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Há pescadores
que não têm como fazer uso da sofisticação
de uma vara de pescar com carretilha, menos ainda se embarcados.
A estes, o melhor, o mais profícuo é orientá-los
para o uso da varinha de bambu, para começar. Como foi-me
dito por um sábio pescador, "em barranco de rio,
qualquer vara serve". Ou porque o espelho d`água
e o tipo de peixe a ser pescado não admite tanta sofisticação
ou porque querer fisgar um peixe de 300 quilos, próprio de
águas profundas, com vara de pescar em barranco é
o melhor sinal de que em não se tratando loucura é
má-fé daquele que induz.
Para
que se possa pescar usando a sofisticação de uma vara
de carbono e carretilha, embarcado com sonar, é preciso saber
ler o manual, e inventar, primeiro, um curso superior de pescaria.
O mais comum é não ter dinheiro para comprar a requintada
ferramenta. Já a vara de pescar, simples, pode ser confeccionada
com maiores possibilidades de adequação à sobrevivência.
O material usado é encontrado farta e facilmente. O uso do
instrumento dispensa manuais de instruções para quem
não sabe sequer ler seu próprio nome em letra de forma.
Usando esta
comparação, e aplicando-a ao Ensino no Brasil, descobre-se
que, o que falta aqui, é gente preparada para pescar com
vara de bambu. Pescar o peixe errado com o instrumento inadequado,
usando a mesma lógica com referência ao habitat
do peixe é o que vem sendo estimulado.
As famílias
brasileiras se danam para adquirir instrumentos sofisticados para
seus filhos e o que acontece? Eles, sequer tiveram como aprender
a usar o imenso leque de possibilidades dos instrumentos tanto quanto
não têm como chegar às bacias onde somente lá,
esses instrumentos terão utilidade. Os pais enganados pela
cultura do "doutor" acabam por enganar seus filhos.
Estimular apenas
o uso da pescaria embarcada em águas profundas, usando varas
de carbono, carretilha e sonares é o mesmo que estimular
o delírio, empurrar o Brasil barranco abaixo.
.
Descomplicar, para
quê?
Com tantos arquitetos,
engenheiros, administradores de empresas, economistas dirigindo
táxis, dentro em pouco, a profissão de motorista
profissional vai exigir curso superior. O caminhoneiro graduado
em um país que até pode sofrer de amnésia
mas, não dá para esquecer com quantos filósofos
pode contar.
.
O contraste
que se constata entre os profissionais de venda de balcões
de lojas, de um banco de motorista de táxi e a proliferação
de MBA`s, por exemplo, é uma resposta aos desvarios do sistema
de ensino brasileiro contrapondo-se ao mercado de trabalho. Para
pilotar um boeing não há exigência de diploma
de doutor, mas para vendedora de loja de calcas jeans, precisa.
Atrás
dos balcões de lojas e banco de motoristas de táxis
encontra-se desde assistentes sociais, sociólogos, nutricionistas,
arquitetos, inclusive, sem faltar inúmeros advogados.
O mais corriqueiro
e curioso é ler os anúncios publicados em jornais
nos classificados de empregos. Lojas, simples comércio de
porta de rua, exigindo que os candidatos apresentem documentação
de curso superior, quando nem o proprietário da loja nem
o nosso Presidente da República precisou de diploma de curso
superior para exercerem suas profissões e cargos. Quando
muitas das nossas maiores fortunas foram feitas por pessoas analfabetas
ou semi.
Mas o que se
poderia esperar de um sistema de ensino que se esqueceu de formar
técnicos ? Qualificar mão-de-obra para matar fome?
O país do sonho do "canudo de papel" do sonho do
"filho doutor". A mocinha que estuda Letras na UERJ, diz
meia dúzias de palavras em alemão e nunca ouviu falar
de Göete?
