A sensação de derrota íntima é o primeiro
indício de uma profunda solidão que talvez seja companheira
pelo resto da vida de uma pessoa. Neste ponto quero ressaltar
o primeiro conceito essencial deste texto, que tem o objetivo
de advertência pessoal e social: Qualquer experiência pretérita
de fracasso Afetivo ou separação deveria servir para uma ampliação
de consciência ou crescimento pessoal, nos tornando mais sensíveis
para aquilo de que realmente necessitamos, sendo que jamais
poderíamos nos permitir que ditas experiências nos causassem
amargura ou rancor, que irão se travestir de exigências impossíveis
de serem concretizadas num futuro relacionamento.
Talvez a questão levantada seja a maior
doença afetiva de nossos tempos. Se em algum momento de nossa
vida nos entregamos a alguém que efetivamente não nos correspondeu,
este é um problema puramente de sensibilidade, sendo que a
mesma com toda certeza estava diminuída por não termos percebido
uma escolha errada, ou que no fundo a pessoa em questão era
uma projeção de todas as nossas negatividades não assumidas.
O fato central que temos de perceber é o quanto realmente
de investimento profundo depositamos na relação, ou prevaleceu
nossa cobiça diária para ganhar mais dinheiro?Qual das partes
sempre teve a soberania?
A prática da psicoterapia durante um
pouco mais de um século, provou que o essencial para a cura
de determinada neurose é principalmente a relação que se estabelece
entre terapeuta e paciente. A mesma jamais pode ser algo puramente
técnico, mas, sobretudo um dinamismo onde a troca deve sempre
estar presente. O pagamento de determinada consulta é uma
espécie de depuração para um sujeito que esteve em déficit
no plano emocional em algum momento de sua vida.
Independentemente da questão econômica,
o ponto central deve ser a troca, pois do contrário sobrará
uma concepção mística e donativa de uma relação, onde a conseqüência
é o mais puro sofrimento. Jamais uma verdadeira relação amorosa
pode ser unilateral, pois do contrário há uma escravização
do sentimento. Sabemos da extrema dificuldade da entrega ou
doação numa relação, pois quase todos têm o receio de se sentirem
submissos ou inferiores perante o outro. Obviamente é mais
cômodo ter alguém aos nossos pés, provando nosso poder pessoal
na esfera amorosa,sendo este desejo de possuir a alma do outro,
uma das piores manipulações emocionais que o ser humano tem
desenvolvido em nossa era.
O ser masculino ainda insiste em renegar
toda e qualquer sensibilidade, embora se fale o contrário.
Que se manifestem os psicólogos, onde 90% de sua clientela
é composta por mulheres. Esta constatação é apenas uma das
provas de que o fracasso afetivo sempre é empurrado para o
âmbito da responsabilidade feminina, causando uma depreciação
global em sua autoestima.
O homem procura por força cultural
e maior treino sexual desde a adolescência, a obtenção do
prazer imediato, se recusando na maioria das vezes a participar
da intimidade conjugal ou familiar. O que devemos perguntar
é o que realmente seria o prazer? Seria a satisfação de determinada
fantasia sexual, de poder econômico, ou ambição em todos os
níveis? Este último tópico se aplica na questão afetiva, pois
é só pensarmos na infidelidade conjugal ou a necessidade histórica
da freqüência de prostíbulos por parte do homem.
Se refletirmos profundamente, logo
descobriremos que o prazer máximo reside naquele tipo de pessoa
que jamais sabotaria o mesmo,pelo contrário, cultiva um aprofundamento
não apenas daquilo que possui imenso valor, desenvolvendo
permanentemente uma energia que se transforma em potência,
sendo percebida pelo outro como carisma. Aliás, talvez esta
seja uma das mais escassas qualidades em nossos tempos, pois
é só observarmos como a mídia faz questão de compensar sua
falta, através da exploração da vida íntima de artistas pré-fabricados,
com o intuito de projetarmos nos mesmos um sucesso que jamais
obteremos.
