior" em nutrição.

 

Precisa mesmo de Diploma?

 

Sempre aparece alguém que consegue incutir na sociedade brasileira grandes "inovações". Chega ao ponto de "provar" por a + b, que é preciso mudar tudo, para se criar outros tipos de necessidades, falsas evoluções que no fim de tudo encontram-se mesmo em um círculo de inacabados, porque assim convém. Passa o tempo, retoma-se o mesmo caminho como se esse mesmo caminho fosse coisa nova e como tal é apresentado à sociedade que compra o velho embrulhado de novo malfeito.

Os velhos cursos profissionalizantes das Escolas Técnicas são um exemplo. Ficaram escondidos no tempo dos jogos de interesses econômicos acabaram camuflados em Cursos Universitários. O "novo" reformata-se nos cursos técnicos oferecidos pelas Universidades particulares. Os pais, tanto quanto os jovens se matam para alcançar seus sonhos de "doutores" pensando que muitos desses cursos são politécnicos. Se decidissem por dirigir um táxi, desde cedo, apresentariam cultura adquirida muito mais consistente. — . Poderiam ter lido todos os livros que tiveram que ler sem ser o "livro" de páginas xerocadas, recomendado e utilizado nas universidades e faculdades deste Brasil. Sequer, bibliotecas decentes são oferecidas pelos estabelecimentos de ensino. E, o mais vergonhoso é que, estes estabelecimentos formam suas prateleiras de livros pedindo doações às editoras. Chega a ser ofensivo.

Aliás, uma boa pergunta seria: qual a diferença entre qualquer pessoa que saiba dirigir "carro de passeio" para aquele que dirige veículos pesados ? Tem curso superior ? E para pilotar avião comercial, tem ? Alguém quer profissão mais complexa do que pilotar um avião a jato e onde está a exigência de curso universitário para que alguém possa exercer a profissão ?

Penso que ninguém duvida do tanto de sólidos e amplos saberes em diversas áreas do Conhecimento que um piloto de avião comercial necessita adquirir e para isso não precisa de curso universitário. Pilotar um Boeing, um Airbus, mesmo que tenha ao lado um engenheiro! Ser responsável por vidas, tanto quanto um médico, ou é bem possível que mais do que um médico. Depois do sinistro, quem tem que dar a notícia ruim aos familiares e às autoridades, na mesma medida das responsabilidades, é o piloto e o cirurgião. Está aqui, o absurdo deste imenso e insensato Brasil.

Para chegar a ser um piloto de grandes e sofisticadas aeronaves, começa-se pescando com vara de bambu sem molinete.

Antes de prosseguir a leitura veja o melhor dos exemplos
Curso de Aviação

Em outros cursos de necessária comprovação de conhecimentos específicos como Arquitetura e Engenharia deveria haver técnicos no mesmo modelo da importância que a auxiliar de enfermagem e paramédico têm para a Medicina. Os cursos profissionalizantes, os técnicos, formariam mão-de-obra qualificada e especializada, antes da necessidade do curso superior.

Importante seria pensar em vários níveis de cursos técnicos com possibilidades de extensão e ampliação do conhecimento tal como os cursos para formação de pilotos. No caso da auxiliar de enfermagem, um curso que elevasse os conhecimentos. Seria o caso de uma auxiliar de enfermagem, após anos de prática comprovada ser, naturalmente, indo direto ao curso técnico de Enfermagem, hoje, Curso Superior. Estes técnicos, que no decorrer do exercício da profissão, em sentindo necessidade e desejando, fariam opção pela ampliação dos seus conhecimentos.

Certas atividades profissionais prescindem de formação acadêmica. Já imaginaram os maiores nomes da literatura brasileira e internacional, nomes consagrados, desvalorizados porque não consta em suas biografias um curso universitário? E que tal se só puder escrever um conto, quem tiver diploma em Literatura ou Letras ? Poderá, quem sabe, um dia, no Brasil a coisa ser assim, mas teremos com certeza, muitos escritores tecnicamente corretos mas que não conseguirão transferir absolutamente nada que não seja técnico: perfeitas técnicas de redação com parágrafos perfeitos, tal Machado de Assis, mas sem alma. O curso universitário ensinaria técnicas, mas nunca, como ser um escritor, nunca. Jamais, como dar vida a um personagem. Como cantores que não conseguem ser intérpretes.

Vejamos o grande poeta americano Walt Whittman, desprezado pelos intelectuais de sua época que o desdenhavam porque ele era um simples jornalista e não somente por ser homossexual. O mesmo acontecendo a um dos conhecidos nomes da literatura russa, Tchekhov, que chegou mesmo a sofrer, acintosamente, humilhação por isto, mas não apenas. Aos olhos dos seus contemporâneos, Tchekov não era um dos seus "pares", não era escritor e sim, um simples jornalista ( mesmo sendo médico ).

Tanto Walt Whittman como Tchekhov não eram reconhecidos como intelectuais. Lembrem-se de que naquela época, jornalista não poderia ser aceito como intelectual, mas também, não precisava ter curso universitário para ser. O curso não existia mas o jornalista existia e se fazia necessária sua existência. O que vai acontecer quando vierem exigências especiais para que alguém, qualquer pessoa, possa escrever livros? Curso superior para Escritor ? Que nome terá o curso? A diferença em si, já existe: o autor é uma coisa e o escritor é outra. A diferença é mais simples: vocação para ser escritor. Talvez, por isso mesmo, tão simples que complica a compreensão.

Jornalismo, a profissão que tem sido objeto de idas e voltas na Justiça nesses tempos de esparramo de cursos superiores. No caso dos escritores de antanho, o corporativismo era devido ao preconceito intelectual e no caso do jornalismo, hoje, para nós brasileiros, o corporativismo desenvolveu-se na direção dos interesses econômicos e financeiros — defendidos por órgão de classe dirigido e regido pelo sistema de ensino privado. Um jornalista, por exemplo, sentaria num Airbus e seria capaz de conduzir uma aeronave de grande porte na hora ? A resposta é não. Mas o contrário, em 100, ao menos um, com certeza seria capaz de escrever um excelente artigo sem nenhuma ajuda. E muito bem escrito. Seria capaz, também, de escrever uma bela peça de ficção. Da mesma forma como Walt Whittman não precisou de diploma para exercer o bom jornalismo nem para ser o fantástico poeta que foi.

Os dispendiosos investimentos que os pais fazem para ver seus filhos "doutores" e o tempo gasto mesmo com três anos de estudos para concluírem alguns cursos universitários, pela metade, todos esses esforços poderiam apresentar mais retorno se pensassem em cursos profissionalizantes. O mais caro mesmo é mudar a mentalidade.

Leia — Admirável é o texto do ilustre Professor Eugenio Gudin, Mestre dos nossos economistas mais respeitáveis, que continua novo, como se fosse ser escrito na semana que vem, ainda que tantos anos tenham se passado. Ler o artigo do Professor Gudin nos faz sentir envergonhados pelo tanto que o Brasil não conseguiu avançar, enxergar sua realidade.

 

 

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