Banho
de informação
A nutricionista
que fica penalizada com os nordestinos que "ainda comem carne
seca, farinha, feijão e fubá? O que sabe, de verdade,
a ou o nutricionista dos hábitos alimentares e da cultura
do povo do interior de qualquer região do Brasil ? Alguém
aí já ouviu falar na folha conhecida como bredo (
Amarantus virides ), tão apreciada pela culinária
sazonal nordestina quanto nutritiva ?
Nesse campo
convém até fazer uma luz. O cabrobó, o cabrunco
lá de onde o vento-faz-a-curva, não passa fome como
pensa o alarme. Mesmo aqueles que comem carne seca, farinha, feijão
e fubá não deixam perdidas oportunidades que sempre
têm de abastecer-se de sais minerais e vitaminas, ao chupar
um caju, uma manga, para falar de frutas conhecidas. Mas há
ainda outras frutas das quais poucos nutricionistas ouviram falar.
Uma infinidade de frutos silvestres desconhecidos para a maioria
dos brasileiros viventes no Eixo Rio/São Paulo. Outros conhecidos,
ingá, abil, tamarindo, sapoti, abricó, graviola, podendo-se
incluir oleaginosas como o piqui, coco-católé, jatobá,
coco-babão e tantos não registrados do conhecimento
"acadêmico" podem ser encontrados no meio do "mato".
Esses poucos
exemplos, na roça é mato. Mato mesmo, pois é
lá que se encontra tudo isso. Qualquer terreirinho tem um
pé de manga, uma latada de maracujá, uma rama de abóbora
e uns talinhos de macaxeira, cujas folhas tem grande teor nutritivo.
Sem falar no inhame de verdade, não esse inhame que o roceiro
nordestino e nortista chama de "cará-babão"e
que ninguém come porque "só serve para alimentar
os porcos". Nordestino que se preza sente-se ofendido quanto
um sulista confunde o dourado abacaxi com o verdoso e azedo ananás.
Crianças adoram frutas silvestres como melão-de-são-caetano,
góia ( não é goiaba ), murta, oliveiras ( cá,
conhecida como jamelão ) e jambo, que nascem em qualquer
lugar, por obra da continuação da própria natureza,
citando apenas esses.
Hoje, a tão
conhecida, valorizada e exportada acerola não passava de
"coisinha sem valor" que os "meninos" em suas
andanças pelos matos iam encontrando e comendo, tanto quanto
os melões-de-são-caetano que se esparramam pelos cemitérios.
A folha do melão-de-são-caetano, para enriquecer,
é, também, excelente adstringente e alvejante. Essas
pequenas descobertas ainda não são científicas.
Elas vêm do conhecimento e prática popular e como sempre,
depois de pesquisadas são consagradas como "grandes
descobertas científicas".
Os caiçaras,
têm frutas como o coco verde e costumam comer frutos silvestres
próprios da vegetação local, de beira-mar,
sem faltar o caju. Quantas universidades incluíram em seus
cursos, o conhecimento da diversidade das nossas soluções
alimentares e possibilidades alimentícias?
Todo interiorano
conhece: comer o quê não
mata, engorda
Neste, como
em outros campos, o que falta entre as Universidades privadas é
a troca de informação com órgãos governamentais
e um exemplo de boa fonte é a EMBRAPA — EMPRESA BRASILEIRA
DE PESQUISA PECUÁRIA , centro de pesquisa de reconhecida
excelência, que tem outros braços de alcance —, com
capacidade para entupir nossas universidades de conhecimentos importantíssimos.
Os projetos desenvolvidos para esta área da alimentação,
bem como, claro, toda área de agricultura, agropecuária,
com excelência em pesquisas tem, apesar de todas as dificuldades
e travamentos políticos, cumprido seu papel de forma efetiva.
A Empresa de Assistência Técnica e Extensão
Rural tem apresentado, ao longo de sua existência resultados
contando, principalmente, com a importância do seu pessoal
de curso técnico-profissional, tal como na EMBRAPA.