O fato é que o ser masculino há muito
se encontra desnorteado no âmbito do prazer, embora o busque
ardentemente. Freud sempre deu destaque a importância fálica
ou do pênis na sociedade contemporânea, em sua teoria sobre
os conflitos inconscientes, pois o órgão sexual masculino
representava poder ou obtenção do prazer, dada a questão da
soberania patriarcal. Todo objeto valorizado também criava
o pânico da perda. Assim sendo, segundo a teoria freudiana,
a angústia da castração era uma ameaça constante na constelação
mental do menino, principalmente quando observava a vagina
na menina; o que para o primeiro seria uma castração punitiva
por a mesma ter desejado um dos genitores; o famoso complexo
de Édipo. Principalmente através dos sonhos de seus pacientes
Freud elaborou tal dinamismo psíquico.
Porém, outro psicólogo - Alfred Adler,
logo notou que tal construção mental de natureza sexual era
apenas uma metáfora para esconder a verdade oculta por trás
do medo, que era a recusa de se doar profundamente. A angústia
da castração no menino, nada mais era do que um treino precoce
para que no futuro seu pênis ou lado emocional servissem à
apenas ele próprio, jamais compartilhando com outro ser.
Não é difícil aferir tal informação,
pois é só observarmos a maioria dos relacionamentos, para
descobrirmos que embora as pessoas tenham recursos disponíveis
em várias áreas da personalidade, vivem como completos "mendigos"
na esfera emocional.
Fica um tanto simplório a elaboração
de uma teoria inconsciente sexualizada, se esquecendo da dinâmica
social. As brincadeiras infantis acerca da sexualidade, tão
bem observadas por Freud, encerram não apenas a questão de
ter um pênis, mas principalmente como disse acima, é um suposto
treino precoce no sentido de quem irá comandar o lado afetivo.
Não podemos nos deixar levar por ilusões, pois a mente humana
sempre foi treinada para a dissimulação.
A questão teórica acima levantada é
importante para a aferição do que realmente molda a personalidade.
A psicanálise nos últimos cem anos acentuou as precoces relações
emocionais entre pais e filhos como determinantes de neuroses
futuras. O problema é que tais inferências representam apenas
uma parte da questão central, pois não podemos afirmar que
há uma soberania do lado sexual, quando a questão social é
diariamente suscitada nos relacionamentos. Como alguém se
situa na esfera emocional familiar, é sem dúvida vital para
a futura autoestima da pessoa. Porém, não podemos fugir dos
mecanismos sociais e econômicos presentes nos relacionamentos.
Todo ser humano chega ao mundo totalmente
desprotegido e desamparado sob todas as formas, desde biológicas
até emocionais. Assim sendo, todos constroem um desejo veemente
de ter provedores que satisfaçam todas as carências impostas
pela vida. Como a criança lida com a imagem e o real perante
a figura provedora, é a medida mais exata de sua futura saúde
ou doença mental. Muito mais do que desejar afetivamente um
dos genitores, o objetivo central da criança desamparada é
possuir um provedor eterno, pois logo cedo a mesma percebe
a extrema dificuldade pela sobrevivência em nosso mundo.
Um dos objetivos básicos da psicoterapia
é justamente levantar como a pessoa lidou de todas as formas
com a presença ou ausência da figura provedora, pois o resultado
de todo este processo determinará o desenrolar de sua personalidade.
Saberemos então se a pessoa é autoconfiante; tímida; recatada;
extrovertida ou temerosa perante os desafios; crente ou não
em seu potencial ou valor próprio. O que não podemos admitir
é a soberania sexual psíquica, num mundo extremamente material.
As forças condicionantes do psiquismo seguem a mesma trilha
do combate diário pela ambição e sobrevivência, embora o que
mais alveja a alma de qualquer ser humano seja a percepção
de ser realmente amado ou não dentro de seu ambiente de convivência.
Enfim, devemos tomar cuidado para não
incorrer em erro ao confundirmos apego emocional exacerbado
como a essência da neurose, quando a verdade última é o desejo
de eterna exploração econômica dirigido às figuras provedoras.
Acerca do universo feminino, fica explícita a masculinização
do mesmo em nossos tempos. Não apenas por a mulher ter galgado
no último século sua independência econômica, mas, sobretudo
acabou incorporando todo o modelo de ambição material do homem,
inclusive no tocante a descartar relações afetivas.
O perfil da mulher que encontrará indiscutivelmente
um futuro destino de solidão extrema, é aquela pessoa que
almeja tudo pronto de um relacionamento, seja na parte econômica;estética
ou afetiva. Quem não aceitar ir construindo ao longo do tempo,
uma trilha de plena intimidade na ajuda mútua e responsabilidade
com o desenvolvimento de ambas as partes,herdará a fantasia
absurda de um eterno modelo provedor que despotencializa a
mulher;a infantilizando e reforçando a disputa de poder nos
relacionamentos.