Tanto o pessoal
de pesquisa — pescadores peritos no manejo da pesca com vara
de carbono e carretilha embarcados — quanto o pessoal de formação
técnica — pescadores peritos no manejo da pesca com vara
de bambu e/ou molinete, embarcados ou não — todos, são
absolutamente necessários.
Aqui, como se
vê, poderíamos ter um excelente curso para formação
de técnicos em nutrição ao invés de
um direto "curso superior" em nutrição.
Precisa
mesmo de Diploma?
Sempre aparece
alguém que consegue incutir na sociedade brasileira grandes
"inovações". Chega ao ponto de "provar"
por a + b, que é preciso mudar tudo, para se criar outros
tipos de necessidades, falsas evoluções que no fim
de tudo encontram-se mesmo em um círculo de inacabados, porque
assim convém. Passa o tempo, retoma-se o mesmo caminho como
se esse mesmo caminho fosse coisa nova e como tal é apresentado
à sociedade que compra o velho embrulhado de novo malfeito.
Os velhos cursos
profissionalizantes das Escolas Técnicas são um exemplo.
Ficaram escondidos no tempo dos jogos de interesses econômicos
acabaram camuflados em Cursos Universitários. O "novo"
reformata-se nos cursos técnicos oferecidos pelas Universidades
particulares. Os pais, tanto quanto os jovens se matam para alcançar
seus sonhos de "doutores" pensando que muitos desses cursos
são politécnicos. Se decidissem por dirigir um táxi,
desde cedo, apresentariam cultura adquirida muito mais consistente.
— . Poderiam ter lido todos os livros que tiveram que ler sem ser
o "livro" de páginas xerocadas, recomendado e utilizado
nas universidades e faculdades deste Brasil. Sequer, bibliotecas
decentes são oferecidas pelos estabelecimentos de ensino.
E, o mais vergonhoso é que, estes estabelecimentos formam
suas prateleiras de livros pedindo doações às
editoras. Chega a ser ofensivo.
Aliás,
uma boa pergunta seria: qual a diferença entre qualquer pessoa
que saiba dirigir "carro de passeio" para aquele que dirige
veículos pesados ? Tem curso superior ? E para pilotar avião
comercial, tem ? Alguém quer profissão mais complexa
do que pilotar um avião a jato e onde está a exigência
de curso universitário para que alguém possa exercer
a profissão ?
Penso que ninguém
duvida do tanto de sólidos e amplos saberes em diversas áreas
do Conhecimento que um piloto de avião comercial necessita
adquirir e para isso não precisa de curso universitário.
Pilotar um Boeing, um Airbus, mesmo que tenha ao lado um engenheiro!
Ser responsável por vidas, tanto quanto um médico,
ou é bem possível que mais do que um médico.
Depois do sinistro, quem tem que dar a notícia ruim aos familiares
e às autoridades, na mesma medida das responsabilidades,
é o piloto e o cirurgião. Está aqui, o absurdo
deste imenso e insensato Brasil.
Para chegar
a ser um piloto de grandes e sofisticadas aeronaves, começa-se
pescando com vara de bambu sem molinete.
Antes
de prosseguir a leitura veja o melhor dos exemplos
— Curso de Aviação
Em outros cursos
de necessária comprovação de conhecimentos
específicos como Arquitetura e Engenharia deveria haver técnicos
no mesmo modelo da importância que a auxiliar de enfermagem
e paramédico têm para a Medicina. Os cursos profissionalizantes,
os técnicos, formariam mão-de-obra qualificada e especializada,
antes da necessidade do curso superior.
Importante seria
pensar em vários níveis de cursos técnicos
com possibilidades de extensão e ampliação
do conhecimento tal como os cursos para formação de
pilotos. No caso da auxiliar de enfermagem, um curso que elevasse
os conhecimentos. Seria o caso de uma auxiliar de enfermagem, após
anos de prática comprovada ser, naturalmente, indo direto
ao curso técnico de Enfermagem, hoje, Curso Superior. Estes
técnicos, que no decorrer do exercício da profissão,
em sentindo necessidade e desejando, fariam opção
pela ampliação dos seus conhecimentos.
Certas atividades
profissionais prescindem de formação acadêmica.
Já imaginaram os maiores nomes da literatura brasileira e
internacional, nomes consagrados, desvalorizados porque não
consta em suas biografias um curso universitário? E que tal
se só puder escrever um conto, quem tiver diploma em Literatura
ou Letras ? Poderá, quem sabe, um dia, no Brasil a coisa
ser assim, mas teremos com certeza, muitos escritores tecnicamente
corretos mas que não conseguirão transferir absolutamente
nada que não seja técnico: perfeitas técnicas
de redação com parágrafos perfeitos, tal Machado
de Assis, mas sem alma. O curso universitário ensinaria técnicas,
mas nunca, como ser um escritor, nunca. Jamais, como dar vida a
um personagem. Como cantores que não conseguem ser intérpretes.
Vejamos o grande
poeta americano Walt Whittman, desprezado pelos intelectuais de
sua época que o desdenhavam porque ele era um simples jornalista
e não somente por ser homossexual. O mesmo acontecendo a
um dos conhecidos nomes da literatura russa, Tchekhov, que chegou
mesmo a sofrer, acintosamente, humilhação por isto,
mas não apenas. Aos olhos dos seus contemporâneos,
Tchekov não era um dos seus "pares", não
era escritor e sim, um simples jornalista ( mesmo sendo médico
).
Tanto Walt Whittman
como Tchekhov não eram reconhecidos como intelectuais. Lembrem-se
de que naquela época, jornalista não poderia ser aceito
como intelectual, mas também, não precisava ter curso
universitário para ser. O curso não existia mas o
jornalista existia e se fazia necessária sua existência.
O que vai acontecer quando vierem exigências especiais para
que alguém, qualquer pessoa, possa escrever livros? Curso
superior para Escritor ? Que nome terá o curso? A diferença
em si, já existe: o autor é uma coisa e o escritor
é outra. A diferença é mais simples: vocação
para ser escritor. Talvez, por isso mesmo, tão simples que
complica a compreensão.
Jornalismo,
a profissão que tem sido objeto de idas e voltas na Justiça
nesses tempos de esparramo de cursos superiores. No caso dos escritores
de antanho, o corporativismo era devido ao preconceito intelectual
e no caso do jornalismo, hoje, para nós brasileiros, o corporativismo
desenvolveu-se na direção dos interesses econômicos
e financeiros — defendidos por órgão de classe dirigido
e regido pelo sistema de ensino privado. Um jornalista, por exemplo,
sentaria num Airbus e seria capaz de conduzir uma aeronave de grande
porte na hora ? A resposta é não. Mas o contrário,
em 100, ao menos um, com certeza seria capaz de escrever um excelente
artigo sem nenhuma ajuda. E muito bem escrito. Seria capaz, também,
de escrever uma bela peça de ficção. Da mesma
forma como Walt Whittman não precisou de diploma para exercer
o bom jornalismo nem para ser o fantástico poeta que foi.
Os dispendiosos
investimentos que os pais fazem para ver seus filhos "doutores"
e o tempo gasto mesmo com três anos de estudos para concluírem
alguns cursos universitários, pela metade, todos esses esforços
poderiam apresentar mais retorno se pensassem em cursos profissionalizantes.
O mais caro mesmo é mudar a mentalidade.
Leia
Admirável é o texto do ilustre Professor Eugenio
Gudin, Mestre dos nossos economistas mais respeitáveis, que
continua novo, como se fosse ser escrito na semana que vem, ainda
que tantos anos tenham se passado. Ler o artigo do Professor Gudin
nos faz sentir envergonhados pelo tanto que o Brasil não
conseguiu avançar, enxergar sua realidade.
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