Curiosamente venho presenciando um
número crescente de mulheres que se ressentem de sua independência
econômica, alegando ser um imenso fardo a carregar. Tais mulheres
não é que desejem um retorno ao passado, algumas talvez sim,
mas observo que esta mulher estressada digamos assim, pela
sua dupla jornada econômica e familiar, desenvolveu uma mágoa
e rancor por todo o esforço acima citado. A conseqüência é
o trancamento completo de sua capacidade afetiva e de entrega.
Como disse acima, esta mulher incorporou os padrões doentios
masculinos, e agora procura agir na mais completa exigência
de ambição e poder em todas as esferas da vida.
Este tipo de mulher geralmente tem
um histórico familiar de um pai quase que totalmente ausente.
Vendo o sofrimento e constante submissão da mãe, partem para
uma espécie de reação de conduta oposta, assimilando uma total
rebelião e desprezo pela figura masculina. Sua única meta
passa pelo reforço constante de seu narcisismo seja estético
ou não, colecionando todo tipo de galanteio masculino como
um troféu a ser exibido.
A infelicidade emocional da mulher
citada é extremamente visível, se recusando em boa parte das
vezes a constituírem uma família, canalizando toda a energia
para a esfera do trabalho. Se antigamente a mulher era castrada
em suas metas profissionais, apenas lhe sobrando o aspecto
familiar, tenho reparado que em alguns casos está se dando
o processo inverso em nossos tempos, o solapamento e repressão
da esfera emocional.
Se na era vitoriana estudada por Freud,
a mulher desenvolveu a histeria por não poder gozar a sua
sexualidade devido ao moralismo opressivo da época, que tipo
de nova enfermidade desenvolverá uma mulher independente,
que pode se relacionar sexualmente com total liberdade, mas
totalmente temerosa em compartilhar sua intimidade e com pânico
profundo ao amor e entrega absoluta? A resposta não é muito
animadora, pois o surto de mulheres com alto prestígio social
e estético acometidas de graves perturbações psicológicas
têm aumentado de forma assustadora.
Todos sabem da verdadeira "guerra"
silenciosa ou não, travada entre homens e mulheres nas últimas
décadas. A contradição maior é que o sofrimento de um só pode
ser reparado pela outra parte. O que libertaria o homem de
seu medo e timidez afetiva, é a ajuda singela e penetrante
do carisma afetivo que a mulher carrega em sua natureza. Poucos
seres masculinos carregam este poder citado de gostar profundamente,
e sabemos o quanto é vital ter alguém que realmente sente
isto por nós. Nada causa mais proteção do que tal fato, sendo
o resto pura compensação.
A libertação da mágoa feminina viria
através do poder da praticidade do lado masculino, pois muitas
vezes aquilo que a mulher cultiva como intuição, martelando
sempre no mesmo ponto, nada mais é do que uma paranóia ou
necessidade internalizada de sabotar um processo afetivo,
devido às experiências passadas de frustração. Tenho observado
que embora não seja regra, a mulher retém com muito mais intensidade
a mágoa, não esquecendo em hipótese alguma do passado. Neste
ponto, o pragmatismo masculino poderia ser de grande auxílio
na construção de novas tentativas de troca afetiva profunda.
Claro que tudo acima citado não segue um padrão linear para
cada sexo, sendo que o objetivo é a reflexão profunda sobre
a solidão decorrente dos conflitos emocionais de nossa época.
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Antonio Carlos Alves de Araujo
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Bibliografia: ADLER,ALFRED:
O SENTIDO DA VIDA. EDITORA PAIDÓS, CIDADE DO MÉXICO, MÉXICO
1937 FREUD, SIGMUND: OBRAS COMPLETAS. BIBLIOTECA NUEVA, MADRID,
ESPANHA 1981 AGRADEÇO A IDÉIA E COLABORAÇÃO FUNDAMENTAL SOBRE
O TEMA DOS SOCIÓLOGOS: SIMONE JORGE E IRINEU FRANCISCO BARRETO
JÚNIOR. "NÃO TEMA A TERAPIA, MAS A UTILIZE PARA A MUDANÇA
DE UM ESTILO DE VIDA QUE PARECE NÃO TER FIM." POR RAZÕES ÉTICAS,
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